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O alto-comissário da ONU para os direitos humanos advertiu para o risco “sem precedentes” de o atual conflito no Médio Oriente “desencadear crises nacionais, regionais ou globais a qualquer momento, com um impacto terrível sobre os civis”.
Majid Asgaripour/REUTERA
Intervindo por videoconferência num debate de urgência no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra (Suíça), para discutir os ataques do Irão contra países do Golfo e o seu impacto nos direitos humanos na região, Volker Türk começou por notar que, “mais de três semanas após os Estados Unidos e Israel terem lançado ataques contra o Irão, o conflito está a alastrar-se e a intensificar-se na região e além-fronteiras, sendo os civis os mais afetados”.
“A situação é extremamente perigosa e imprevisível, e criou o caos em toda a região, afetando o Bahrein, o Kuwait, Omã, o Catar, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, a Jordânia e outros países”, disse, acrescentando que também devem ser tidas em conta “as graves repercussões deste conflito para vários outros países da região, incluindo o Iraque e a Síria, bem como para os Territórios Palestinianos Ocupados”.
Observando que “muitos dos ataques neste conflito suscitam sérias preocupações à luz do direito internacional, que proíbe ataques dirigidos contra civis e as suas infraestruturas”, o alto-comissário sublinhou que “os recentes ataques com mísseis perto de instalações nucleares, tanto em Israel como no Irão, sublinham o imenso perigo de uma nova escalada” “Os Estados estão a brincar com uma catástrofe sem precedentes”, advertiu.
“Consequências para além da região”
O chefe dos direitos humanos prosseguiu apontando que “este conflito está também a ter consequências muito graves para além da região”, já que “a interrupção pelo Irão do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz está a afetar as cadeias de abastecimento globais, com implicações graves para algumas das populações mais pobres do mundo”.
“Combustíveis fósseis, medicamentos, alimentos e fertilizantes são apenas alguns dos bens essenciais que estão a ficar retidos no mar. Isto está a perturbar os mercados e o abastecimento energéticos globais e tem o potencial de criar graves crises de fome e de cuidados de saúde. O Programa Alimentar Mundial alerta que quase mais 45 milhões de pessoas poderão cair em situação de fome aguda, a menos que o conflito termine em breve”, alertou.
Reforçando que “os efeitos são mais destrutivos nos países de rendimentos mais baixos”, pois “as economias em desenvolvimento são, em geral, menos capazes de resistir a choques de preços”, Volker Türk comentou que “um conflito nunca pode ser comum ou normal, mas este tem um poder sem precedentes para envolver países além-fronteiras e em todo o mundo”.
“A única forma garantida de evitar isto é pôr fim ao conflito, e exorto todos os Estados, e em particular aqueles com influência, a fazerem tudo o que estiver ao seu alcance para alcançar este objetivo. Não podemos voltar à guerra como instrumento das relações internacionais. Quando alguns Estados poderosos tentam enfraquecer o sistema multilateral, precisamos que os restantes, a grande maioria, o defendam”, concluiu.
Este debate de urgência foi convocado na terça-feira, estando prevista a adoção de uma resolução no final.
Vários países do golfo Pérsico foram atacados pelo Irão nos últimos dias, sendo também objeto de novas ameaças de Teerão.
Na segunda-feira, a Arábia Saudita foi alvo de dois mísseis balísticos, um dos quais foi intercetado enquanto o outro caiu numa zona desabitada.
Nos Emirados Árabes Unidos também foram ouvidas explosões, quando foram intercetados mísseis e drones pelos sistemas de defesa aérea, e no Bahrein, o Ministério do Interior emitiu um alerta a pedir aos cidadãos para se dirigirem a locais seguros.
Além disso, o Irão ameaçou lançar “minas navais” no golfo Pérsico, caso EUA e Israel ataquem as suas costas ou ilhas e a imprensa estatal iraniana publicou listas de potenciais alvos nas infraestruturas energéticas no Médio Oriente, caso o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cumpra a ameaça de destruir centrais elétricas iranianas.
O Irão tem atacado bases militares norte-americanas, bem como infraestruturas civis, nomeadamente aeroportos, portos e instalações petrolíferas em vários países do Golfo, em resposta a ataques semelhantes no país por parte de Israel e dos Estados Unidos.
