Segundo a acusação do Ministério Público a que a Lusa teve hoje acesso, o jovem de 23 anos agora detido na prisão de Monsanto teve contactos com agentes ou colaboradores da Rússia, em Portugal, apesar de não ter sido possível, pela investigação do último ano, saber em que datas e contexto.
O caso começou com o roubo de um computador e de um ‘iPad’ de um militar sueco da NATO, que estava num hotel na Costa da Caparica, em fevereiro do ano passado, para participar numa conferência internacional de robótica.
O jovem, de uma localidade da margem sul do Tejo, soube do evento, ficou hospedado no hotel onde estavam militares da NATO, roubou a uma das trabalhadoras de limpeza do hotel o cartão que abria as portas dos quartos e conseguiu roubar os aparelhos.
A informação que consta no computador não é, no entanto, conhecida, já que nem as autoridades conseguiram ter acesso, “uma vez que a NATO não forneceu o código de desencriptação”, lê-se na acusação.
Ainda assim, o alegado espião foi até à embaixada da Rússia, em Lisboa, onde disse a um dos seguranças que estava a ser perseguido e que tinha “documentos secretos para entregar”.
Sem sucesso na embaixada, e já sabendo que a Polícia Judiciária (PJ) estava a investigar o caso, prontificou-se a colaborar com as autoridades. “Alegou pretender, com essa atuação, mostrar o seu arrependimento e reparar, até onde lhe fosse possível, os prejuízos por si causados”, escreveu o MP.
Na colaboração, que veio mais tarde a revelar-se falsa, o jovem chegou a ser “terceiro encoberto”, sob vigilância da PJ. Aqui, o objetivo seria trocar os equipamentos verdadeiros por outros semelhantes e depois entregá-los na Embaixada da Rússia – sempre vigiado pelos agentes da PJ.
Apesar do plano delineado com a PJ, este “terceiro encoberto” conseguiu escapar aos agentes durante o percurso. “Violando esse plano”, apontou o MP, passou por uma loja da estação de metro da Alameda e foi para a embaixada da Rússia, onde apareceu um carro conduzido por um agente diplomático.
Este agente diplomático terá saído do carro, falado com o alegado espião e recebido uma pen “sem qualquer gesto de hesitação ou surpresa”, descreveu o MP.
No início da investigação, o jovem chegou a garantir que existia uma associação criminosa que passava informações à Rússia, tendo envolvido várias pessoas, incluindo um inspetor da PJ. No entanto, segundo o MP, “trata-se de pessoas que se cruzaram com o arguido, nalguma ocasião da vida”, e com quem teve algumas desavenças.
“No final, o arguido disse que todos eram uns campónios e uns pacóvios de quem se quis aproveitar”, acrescentou o MP.
Durante a investigação, as autoridades descobriram que esteve preso na Ucrânia em agosto de 2023 por suspeitas de espionagem. Segundo informações do Serviço de Informações de Segurança, foi detido “uma vez que na entrada naquele país, deslocação enquanto combatente voluntário, levava consigo armas de fogo e não tinha passaporte” e alegou ainda que trabalhava para o SIS.
No Luxemburgo, para onde emigrou depois de passar pelo Exército, é suspeito de crimes contra o património em cerca de 33 processos e chegou a candidatar-se a uma vaga de segurança no Parlamento Europeu, falsificando o seu currículo, que foi “recebido, analisado e reencaminhado, internamente, pelo Coordenador de Segurança do Parlamento Europeu, lê-se na acusação..
Pelo meio, o jovem – acusado ainda de furto qualificado, uso de documento de identificação alheio, falsas declarações, pornagrafia de menores, condução sem carta e denúncia caluniosa -, vivia em hóteis e alojamentos locais e comprou bilhetes de avião para roubar malas que chegavam ao aeroporto de Lisboa, onde simulava problemas de locomoção para circular de cadeira de rodas, facilitando a passagem pelo controlo de segurança.
