A guerra no Médio Oriente poderá provocar “a pior crise industrial de que há memória humana”, alertou hoje o secretário-geral da Câmara de Comércio Internacional, antes da abertura da conferência ministerial da OMC em Yaoundé, nos Camarões.
“É impossível falar do futuro do sistema comercial sem reconhecer a dimensão do choque que está atualmente a atingir a economia real”, declarou o secretário-geral da Câmara de Comércio Internacional (CCI), John Denton, que participou num painel ao lado da diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala.
“O diretor da Agência Internacional de Energia alertou que o mundo enfrenta uma crise energética mais grave do que os choques petrolíferos da década de 1970”, sublinhou Denton, citado pela agência AFP.
“Do ponto de vista das empresas, pensamos que isto poderá tornar-se a pior crise industrial de que há memória humana. Não apenas devido à subida acentuada dos preços da energia, mas também porque a própria produção industrial está a ser perturbada e desorganizada por escassez de gás e de outros fatores de produção essenciais”, advertiu.
Segundo o responsável, o cenário é alarmante, referindo que há grandes empresas a invocar força maior nos seus contratos de fornecimento e a reduzir a produção, sendo que esta escassez se repercute “na energia, na indústria química e noutras cadeias de abastecimento críticas”, destacou.
O Irão fechou praticamente o estratégico estreito de Ormuz, por onde normalmente passa um quinto da produção mundial de petróleo, bem como gás natural liquefeito, desde os ataques dos EUA e Israel de 28 de fevereiro, que desencadearam o conflito e provocaram uma forte subida dos preços globais do petróleo e do gás.
John Denton salientou que as consequências da crise não se limitam à indústria, afetando também a agricultura, através do comércio de fertilizantes.
“As perturbações no comércio de fertilizantes estão agora a criar um risco muito real para a próxima época de colheitas, com agricultores em todo o mundo — e talvez sobretudo em África — confrontados com escassez de fornecimento e aumentos de preços”, afirmou.
Segundo a OMC, o bloqueio do estreito de Ormuz perturbou efetivamente os abastecimentos de fertilizantes, essenciais para a agricultura mundial, uma vez que cerca de um terço das exportações globais destes produtos passa normalmente por esta via marítima.
“É vital que a comunidade internacional faça tudo o que for possível para restabelecer a navegação comercial em segurança no Golfo, e, ao mesmo tempo, atuar rapidamente para atenuar os danos previsíveis na economia real”, insistiu Denton, indicando que aceitou “juntar-se à iniciativa do secretário-geral da ONU sobre a crise de Ormuz”.
