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Uma sobrevivente reconhece numa fotografia o rosto de quem a atacou há mais de 30 anos e que se admite que possa ser o estripador de Lisboa.
O choque, o medo e a vergonha impedem-na de revelar a identidade, e pede para permanecer no anonimato.
Não tem dúvidas: o homem na foto é o mesmo no retrato robot feito pela Polícia Judiciária, com a sua ajuda, do agressor que a espancou e esfaqueou.
O que lhe aconteceu no dia 1 de novembro de 1992 está registado no depoimento que relatou à PJ.
Aos 15 anos, o vício da droga tinha-a levado à prostituição. Como habitualmente, naquele dia, foi para a rua à procura de clientes. Estava na zona do Restelo, quando por volta da hora de almoço foi abordada por um homem que conduzia um carro branco.
O homem ofereceu-lhe 30 contos, 150 euros. Entrou no carro. O indivíduo levou-a para uma mata onde havia uma construção em ruínas e pararam nesse lugar.
A mulher acordou, conseguiu resistir e o homem abandonou-a naquele local, tendo arrancado a alta velocidade.
“Ana” privou com o suspeito
A fotografia que a SIC mostrou a esta mulher foi entregue por uma pessoa que diz ter conhecido o suspeito, que hoje reside na região do Porto. Identificou-o há alguns anos depois de ter visto o retrato robot exibido numa reportagem de televisão.
“Ana” não tem dúvidas em apontar como principal suspeito o homem com quem privou durante anos.
Para os acontecimentos que terão ocorrido durante os crimes e que constam do processo, apresenta uma explicação, a começar pelo carro.
Na altura das mortes do estripador, várias testemunhas ouvidas pela PJ falavam num veículo branco.
Entre os objetos encontrados nos locais dos crimes, estava uma pulseira com iniciais, que a PJ atribuiu a uma das vítimas, mas “Ana” garante que são as iniciais do nome do suspeito.
Quando viu o retrato robot na reportagem de há cinco anos entrou em contacto com a Polícia Judiciária.
No email a que a SIC teve acesso, enviado por “Ana” à Polícia Judiciária, no dia 19 de abril de 2021, pode ler-se uma descrição pormenorizada de toda a informação que tinha sobre o suspeito. Nunca recebeu qualquer resposta da PJ.
A SIC chegou à fala com o suspeito, que, sem surpresas, negou o envolvimento, dizendo que considera as suspeitas “ridículas”.
Quanto à motivação, “Ana” relata um episódio que o terá marcado para a vida. A mãe do suspeito abandonou os filhos e o marido, decisão que motivou a vinda do homem para Lisboa para a procurar. Foi nesse período que as mortes ocorreram.
Mortes começaram em 1992
As mortes começaram em 1992. Ao longo de oito meses, em Lisboa, cinco mulheres foram encontradas sem vida, assassinadas de forma violenta e sádica.
Três dessas mortes foram atribuídas sem hesitação ao mesmo autor. Em relação às outras duas, permanecem até hoje algumas dúvidas sobre se terão sido cometidas pela mesma pessoa.
Todas as vítimas tinham algo em comum: a prostituição e a toxicodependência.
O primeiro corpo foi encontrado num barracão, em julho de 1992. Era Valentina, de 22 anos, que vivia na Póvoa de Santo Adrião e que se prostituía desde a adolescência para sustentar o vício da droga.
Seis meses depois, surgiu a segunda vítima, Fernanda. Tinha 24 anos e foi encontrada num barracão no centro de Lisboa, esventrada e com a falta de um órgão.
Em abril, apareceu um novo corpo, desta vez em Odivelas. Maria João, de 27 anos, amiga da primeira vítima, foi encontrada esquartejada, com os órgãos espalhados à sua volta e sem parte do intestino.
As três prostitutas foram assassinadas com um objeto cortante, esventradas e sem sinais de violação.
Perante a brutalidade dos crimes, que alarmavam a população, a Polícia Judiciária criou um grupo especial para investigar o caso.
Na época, as técnicas forenses eram limitadas e não incluíam sequer testes de ADN.
Apesar dos fortes indícios, o suspeito não pode ser formalmente acusado, nem que confessasse, uma vez que os crimes já prescreveram.
Ficha técnica
Jornalista: Ana Paula Félix
Imagem: João Venda, José Silva e Diogo Rodrigues
Edição de imagem: Ana Rita
Grafismo: Fernando Ferreira
Drone: 4KFLY
Produção: Teresa Dinis Basso
Iluminação: André Gaspar e Bruno Godinho
Cenografia: Paulo Ferreira e Carlos Ribeiro
Direção: Marta Brito dos Reis e Bernardo Ferrão
