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É possível sobreviver dentro de um tornado? Cientista conseguiu, mas tem sorte em estar vivo


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Um cientista norte-americano descreve, na primeira pessoa, o que é estar dentro de um tornado, combinando um relato de sobrevivência com a explicação científica dos fenómenos atmosféricos que dão origem a estas tempestades.

É possível sobreviver dentro de um tornado? Cientista conseguiu, mas tem sorte em estar vivo

O cientista Perry Samson, Professor Emérito de Ciências Atmosféricas, Universidade de Michigan, teve a sorte de sobreviver para contar a experiência, neste artigo publicado no site The Conversation.

Dentro de um tornado: o relato de um cientista que sobreviveu

Vi o centro de um monstro. A maioria das pessoas descreve o som de um tornado como o de um comboio de carga, mas, de perto, é mais parecido com o rugido de mil motores a jato. Sou uma das poucas pessoas na Terra que conduziu para dentro de um tornado e sobreviveu para contar a história.

Embora possa parecer uma cena de um filme de Hollywood, com um camião blindado de alta tecnologia, a minha experiência foi muito mais perigosa e aterradora.

Sou um cientista atmosférico que estuda tornados, mas só hoje estou vivo graças a decisões tomadas em frações de segundo e a uma enorme dose de sorte. Acreditem: não quero voltar a passar por isto.

O dia em que o céu se abriu

Tudo começou no noroeste do Kansas, onde eu estudava tempestades supercelulares, o tipo de tempestade que produz tornados, com uma equipa de estudantes da Universidade de Michigan.

Estávamos posicionados sob uma tempestade tão escura que tivemos de ligar os faróis dos veículos a meio do dia. De repente, formou-se um tornado, que começou a deslocar-se diretamente na nossa direção.

Os estudantes estavam noutros veículos e conseguiram escapar, mas o meu carro foi rapidamente engolido por uma nuvem de destroços tão densa que deixei de conseguir ver o próprio capot.

Com as opções a esgotarem-se, tomei uma decisão desesperada: virei o carro contra o vento, na esperança de que a aerodinâmica do veículo nos mantivesse presos ao chão, em vez de sermos projetados como um brinquedo.

A tempestade que o cientista sobreviveu, filmada por alunos que se encontravam próximos, dentro de outros veículos.

A física do medo

Quando se está dentro do vórtice de um tornado, o corpo experimenta fenómenos que as câmaras de televisão não conseguem captar:

A mudança de pressão: Um tornado é uma área localizada de pressão em rápida variação. Os ouvidos não se limitam a estalar, doem, como se a cabeça estivesse a ser esmagada por mãos gigantes.

A escuridão total: Nos filmes, o “olho” surge como um espaço claro. Na realidade, é uma massa de destroços, uma mistura castanho-escura de solo pulverizado, árvores e edifícios. Estava tão escuro que a minha máquina fotográfica não conseguiu registar qualquer imagem.

Enquanto os destroços embatiam no para-brisas, temia ser atingido por materiais projetados. Os tornados podem arrancar vedações, madeira e metal de edifícios, ramos de árvores e até animais de grande porte.

A formação de um monstro

Perry Samson

Combustível: Um tornado requer ar quente e húmido junto ao solo, com ar seco por cima. Isto cria potencial para a ascensão do ar, desde que a atmosfera seja suficientemente instável para ultrapassar a camada de inversão térmica.

Camada de inversão térmica: Uma fina camada de ar estável atua como uma tampa, retendo o ar quente e húmido até que este consiga romper essa barreira.

Linha seca: É a zona onde o ar quente e húmido proveniente do Golfo do México encontra o ar seco vindo de oeste. O ar quente e seco é, na prática, mais denso e força o ar húmido a subir, quebrando a inversão térmica.

Cisalhamento do vento: Ventos de sul à superfície e de oeste em altitude geram rotação horizontal na atmosfera. Quando o ar sobe, essa rotação torna-se vertical, formando um mesociclone.

Corrente de jato: Situada entre cerca de 8 e 11 quilómetros de altitude, é um fluxo rápido de ar. Perturbações nesta corrente podem criar zonas que “puxam” o ar ascendente, reduzindo a pressão à superfície.

Em conjunto, estes fatores podem gerar o vórtice giratório que conhecemos como tornado.

Estas tempestades podem atingir ventos até 482 km/h e deixar um rasto de destruição com mais de 1,6 quilómetros de largura.

Podem durar segundos ou vários minutos, destruindo edifícios e árvores no seu percurso. Como é difícil prever a sua trajetória, procurar abrigo deve ser sempre a prioridade.

A lição do monstro

Quando a tempestade passou, o silêncio foi perturbador. O carro que tinha alugado estava preso na lama, a antena dobrada e pedaços de palha incrustados em todas as fendas da carroçaria.

Os tornados são extremamente perigosos. Sessenta e uma pessoas morreram nos Estados Unidos em 2025 devido a tornados, e muitas outras ficaram feridas por destroços projetados.

É essencial saber como agir quando há um alerta: seguir as instruções e procurar abrigo imediatamente.

Quando os cientistas perseguem tempestades, não procuram viver experiências extremas, mas sim medir processos de pequena escala que ocorrem no interior destas tempestades e que não podem ser observados de outra forma.

Muitos dos mecanismos que dão origem aos tornados ocorrem a poucas centenas de metros do solo e desenvolvem-se em minutos, o que dificulta a sua deteção por radares, satélites e estações meteorológicas.

Observar um tornado e os danos que provoca é um lembrete poderoso de que o ser humano não controla tudo. É também um alerta para a necessidade de prudência e preparação.

A investigação com drones e radares é a forma mais segura e eficaz de estudar estes fenómenos. Entrar num tornado não é, definitivamente, uma opção



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