Explicador
Apesar de a Casa Branca garantir que a via diplomática continua aberta, os sinais no terreno apontam para um cenário de crescente tensão e preparação militar.
Yoan Valat
O Presidente dos EUA, Donald Trump, admitiu esta sexta-feira, uma ação militar limitada contra o Irão como tática de pressão para chegar a um acordo com Teerão que contenha o programa militar. De acordo com o jornal norte-americano Wall Street Journal, o ataque será limitado o suficiente para não provocar uma retaliação em grande escala.
“Penso que posso dizer que estou a considerar isso”, disse, questionado pelos jornalistas na Casa Branca sobre um possível ataque de menor escala em território iraniano, onde os EUA mantêm uma presença militar significativa.
Na quinta-feira, Donald Trump deu 10 dias ao Irão para se chegar a um acordo sobre o programa nuclear, visando que, caso contrário, poderão ocorrer “coisas más”.
“Talvez tenhamos de ir mais longe, ou talvez não, talvez cheguemos a um acordo. Provavelmente saberão nos próximos 10 dias”, declarou Trump em Washington, antes da primeira reunião do Conselho da Paz.
Apesar de o presidente norte-americano afirmar que prefere um acordo com Teerão, os acontecimentos dos últimos dias revelam um cenário de crescente pressão militar no Médio Oriente.
Que movimentos militares levantaram suspeitas?
Aumento do tráfego na base das Lajes, na ilha Terceira
Nas últimas horas, registou-se um aumento significativo do tráfego de aviões militares norte-americanos na base das Lajes, na ilha Terceira (Açores). Uma base que historicamente tem sido um ponto estratégico para operações militares dos EUA entre a América e o Médio Oriente.
O maior navio de guerra do mundo no Mediterrâneo
O porta-aviões USS Gerald R. Ford, considerado o maior navio de guerra do mundo, entrou esta sexta-feira no Mar Mediterrâneo e estará a caminho do Médio Oriente. Além deste, outros porta-aviões foram mobilizados para a região, incluindo o USS Abraham Lincoln.
Washington mantém 13 navios de guerra na região: um porta-aviões, o USS Abraham Lincoln; nove destroieres; e três navios de combate litorâneo.
Recorde-se que em junho de 2025, os EUA tinham dois navios de combate na região quando atacaram três instalações nucleares iranianas durante a campanha de 12 dias de ataques de Israel contra o Irão.
De acordo com o jornal The Wall Street Journal, os EUA estarão a reunir o maior destacamento de força aérea no Médio Oriente desde a invasão do Iraque, em 2003.
Retirada preventiva ou preparação para um conflito?
De acordo com a CBS, o Pentágono iniciou a retirada de parte do pessoal do Médio Oriente.
A medida deverá ser preventiva, tendo em conta os possíveis ataques iranianos. Os militares dividem-se agora, entre a Europa e os Estados Unidos.
O que dizem os líderes políticos?
A porta-voz da Casa Branca afirmou esta quarta-feira que o Irão “faria bem” em chegar a um acordo com os Estados Unidos e considerou que existem “muitas razões” para atacar o país.
“Existem muitas razões e argumentos a favor de um ataque ao Irão”, disse Karoline Leavitt numa conferência de imprensa.
Ainda assim, Leavitt disse que se registaram “pequenos avanços” diplomáticos, mas que ainda persistem diferenças no curso das negociações nucleares, depois de segunda ronda realizada na terça-feira em Genebra.
Do lado europeu, o primeiro-ministro da Polónia, Donald Tusk, apelou aos cidadãos polacos para abandonarem o Irão, alertando para a possibilidade de um conflito armado, um cenário “muito real”.
O que está em causa nas negociações?
Teerão e Washington realizaram na terça-feira, em Genebra, uma segunda ronda de conversações sob a mediação do sultanato de Omã. As partes concordaram em prosseguir as discussões, embora sublinhando que estão longe de aproximar posições.
Israel, os Estados Unidos e o Ocidente em geral acusam o Irão de pretender dotar-se de armas atómicas, o que Teerão nega, afirmando que o seu programa nuclear se destina a fins civis.
O chefe da Organização de Energia Atómica do Irão, Mohammad Eslami, afirmou esta quarta-feira, que nenhum país pode privar Teerão do direito ao enriquecimento nuclear.
O Irão informou, entretanto, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que responderá “de forma decisiva” em caso de ataque, apontando as bases dos EUA na região como alvos legítimos.
Esta sexta-feira, um porta-voz do exército israelita afirmou que as forças armadas do país estão “em alerta” face ao Irão, mas adiantou que não há qualquer alteração nas instruções dadas à população.
“Estamos a acompanhar de perto os desenvolvimentos regionais e atentos ao debate público sobre o Irão. O Tsahal [acrónimo hebraico das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês)] está em alerta”, disse o general Effie Defrin numa mensagem de vídeo.
Pouco depois, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ameaçou o Irão com uma resposta brutal caso Teerão ataque Israel.
Segundo a cadeia televisiva CNN e o jornal The New York Times, os militares norte–americanos estarão preparados para lançar um ataque contra o Irão nos próximos dias, embora Trump ainda não tenha tomado uma decisão final sobre a autorização de uma eventual operação.
