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Estão em funções 365 dias por ano, 24 horas por dia. Uns fazem as malas com a família, outros optam por viajar sozinhos, representando o Governo no estrangeiro e promovendo relações bilaterais. A Grande Reportagem SIC esteve em dois continentes, num dos países mais pobres do mundo e na capital de um país em guerra há mais de quatro anos, a acompanhar o dia a dia dos diplomatas portugueses.
Em contagem decrescente, a família do Chefe de Missão Adjunto na Embaixada de Portugal na Guiné-Bissau começa a despedir-se do país que foi casa durante dois anos.
A manhã quente de chuva intensa começa como tantas outras. Depois de deixarem os filhos, João e Amélia, na escola, Maria João Vilaça segue para o Hospital Simão Mendes, onde é médica anestesista, e André Costa Monteiro para a embaixada.
O caminho para lá chegar não é fácil. O alcatrão chegou há poucos anos e apenas às principais estradas da capital do país onde 40% da população vive em pobreza extrema.
Pela manhã cedo começa a formar-se uma fila com perto de 20 pessoas junto à embaixada, na Avenida Cidade de Lisboa. Vêm à procura da aprovação do pedido de visto. Sempre que há informações que levantam dúvidas, é realizada uma entrevista presencial.
“Se o nosso trabalho é invisível, ele tem consequências muito visíveis
Na pequena sala onde decorrem as entrevistas está André Samarago, encarregado da secção consular.
Pai de três filhos de sete, cinco e dois anos, escolheu viajar sozinho.
Tenta estar com a família pelo menos de dois em dois meses e não prescinde da diária videochamada. ” Os cuidados de saúde na Guiné- Bissau, que são muito parcos, levaram a que minha mulher e os meus filhos não me acompanhassem.”
Reunidos todos os processos para mais um dia de trabalho na embaixada de Portugal, começam as entrevistas.
“Se o nosso trabalho é invisível, ele tem consequências muito visíveis. Quando nós falamos em vistos, falamos em mobilidade de pessoas”.
O desespero faz com que, mesmo sem possibilidades, os que procuram um visto paguem pelo preenchimento de documentos sem conhecerem, por vezes, o que lá está.
O número de pedidos de vistos está a aumentar desde a pandemia. De 2022 para 2024 o número quase duplicou, passou de 9 mil para 14 mil e 400.
Nem a dois quilómetros de distância da embaixada de Portugal na Guiné-Bissau vai nascer a primeira escola portuguesa.
O terreno com cerca de 22 mil metros quadrados irá receber 900 alunos do 1.º ao 12.º ano. A construção fica a cargo do Camões Instituto que continua sem data para lançar um concurso público.
A educação é uma das áreas mais frágeis, devido à falta de infraestruturas de qualidade, de materiais para os alunos e de professores.
“O diplomata existe para servir os teus utentes”
As cores da bandeira nacional são visíveis em mais projetos e no apoio direto aos cidadãos e empresários portugueses.
“O diplomata existe para servir os teus utentes (…) mantemos sempre o mesmo objetivo: a defesa dos interesses nacionais em qualquer parte do mundo.”
Apesar da humidade e da temperatura acima dos trinta graus, o fato é obrigatório, faz parte do uniforme diplomático.
Estar em funções 365 dias por ano, 24 horas por dia, significa, muitas vezes, que o trabalho diplomático se faz entre brindes depois dos trabalhos consulares.
O momento é aproveitado para serem feitos contactos estratégicos e assim promover relações bilaterais.
“Acaba por ser um segundo trabalho. Ou seja, não temos só a parte profissional individual, como temos também toda a parte da representação que nos vai acompanhar ao longo desta vida.”
Os diplomatas colocados na embaixada de Portugal na Guiné-Bissau, têm de lá ficar no mínimo dois anos, por estar sinalizado como um posto de dificuldade acrescida.
A carreira diplomática começa em Lisboa, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde têm de ficar quatro anos. Só depois podem concorrer a missões no estrangeiro.
No concurso público, podem escolher cnco países. A decisão de onde vão ser colocados é tomada pelo conselho diplomático, órgão colegial do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Feita a colocação na embaixada, são obrigados a ficar, no mínimo, três anos, apenas dois nos de dificuldade acrescida.
Ser diplomata na Ucrânia
Todos os diplomatas que trabalham na embaixada portuguesa na Ucrânia optaram por viajar sozinhos.
Sem opções aéreas devido à guerra, a logística para atualmente entrar e sair da Ucrânia é exigente, mas não impede os diplomatas de estarem três a quatro meses por ano com a família
“Recordo uma frase da minha mulher (…) ‘agora estou tranquila porque vejo que tu estás feliz’.“
Pedro Forbes Lemos, número dois da embaixada, que acumula funções de Chefe de Missão Adjunto e de Encarregado da Secção Consular que trata dos mesmos.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros não sabe com exatidão quantos portugueses vivem atualmente na Ucrânia. Avança que perto de 400 têm a morada do cartão de cidadão registada no país.
Mesmo com os dias imprevisíveis, os diplomatas tentam, sempre que possível, ter uma rotina de trabalha em que estão incluídas visitas diplomáticas.
Morar na Ucrânia traduz-se numa adaptação à força à anormal normalidade.
“Quando decorre um ataque eu troco mensagens com a minha família (…) antes que eles possam ver nas notícias para evitar que se preocupem.”
Dos 529 diplomatas portugueses em todo o mundo, apenas 174 são mulheres.
Destas, menos de metade estão colocadas em serviço externo e apenas 13 estão no topo da carreira diplomática, como embaixadoras.
Ser diplomata é, para muitos, a honra de uma vida mesmo com todos os desafios, como a distância das famílias.
“No início da carreira ainda ponderei se o investimento que temos de fazer do ponto de vista pessoal se justificava. Mas acho que o meu amor pela profissão sempre sobrepôs.“
Ficha Técnica
- Jornalista: Diana Pinheiro (dianapinheiro@sic.impresa.pt)
- Imagem: Odacir Junior e Luís Bernardino
- Edição de Imagem: Rui Berton
- Grafismo: Carla Gonçalves
- Produção Editorial: Diana Matias
- Colorista: Rui Branquinho
- Pós-Produção Áudio: Octaviano Rodrigues
- Legendagem: Spell
- Coordenação: Miriam Alves
- Direção: Marta Brito dos Reis e Bernardo Ferrão
