Agronegócio

O lobo-ibérico é um teste à seriedade das políticas de conservação


No final de fevereiro, foi publicada no Agroportal uma carta que critica a forma como o Estado financia a conservação da natureza e que apresenta o apoio à conservação do lobo‑ibérico como um dos casos dessa alegada má priorização. A interpretação que essa carta faz da situação não corresponde aos factos e transmite uma ideia distorcida sobre o real estado de conservação da espécie e sobre o trabalho que tem sido desenvolvido no terreno. Por isso, importa clarificar.

Em Portugal, o estado de conservação do lobo está pior, e não melhor. Os dados do Censo Nacional do Lobo 2019‑2021, divulgados pelo ICNF, evidenciam menos alcateias (58 face a 63 em 2002/03), menos reprodução (apenas 37 alcateias com reprodução confirmada) e contração da área de presença (‑23%, de ~20.400 km² para ~16.000 km²). Em termos de ameaça, o lobo‑ibérico continua com o estatuto “Em Perigo” no Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental, de 2023. Estes números não sustentam a narrativa de “recuperação” que justificaria baixar a guarda: sustentam o contrário. Falar em “excesso” de proteção é uma falsa perspetiva.

A narrativa de haver “milhões para o lobo” cria a perceção de um investimento desproporcionado, mas isso não corresponde aos factos. As verbas anunciadas no Programa Alcateia destinamse a várias necessidades acumuladas: serve para tentar corrigir os atrasos na melhoria do estado de conservação da espécie, cumprir a lei e pagar de forma justa a quem coexiste com o lobo no seu território. O Programa Alcateia 2025‑2035 foi criado precisamente porque as medidas anteriores não foram em grande parte implementadas e por isso foram incapazes de inverter o declínio. Este programa traz financiamento plurianual, reforça prevenção e atualiza indemnizações que estavam congeladas desde 2017, em muitos casos duplicando valores, com pagamento mais célere. Isto não “abandona sistemas naturais”; pelo contrário, foca‑se em restauro ecológico de habitats, promoção de presas naturais e redução do conflito entre a atividade humana e a espécie.

Além disso, a lei portuguesa obriga a compensar danos e a incentivar medidas preventivas (cães de proteção, confinamento noturno, vedações adequadas, presença de pastor), em linha com as regras da União Europeia. Décadas de trabalho de campo para a conservação em Portugal e na Europa mostram que estas medidas não‑letais preventivas reduzem significativamente os ataques e os custos para os produtores.

A tentação do controlo da espécie através da caça parece ser do interesse de alguns setores, mas a evidência baseada em conhecimento acumulado é que abater lobos não reduz de forma sustentada a predação; pode aumentá‑la ao desestruturar alcateias e criar mais indivíduos errantes e inexperientes, que recorrem mais ao gado doméstico.

Projetos em curso no território nacional como o LIFE Wild Wolf provam que com o restauro de habitats e gestão das espécies concertados, as presas naturais regressam e a coexistência com as populações melhora.

Na prática, o que está verdadeiramente em causa com esta carta enviada à Senhora Ministra do Ambiente e Energia é um apelo a que se possa desviar recursos de um programa que tem o potencial de corrigir atrasos históricos, pagar melhor e mais depressa a quem tem prejuízos, financiar prevenção e investir no restauro que reduz o conflito. Não é sério falar em “símbolos” quando os dados mostram declínio, e quando já temos um programa público a trabalhar onde faz mais diferença: no terreno, com produtores e autarquias, e com metas mensuráveis até 2035, apesar de todas as suas fragilidades.

Num país que se orgulha em basear políticas públicas em evidências científicas, é importante que os esforços de conservação sejam reconhecidos e que tenham como prioridade as indemnizações justas e rápidas (com regras claras e proporcionais ao esforço de prevenção), a prevenção como norma, e priorizando ações de restauro ecológico para promover presas naturais, planeamento cinegético compatível com a conservação, não esquecendo a transparência e necessidade de monitorização para melhorar avaliar o sucesso de políticas como o Programa Alcateia e respetivas medidas no terreno.

Se falhamos com uma espécie “bandeira”, que concentra investimento e atenção, falharemos com todas as outras que dependem do mesmo território. O mundo rural precisa de apoio sério e isso faz‑se com ciência, prevenção, restauro e justiça, não com bodes expiatórios que surgem sempre em momentos de crise.

Sofia Almeida

Técnica de Políticas da WWF Portugal



AgroPortal

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