Opinião
Texto de Maria Moreno, psiquiatra. “Está tudo bem, Dra. As análises estão boas” ou “fisicamente estou bem, é mais da cabeça.” Frases repetidas em consulta que revelam um mesmo erro: a ideia de que a mente está separada do corpo. No Dia Mundial da Saúde, Maria Moreno lembra que o cérebro também adoece – apenas não aparece nas análises.
anand purohit
“Está tudo bem, Dra. As análises estão boas.”
Ou então: “Fisicamente estou bem. É mais daqui da cabeça.”
É assim que começa quase sempre. Como se fosse possível separar.
Como se o cérebro não fizesse parte do corpo ou dos órgãos de primeira classe.
O joelho dói, incha e fica vermelho. Não gera dúvidas. A garganta inflama. A tosse ouve-se. E a febre sobe. Sabemos que não é “da cabeça”.
Vê-se. Ouve-se. Mede-se. É objetivo, portanto.
O cérebro não. E esse é o problema.
O cérebro adoece. Mas não incha. Não fica vermelho. Não faz barulhos audíveis. Teima em não aparecer nas análises ou numa simples radiografia. No fundo, tem a mania de não facilitar o trabalho de ninguém e mantém-se no abstrato. E a dúvida surge, claro.
Quando os sintomas surgem, a nossa primeira impressão é que serão “manias”. Dificuldade em dormir. Pensamento acelerado. Falta de concentração. Cansaço constante. Irritabilidade. Perda de prazer. Ansiedade sem motivo claro.
Tentamos normalizar e “desencorajar” estes sintomas mas eles teimam em não desaparecer e desarranjam tudo à sua volta.
“É a vida.” – insistem.
São manifestações de disfunção cerebral.
Hoje sabemos que doenças como a depressão e a ansiedade envolvem alterações nos neurotransmissores – serotonina, noradrenalina, dopamina -, nos circuitos neuronais e até na estrutura de determinadas áreas do cérebro.
Não é abstrato. Não é “psicológico” no sentido de “menos real”. É biológico. A diferença é que não se vê.
E o que não se vê, desvaloriza-se.
Uma pessoa com dor no peito vai ao médico. Uma dor de garganta precisa de penicilina o mais cedo possível (garantem, erradamente, os mais “experientes”).
Uma pessoa que não dorme há semanas tenta aguentar. Uma pessoa que perdeu o prazer em tudo acha que “vai passar”. E deixa andar. Em silêncio.
Não passa sempre. E quanto mais tempo passa, mais o cérebro se adapta ao desequilíbrio. E, portanto, mais difícil fica reverter.
Na consulta, há uma frase muito comum: “Dra., eu sei que não estou bem, mas também não estou doente.”
O problema é que aprendemos a reconhecer doença quando há sinais físicos evidentes. E ignoramos quando os sinais são cognitivos, emocionais ou comportamentais.
Mas são sinais na mesma. E têm um impacto real.
O cérebro não é um órgão aparte. Diria mais (e, nesta, sou parcial): é o órgão central. Quando não está bem, nada está bem.
Não há separação real entre corpo e mente. Nunca houve.
No Dia Mundial da Saúde vale a pena lembrar: falar de saúde é falar de tudo.
E isso inclui – obrigatoriamente – a saúde mental.
