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Foi entregue na Assembleia da República uma petição a pedir que as terapias de conversão sexual deixem de ser crime, um retrocesso civilizacional sem base científica, garantem especialistas ouvidos pela SIC.
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A petição foi assinada por 17 mil pessoas e defende que a lei atual contém incoerências, transformando relações naturais de cuidado entre pais e filhos em atos criminosos. Por isso, os proponentes pedem a descriminalização das chamadas terapias de conversão sexual.
“De acordo com a Organização Mundial de Saúde, são práticas que tentam mudar a orientação sexual ou a identidade de género de uma pessoa”, explicou Francisco Goiana da Silva, comentador da SIC.
“Dentro destas práticas, há exemplos que envolvem crianças levadas pelos pais, às quais são impostos choques elétricos para criar uma associação inconsciente de desconforto quando expostas a imagens que as excitam. Portanto, isto é absolutamente grotesco, isto é medieval”, acrescentou.
Para o comentador, que é especialista em saúde, a questão também é pessoal:
“Sou homossexual e não sinto que seja menos saudável do que muitos heterossexuais.”
Mas a questão vai muito além do plano pessoal. Não há, dizem os especialistas, qualquer base científica que sustente este tipo de prática.
“Todos os psicólogos sabem isso, ou pelo menos deveriam saber, que há mais do que evidência de que as terapias de conversão não funcionam e têm o perigo de agravar a sensação de frustração das pessoas, a incapacidade de mudança e a culpabilidade por não conseguirem mudar”, afirmou Miguel Ricou, da Ordem dos Psicólogos.
“Deixe-me trazer um quadro muito simples sobre a evidência científica: estas práticas podem causar depressão, suicídio e ansiedade, provocando danos psicológicos graves a médio e longo prazo. Todas estas práticas são condenadas por organizações científicas. Por isso, gostava de desafiar todos os portugueses de bem a pensar se é isto que queremos normalizar ou voltar a normalizar na nossa sociedade”, acrescentou Francisco Goiana da Silva .
A discussão poderá mesmo chegar à Assembleia da República, bastando 7.500 assinaturas para levar um documento a plenário. Para o presidente do Conselho de Especialidade da Ordem dos Psicólogos, é fundamental que os deputados baseiem a discussão na ciência.
“A única base onde se podem centrar é a ciência. Evidentemente, isto não é uma questão ideológica. Infelizmente, tornar a saúde uma questão ideológica é um erro crasso e muito preocupante, e temos visto sinais que nos preocupam”, reforçou Miguel Ricou.
Nos Estados Unidos, na semana passada, o Supremo Tribunal de Justiça decidiu, num veredicto quase unânime, contra a proibição das terapias de conversão em menores no Colorado. A decisão poderá ter repercussões em mais 23 estados do país.
