O Governo português está preocupado com a escassez de fertilizantes, retidos no Estreito de Ormuz devido ao conflito no Médio Oriente, com especial impacto em África, declarou hoje o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.
“Claro que estamos preocupados [o Governo] com as consequências económicas e, em particular, da segurança alimentar, nomeadamente no continente africano, devido aos fertilizantes”, declarou Paulo Rangel durante a audição regimental na Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas quando referia as preocupações que o conflito no Médio Oriente levantam.
Rangel declarou ainda que teve a oportunidade de reunir com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, precisamente no dia em que Jorge Moreira da Silva foi nomeado para liderar o mecanismo da ONU para facilitar o comércio de fertilizantes no estreito de Ormuz, a 27 de março.
No âmbito da conversa, Rangel e Guterres falaram da possibilidade da reabertura de circulação de cereais e fertilizantes, particularmente para a agricultura africana, onde, frisou, são decisivos.
“Quarenta por cento do tráfego de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz”, contextualizou.
África poderá perder pelo menos 0,2% do seu Produto Interno Bruto (PIB) se o conflito atual no Médio Oriente se prolongar mais de seis meses, segundo um relatório de organizações internacionais apresentado a 02 de abril em Tânger, Marrocos.
Os cálculos são do Grupo do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), União Africana (UA), Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) através do seu Escritório Regional para África e Comissão Económica das Nações Unidas para África (CEA) e foram apresentados durante a 58.ª sessão da Comissão Económica para África.
No documento, frisam que, para alguns países africanos, o impacto da falta de acesso a fertilizantes pode ter consequências mais graves do que a crise dos combustíveis, consequência direta do encerramento quase total do Estreito de Ormuz por parte do Irão, como retaliação pelos ataques dos Estados Unidos e Israel contra o território iraniano.
De forma geral, o relatório indica que qualquer interrupção no fornecimento de gás natural liquefeito (GNL) proveniente do Golfo Pérsico afeta a produção de amoníaco e ureia, encarece os fertilizantes e reduz a sua disponibilidade durante a época das plantações, que vai de março a maio, “pressionando assim os preços dos alimentos e afetando duramente as famílias mais vulneráveis em África”.
Por outro lado, África depende, em grande medida, do Médio Oriente para o seu comércio uma vez que esta região representa 15,8% das suas importações e 10,9% das suas exportações.
