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Pagar por reforma antecipada: Ordem dos Médicos condena práticas denunciadas em investigação da SIC


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A Ordem dos Médicos condenou, esta quinta-feira, as práticas denunciadas numa investigação da SIC e exige o apuramento rigoroso dos factos.

Rita Franca/Getty Images

Esta quinta-feira, chegou a reação da Ordem dos Médicos. Em comunicado, diz condenar “de forma firme e inequívoca qualquer prática que deturpe o exercício da Medicina”.

“A Ordem dos Médicos condena qualquer atuação que instrumentalize o ato médico para fins alheios ao interesse dos doentes, ao rigor clínico e ao cumprimento da lei”, afirma o bastonário

Médica cobra mil euros para conseguir reforma por invalidez

Emuna Mia tem consultório em Santo Estevão, Benavente. Tem 72 anos e chegou a ser Coordenadora da Unidade de Saúde Familiar.

Três vezes por semana e também ao sábado, o pequeno consultório enche-se de clientes que vêm atrás da fama da médica que consegue as reformas antes do tempo.

A Investigação SIC também marcou consulta e, logo na primeira chamada, a rececionista não está com rodeios:

“- É a primeira vez? – A primeira vez, sim.– É para reformar?– Não percebi.– É para reformar?– Para reformar? Como assim?– Pronto, se a senhora vem pedir a reforma à doutora?”

A falsa utente da Investigação SIC é uma mulher que está a seis anos da idade legal para deixar de trabalhar.

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Emuna Mia manda-a fazer diversos exames – TACs, ecografia – em locais específicos, um deles em Leiria, a 150 quilómetros de distância do consultório.

Há um outro detalhe que a médica deixa claro:

“Tem de fazer a alteração da morada. Pode ganhar tempo já aí. Ver se arranja uma alteração da morada, alguém que more por aqui…”

A Investigação SIC mostrou os resultados dos exames a um médico especialista em juntas médicas que é perentório a afirmar que a nossa falsa utente não teria a mínima hipótese de aceder à reforma, uma vez que as patologias apresentadas não têm implicação no desempenho e na sua capacidade funcional para trabalhar.

Mas, assim que teve os exames nas mãos, a médica não teve dúvidas:

“Aquilo que você tem já dá para se reformar, só preciso que você me diga ‘já tenho morada na zona’”.

O preço vem na resposta seguinte:

“- Mil.– Mil? Fica 1.000 euros o…– O processo.– Assim que estiver terminado?– Não, não. Não é quando estiver terminado.– Ah, porque não se sabe…– É assim… Quando você decidir que quer tratar eu digo-lhe que são mil com base nos exames que tem, com base na probabilidade de ficar. Se não ficar bem com base numa junta com médico relator eu irei consigo a recurso.”

A rececionista de Emuna Mia haveria depois de esclarecer que esse valor não é declarado:

“A Dra. não passa recibo desse dinheiro. Da consulta passa, agora desse dinheiro não passa.”

Nada que afaste a clientela. O sucesso da médica tem passado de boca em boca. A Investigação SIC teve conhecimento que nos últimos anos, dezenas de trabalhadores da Carris já recorreram a Emuna Mia.

Contactada pela SIC, a empresa revela que efetivamente identificou “crescimento continuado e aparentemente anómalo nos processos de reforma por invalidez” e que, por isso, apresentou uma queixa-crime junto do Ministério Público.



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