A Grande Reportagem desta semana traz as palavras e a história de vida de Álvaro Teixeira. Após ficar tetraplégico aos 14 anos, permaneceu internado no Hospital de São João, até há poucos meses. Durante 40 anos o hospital foi a sua casa. O lugar em que a tristeza cedeu à amizade e os afetos ajudaram a superar as piores previsões da medicina.
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Aos 14 anos, Álvaro Teixeira ficou tetraplégico em consequência de uma rasteira entre colegas. Foi levado para o Hospital de São João, onde a medicina, em 1985, fez o possível para reverter a lesão medular alta, ao nível da coluna cervical.

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“Os médicos não sabiam aquilo que iam encontrar. Naquele tempo, o Hospital de S. João não tinha TAC sequer. Tinha que ir à Ordem da Lapa fazer. Só que as imagens não eram muito esclarecedoras. Eles arriscaram a cirurgia… só que correu mal”.
Esta Grande Reportagem existe porque Álvaro assim o quis. Abriu as portas do seu mundo para partilhar, como apesar das inúmeras limitações, um tetraplégico pode reinventar-se na sua relação com os outros. Álvaro, está desde há 40 anos confinado a uma cama, mas livre no pensamento, determinado em encontrar e marcar um lugar na vida dos outros.
Mas nem sempre foi assim, como ele diz. Álvaro esteve internado nos cuidados intensivos do Hospital de São João 35 anos. Uma jornada marcada, quase sempre, por um prognóstico reservado. Um ventilador e um pacemaker diafragmático constituem parte do suporte que lhe permite viver. Sem autonomia, preso a uma cama de hospital, Álvaro questionou muitas vezes a razão da sua existência. Até que os cuidados permanentes, a força da amizade e o amor da mãe, incentivaram uma mudança de atitude.
“Só quando comecei a ver a vida de outra maneira é que comecei a conhecer mais amigos também e a ser mais feliz. Tinha que ser uma coisa a partir de mim.”
“O Álvaro é uma pessoa que eu considero muito feliz dentro dos critérios de felicidade latos. Acho que o Álvaro, é das pessoas que têm mais amigos que eu conheço, tem provavelmente mais amigos do que nós juntas.”
Álvaro encontrou conforto em gestos banais, quotidianos, mas que para ele representam tudo. As conversas com a mãe e amigos, autonomia para operar a televisão, viajar pelo mundo através do computador. Álvaro atingiu a maturidade, sob o olhar e cuidados dos profissionais do Hospital de São João.
“Efetivamente, o Álvaro é uma situação especial e nós também a tornamos uma situação especial, porque fizemos tudo por tudo, para conseguir manter o Álvaro com alguma qualidade de vida e dar lhe também a ele alguma segurança. O Álvaro sempre esteve consciente e quando as pessoas estão conscientes e sentem que de um momento para o outro podem perder a vida, nós temos que transmitir essa confiança às pessoas.”
Álvaro Teixeira tem hoje 54 anos e vive há poucos meses na Unidade de Cuidados Continuados da Misericórdia de Vila do Conde. Onde fez novas amizades e realizou um sonho. Ter um quarto só para si.
Ficha Técnica:
- Jornalista: Lúcia Gonçalves
- Apoio: Iris Magalhães
- Imagem: José Vaio e 4KFLY
- Edição: Miguel Castro
- Grafismo: Rui Aranha
- Pós-produção Áudio: Octaviano Rodrigues
- Colorista: Gonçalo Carvoeiras
- Produção Editorial: Diana Matias
- Legendagem: Spell
- Coordenação: Miriam Alves
- Direção: Marta Brito dos Reis e Bernardo Ferrão
