Economia

Péter Magyar: de aliado a adversário feroz, este é o homem que pode destronar Viktor Orbán

[

Europa

Em dois anos, o conservador Péter Magyar passou de homem “do sistema” a principal adversário do primeiro-ministro húngaro e o único com hipótese de acabar com 16 anos de poder do Fidesz nas legislativas de domingo.

Denes Erdos

Até então relativamente desconhecido, o advogado, cujo apelido significa ‘Húngaro’, demitiu-se em fevereiro de 2024 dos cargos que ocupava em empresas públicas e começou a criticar duramente o governo do Fidesz, denunciando “a oligarquia” que dizia estar “a arruinar o país”.

Magyar, que dissera não ter ambições políticas, em março desse ano atraía dezenas de milhares de pessoas para protestos, que se intensificaram no final desse mês, quando divulgou um áudio em que se ouvia Judit Varga a dizer que o primeiro-ministro, Viktor Orbán, pressionou o Ministério Público a esconder provas de casos de corrupção que afetavam membros do Governo.

Bernadett Szabo

A denúncia levou Varga, com quem Magyar teve três filhos, a afastar-se da vida política, numa altura em que era apontada como a cabeça de lista do Fidesz para as eleições europeias de junho de 2024.

Já como uma figura emergente da oposição, Magyar juntou-se ao Tisza, um partido sem expressão criado uns anos antes por outro dissidente do Fidesz, e liderou a campanha para as eleições europeias de junho de 2024, em que conseguiu 30% dos votos, elegendo sete eurodeputados.

Desde então, continuou a aumentar a base de apoio, deslocando-se pelo país, inclusive a pé, numa campanha em que privilegiou o contacto direto com os húngaros, principalmente nas zonas rurais, tradicionalmente pró-Fidesz.

No último ano, as sondagens deram consistentemente ao Tisza vantagem sobre o partido de Orbán.

Loading…

A expressão “o Tisza está a transbordar” tornou-se um lema de campanha, num trocadilho com o nome do segundo rio mais importante da Hungria. O nome do partido resulta da junção das primeiras sílabas das palavras ‘respeito’ e ‘liberdade’.

Quem é Péter Magyar e quais os seus objetivos?

Péter Magyar nasceu em março de 1981 numa família conservadora e influente: o avô foi juiz do Supremo Tribunal e uma figura televisiva popular e um tio-avô, Ferenc Madl, foi o terceiro presidente da Hungria.

Comunicador hábil, tanto nas redes sociais como no terreno, prometeu desmontar “tijolo a tijolo” o sistema político, denominado “democracia iliberal”, de Orbán, restaurando o Estado de Direito e a liberdade de imprensa.

A principal bandeira eleitoral é o combate à corrupção, mas também propôs recuperar os serviços públicos, como a educação e a saúde, muito degradados.

O candidato conservador quer impor um limite de dois mandatos para o cargo de primeiro-ministro. Orbán já cumpriu quatro mandatos consecutivos, desde 2010, além de um outro entre 1998 e 2022.

Ao contrário de Orbán, que mantém um braço de ferro com as instituições europeias, Magyar declarou querer tornar a Hungria um aliado fiável da NATO e um membro leal da União Europeia.

Janos Kummer

Se Viktor Orbán perder, poucos em Bruxelas sentirão a sua falta, após vetos sucessivos, especialmente sobre a Ucrânia, e violações do Estado de Direito, mas a UE não deve esperar uma completa reviravolta com Magyar, alertaram analistas.

Tal como Orbán, Magyar declarou que recusa enviar armas para a Ucrânia e opôs-se à rápida integração do país na UE, mesmo sem partilhar a retórica hostil em relação a Kiev.

Quanto a Moscovo, de que o primeiro-ministro é próximo, afirmou que terá uma “abordagem pragmática”, enquanto advertiu contra ingerências russas na campanha.

Também coincidiu com o Fidesz nas políticas de imigração.

Analistas compararam-no ao Viktor Orbán dos primeiros tempos e um diplomata citado pelo jornal britânico The Telegraph lembrou Magyar como “o bebé Orbán“.

A personalidade e vida pessoal de Péter Magyar também têm sido alvo de escrutínio.

Um artigo da revista Foreign Policy relatou que, já em campanha, envolveu-se numa luta numa discoteca, que disse ter sido iniciada por um provocador contratado pelo Fidesz. Noutro caso, abandonou uma entrevista de televisão.

Acusado de violência doméstica pela ex-mulher

Após a divulgação do áudio da ex-mulher, Judit Varga acusou-o de violência doméstica e manipulação, o que Magyar negou sempre, afirmando tratar-se de “um tsunami de ódio e mentiras” e que a mulher estava a ser usada como arma de propaganda do governo.

Thierry Monasse

A revista referiu um relatório policial de 2020 que relatou confrontos violentos entre o casal, com um polícia a declarar que se ouviu Varga a dizer: “larga-me”.

O analista Andrzej Sadecki, do Centro de Estudos de Leste (OSW), em Varsóvia, afirmou à agência de notícias France-Presse que “alguns duvidam” da capacidade de Péter Magyar “para romper verdadeiramente com o regime de Orbán”.

Além disso, “os eleitores de esquerda podem não estar totalmente satisfeitos com o seu programa, mas continuam a apoiá-lo, porque ele representa a melhor hipótese de mudança”, disse.



SIC Noticias

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *