
Se a decisão de ir para um lar já é difícil para o próprio e para os mais próximos, quando chega a altura de escolher é ainda mais difícil. As opções têm muitas limitações e os custos são cada vez maiores.
O preço médio de uma mensalidade num lar ronda os 1850 euros, num país onde o valor médio das pensões de velhice não chega aos 650 euros. O que abre caminho para lares ilegais, muitas vezes sem condições mínimas. E mesmo nesses faltam vagas. No entanto, à falta de outras opções, os lares continuam a ser a alternativa mais procurada.
Quando se tornou demasiado arriscado viver sozinha, Maria Alexandra Duarte foi morar com a filha. Em meses, à doença de Parkinson (e outras patologias) juntou-se a perda de grande parte da mobilidade, depois de um internamento no hospital. Foi nessa altura que ficar em casa, enquanto a filha ia trabalhar, também deixou de ser uma possibilidade.
Uma despesa elevada
Ana Mestre não esquece o dia em que deixou a mãe no lar. Hoje não tem dúvidas de que a mãe está melhor ali. Todos os meses há uma despesa de 1609 euros, fora o dinheiro para fraldas e medicamentos. São as poupanças de uma vida de Maria Alexandra que vão dando para a despesa, até ver.
Além da preocupação financeira, conseguir uma vaga num lar foi outra das preocupações, tal como acontece com muitas famílias. Fizemos o percurso habitual: ligámos para instituições sociais e privadas para saber a disponibilidade de camas em várias zonas do país.
Quisemos saber se o contacto presencial poderia fazer diferença, mas, em lares nos arredores de Lisboa, encontrámos uma realidade semelhante.
Neste espaço, a 20 quilómetros da capital, encontrámos uma vaga por 1600 euros, mais o custo das fraldas e da medicação. Tratava-se de uma vaga para uma mulher. Há mais mulheres em lares, logo há mais quartos que podem ser partilhados.
A oferta de residências para idosos está longe de satisfazer as necessidades. Em Portugal, há mais de 2600 lares e a esmagadora maioria não tem vagas. A este problema junta-se o preço, que tem subido de ano para ano.
Encontrar vaga num lar social é quase um milagre e optar por um lar privado custa, em média, 1850 euros. Na hora de escolher, o preço pesa na decisão.
Maria Lopes é fundadora da Lares Online, uma plataforma digital que ajuda as famílias a encontrar o espaço mais adequado às necessidades do idoso, dando-lhes informação e apoio durante o processo.
Ao telefone, estão assistentes sociais a dar resposta a famílias sobre o que realmente devem avaliar na hora de escolher um lar.
Muitos adiam a decisão
A ida para um lar raramente é planeada e, para muitos idosos, continua a ser uma ideia difícil de aceitar. Há um estigma associado às instituições que faz com que muitas famílias adiem esse passo.
Com o pai de Lurdes Pinto a precisar de cuidados e a mãe sobrecarregada, a família foi obrigada a encontrar uma solução.
Não podiam esperar meses por uma vaga, por isso optaram por um lar privado. Lurdes confessa que se sentiu perdida nessa escolha, sem saber o que seria mais adequado para o pai. Foi no site da Lares Online que encontrou quem a orientasse.
Por uma vaga num lar privado, o pai de Lurdes paga 1900 euros, sem contar com várias despesas pagas à parte.
Na ronda que fizemos pelos lares, além da falta de vagas, os espaços que encontrámos confirmam também valores que não cabem na maior parte dos orçamentos das famílias portuguesas.
Outra das poucas vagas que encontrámos nos contactos para lares, de norte a sul do país, também era para a opção mais cara.
Ficámos também a saber que há lares privados onde está a ser cobrada uma taxa de admissão.
A nossa mensalidade é de 1850 euros, fora as fraldas e a medicação. E tem uma joia de entrada de 4000 euros. Essa joia não é reembolsada em caso de morte ou em caso de desistência do contrato.
Em Portugal existem três tipos de vagas: as vagas sociais ou comparticipadas, geridas por Instituições Particulares de Solidariedade Social ou pelas Misericórdias, com acordos com a Segurança Social. O valor desta mensalidade é calculado com base nos rendimentos de cada utente.
Estas instituições também podem ter vagas extra-acordo. São em menor número e sem comparticipação do Estado. O custo fica na totalidade a cargo do idoso ou da família. As vagas privadas, em lares particulares ou empresas, também não têm direito a comparticipação.
Quando a situação não permite esperar, por falta de vaga no setor social, o que pode demorar anos, muitas famílias recorrem ao setor privado. Mas, nestes casos, a Segurança Social não apoia.
As críticas estendem-se ao facto de serem as instituições sociais a definir os critérios de admissão, o que pode tornar o processo pouco claro e abrir espaço a que quem é mais desfavorecido fique para trás.
O que diz o Estado?
O Estado recomenda que as vagas sociais sejam atribuídas a quem está numa situação económica mais vulnerável, mas não impede o acesso de quem tem reformas e recursos mais altos.
As listas de espera nos lares apoiados pelo Estado devem ser revistas todos os anos. Critérios como o estado de saúde do idoso, a retaguarda familiar, as condições da casa em que vive ou os rendimentos são alguns dos parâmetros para o utente subir ou descer de posição.
Considera que o Estado contribui com pouco: 667 euros por cama que, no entender do presidente da Aurpis, no Seixal, não chegam para fazer frente aos gastos.
As queixas que se ouvem neste lar de idosos repetem-se noutras instituições do distrito. Fernando Sousa está à frente da União Distrital das Instituições Particulares de Solidariedade Social de Setúbal, que gerem lares do setor social. Garante que o que distingue um lar são as pessoas que nele trabalham e que é difícil fixar os melhores profissionais.
Perde quem mais precisa de apoio: os que não têm dinheiro para pagar uma mensalidade que geralmente equivale a dois ordenados mínimos. Muitos só conseguem pagar com a ajuda da família.
O telefonema encurta a distância que impede visitas mais frequentes. Há cerca de um ano, o irmão de Deolinda Saraiva foi para um lar em Vila de Rei (Castelo Branco), terra da família. Perder a mobilidade impediu-o de continuar a viver sozinho.
Diz que o irmão estava inscrito para uma vaga comparticipada há quatro anos. À falta de alternativas, Deolinda confessa que chegou a estar num lar considerado ilegal.
A notícia de uma vaga num lar comparticipado em Vila de Rei trouxe algum alívio à família, que há meses suportava a despesa. Mas o apoio da Segurança Social, juntamente com a reforma do irmão de Deolinda, não chega para pagar tudo todos os meses.
Aos 72 anos, continua a trabalhar por causa de uma despesa com que não contava. Recusa-se a negar ajuda ao irmão, mas não consegue deixar de pensar no próprio futuro.
Uma situação diferente de outros tempos
Os idosos que chegam aos lares hoje são muito diferentes dos que chegavam há dez ou vinte anos: mais velhos, mais doentes, mais dependentes e com mais casos de demência. As estruturas que existem nem sempre acompanham esta realidade.
Passada a decisão difícil de colocar Maria Alexandra num lar, tanto ela como a família se adaptaram à nova realidade.
Contactámos a Segurança Social para saber se está planeada uma estratégia para aumentar a resposta nos casos sociais que dependem da comparticipação do Estado, se está previsto um aumento do valor da comparticipação ou se quem tem esse direito e não encontra vaga pode ser abrangido pela comparticipação num lar privado. Até ao momento, não recebemos resposta.
Pelo que vimos, o que existe para enfrentar os problemas das famílias está aquém da realidade. Faltam políticas que promovam a autonomia até mais tarde e tragam alternativas e soluções que não excluam ninguém e garantam dignidade nesta fase da vida. É uma prioridade que não se pode adiar.
