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Lángos com novos sabores: estará a política húngara também a caminho da mudança?


Olhares pelo Mundo

Inicialmente o famoso pão frito ou “pizza húngara” era servido apenas com alho. Comida de origem humilde, feita em casa ou em bancas de rua, feita com ingredientes simples e baratos, o lángos evoluiu e ganhou novas coberturas e sabores. As ofertas adaptaram-se aos novos gostos e tendências. À semelhança da gastronomia, as preferência políticas parecem estar a mudar. Pelo menos é o que as sondagens indicam, em vésperas de eleições.

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Nos arredores de Budapeste, em Szentendre, o lángos continua a ser um dos símbolos mais populares da comida de rua húngara. À semelhança do que acontece na capital e noutros pontos do país, já não é servido apenas na sua versão mais simples. Andrea Jasz e Attila Marton acompanham essa mudança. O casal vende lángos há décadas, já antes de Viktor Orbán ser eleito chefe de Governo pela primeira vez, em 1998.

Andrea e Attila têm um negócio consolidado na cidade, situada nas margens do rio Danúbio, a apenas 20 quilómetros a norte da capital, Budapeste. Como muitos húngaros, o casal prefere não discutir as preferências partidárias.

Apesar do contexto político em transformação, preferem manter a distância: “Não trazemos a política para aqui. As opiniões podem afastar clientes”, explica Attila, em entrevista à agência Reuters.

Fora da banca, porém, os números revelam um cenário diferente. Szentendre, historicamente um reduto do Fidesz, tem registado uma mudança clara no comportamento eleitoral.

Nas legislativas de 2022, o partido de Orbán obteve 52,39% dos votos na cidade.nas eleições europeias de 2024, foi ultrapassado pelo Tisza, liderado por Péter Magyar, uma força emergente de centro-direita, que alcançou 38,4%, contra 32,1% do Fidesz.

A tendência é sustentada por sondagens recentes divulgadas pelo site húngaro hvg.hu, que apontam para um crescimento sustentado do Tisza, enquanto o apoio ao partido no poder permanece estagnado, apesar de várias medidas governamentais que pretendem dar um alívio económico à população, que tem visto a inflação disparar.

A economia é, aliás, um dos principais fatores desta mudança. A taxa de inflação na Hungria é a mais elevada da União Europeia, agravada após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Ainda assim, pequenos empresários como Andrea e Attila procuram absorver os custos.

“Tentamos manter a qualidade e encontrar os melhores preços para não termos de aumentar os nossos”, conta Andrea à Reuters.

Embora Viktor Orbán queira transformar as eleições numa escolha entre “guerra ou paz”, acusando a oposição de querer arrastar o país para o conflito, o partido Tisza rejeita tal intenção e vários indicadores sugerem que os eleitores estão mais preocupados com questões internas, como o custo de vida e o estado do sistema de saúde.

Sem arriscar previsões, Attila resume o momento com cautela: “Não consigo prever o resultado das eleições, mas espero que a paz se mantenha”. Uma incerteza que espelha um país onde, tal como em relação ao lángos, as preferências estão a mudar e onde, apesar das sondagens, o resultado final continua uma incógnita.

Eleições vistas como um escrutínio ao “reinado” de Orbán

Cerca de 8,2 milhões de eleitores são chamados este domingo às urnas para escolher os 199 deputados da Assembleia Nacional, num dos atos eleitorais mais disputados da história recente do país.

Estas eleições podem ameaçar o atual equilíbrio de poder de Viktor Orbán. Com a atual maioria de dois terços, tem conseguido alterar a Constituição e as leis eleitorais sem necessidade de apoio da oposição.

A União Europeia acompanha de perto estas eleições, vistas como decisivas não só para a política interna, mas também no contexto europeu e internacional. Estas legislativas estão a ser encaradas como um verdadeiro referendo aos 16 anos de governação de Orbán e ao modelo político que tem vigorado no país.



SIC Noticias

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