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Lisboa, Porto e Braga no centro do problema: qualidade do ar em Portugal melhora mas poluição automóvel causa 5 mil mortes anuais


Cidades continuam no centro do problema

As áreas urbanas têm os maiores riscos, nomeadamente Lisboa, Porto e Braga, com as concentrações mais elevadas de dióxido de azoto e de partículas inaláveis PM10, sobretudo devido ao tráfego automóvel “os veículos a gasóleo representam grandes fontes de emissão de NO₂ e partículas”.

Lisboa é o caso mais documentado “com excedências persistentes de dióxido de azoto na Avenida da Liberdade”.

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Há no entanto, sinais de melhoria, revela a investigadora.

“Em 2025, as concentrações nestas áreas cumpriram pela primeira vez todos os valores limite, ou seja, estamos perante uma situação de melhoria da qualidade do ar. A redução de concentrações foi, no caso do NO2, suficiente para cumprir os objetivos legais, mas sem margem para desvios”.

Tráfego, lareiras e agricultura: as principais fontes de poluição do ar

O transporte rodoviário continua a ser a principal fonte de poluição do ar em Portugal, com destaque para os veículos a gasóleo.

Apesar de melhorias tecnológicas, nomeadamente com a introdução de filtros de partículas a partir de 2009 e com normas mais exigentes para emissões de óxidos de azoto nos veículos mais recentes, os veículos a gasóleo são a fonte dominante em ambiente urbano, salienta a investigadora.

Além disso, há um fator que está a travar os progressos: o aumento do uso do veículo individual, com consequente aumento do congestionamento urbano e das emissões atmosféricas.

Em 2025, a circulação nas autoestradas ultrapassou em 18% os níveis registados antes da pandemia, o que agrava o congestionamento urbano e as emissões. Este contexto torna mais difícil cumprir as novas metas europeias, que exigem uma redução significativa dos níveis de dióxido de azoto”.

A par do tráfego, há uma fonte menos visível, mas com peso significativo, sobretudo no inverno: o aquecimento doméstico com lenha.

“A queima doméstica de biomassa (lenha em lareiras e salamandras) representa uma importante fonte nacional de partículas finas”, sobretudo durante a noite e em períodos de menor dispersão atmosférica.

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Também a agricultura contribui para o problema, ainda que de forma indireta. Este setor domina as emissões de amoníaco, um poluente que não afeta diretamente a qualidade do ar, mas que participa na formação de partículas secundárias, com impacto na saúde.

Já a indústria e o setor energético têm hoje um peso menor. O encerramento das centrais a carvão de Sines e do Pego, em 2021, foi um dos fatores mais relevantes para a redução de emissões de dióxido de enxofre e óxidos de azoto.

Os poluentes do ar mais preocupantes em Portugal

Há três principais responsáveis pela degradação da qualidade do ar: o dióxido de azoto, as partículas em suspensão e o ozono.

O dióxido de azoto (NO2) continua a ser o mais problemático, sobretudo nas cidades, onde as suas concentrações são mais elevadas.

“Nos últimos 20 anos, as excedências aos valores limite definidos para este poluente foram persistentes nas aglomerações, com maior incidência em Lisboa, Porto e Braga”.

Em relação às partículas em suspensão – partículas inaláveis PM10 e partículas finas PM2,5, – têm sido registadas melhorias. “Desde 2018, que não se verificou qualquer incumprimento dos valores limite” Ainda assim, continuam a ser relevantes do ponto de vista da saúde.

Quanto ao ozono troposférico (O), “a tendência de concentrações é decrescente, mas ainda se encontra em níveis acima do valor alvo definido para a proteção da saúde”.

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A prioridade: mudar a mobilidade urbana

Para Joana Monjardino, “a prioridade deve ser a aposta na transformação da mobilidade urbana” para atacar o “problema crónico das cidades”, a poluição associada ao tráfego rodoviário, e garantir o cumprimento das novas metas europeias.

Entre as soluções, destaca o reforço dos transportes públicos, criação de zonas de acesso condicionado, sobretudo nos centros urbanos mais pressionados.

“O reforço da oferta de transporte coletivo, a expansão das faixas BUS, a gestão da utilização do veículo privado, a priorização da mobilidade ativa, os incentivos à eletrificação de frotas deveriam ser encarados como prioridades”.

Outra frente de intervenção relevante é o aquecimento doméstico. “A redução das emissões de partículas finas provenientes da queima de biomassa […] trata-se de uma área com espaço para intervir”, através da substituição de equipamentos e de restrições em períodos críticos.

No conjunto, a mensagem é clara: sem mudanças estruturais, sobretudo na forma como nos deslocamos, será difícil cumprir as metas e melhorar de forma sustentada a qualidade do ar.

“O prazo é curto: os novos limites europeus entram em vigor em 2030 e, para os cumprir, as medidas têm de começar agora”, conclui Joana Monjardino.

Um risco invisível, mas com impacto na saúde

“A poluição do ar é o maior risco ambiental para a saúde a nível mundial e o terceiro fator de risco para a mortalidade global, a seguir à hipertensão e ao tabagismo”.

Em Portugal, o impacto é significativo e bem documentado. “Segundo dados da Agência Europeia do Ambiente referentes a 2021, a exposição a partículas finas PM2,5 causou cerca de 2.100 mortes prematuras”, às quais se juntam “cerca de 550 associadas ao dióxido de azoto e 460 ao ozono”.

Quando se consideram vários poluentes em conjunto, o número sobe de forma expressiva. “Metodologias mais abrangentes estimam valores superiores a 5.000 mortes prematuras por ano em Portugal”.

O efeito da poluição faz-se também sentir na pressão sobre o sistema de saúde. Está “consistentemente associada a aumentos de 1% a 14% nas admissões hospitalares de urgência por cada incremento de 10 μg/m³ nos poluentes atmosféricos”, uma relação confirmada por mais de duas décadas de investigação epidemiológica.

Os impactos tornam-se mais visíveis em situações extremas. Durante episódios de poeiras do Norte de África, o risco de internamento respiratório aumenta 12,6%. Já nos grandes incêndios de outubro de 2017, o fumo terá provocado até 1 447 internamentos respiratórios num único dia.

A poluição atmosférica está ainda associada a várias causas de morte em Portugal: 8,7% das mortes por doença isquémica cardíaca, 6,6% por acidente vascular cerebral, 6% por cancro do pulmão e 15,3% por doença pulmonar obstrutiva crónica.

No contexto europeu, os números reforçam a dimensão do problema: só em 2023, foram atribuídas cerca de 182 mil mortes à exposição a PM2,5 na União Europeia.

A investigadora sublinha que “não existe um limiar seguro de exposição: os efeitos persistem, mesmo para concentrações abaixo dos próprios limites regulatórios”.

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Eventos extremos e alterações climáticas agravam riscos

As poeiras do Norte de África e os incêndios florestais são hoje dois dos fatores naturais com maior impacto na qualidade do ar, sobretudo por aumentarem significativamente as concentrações de partículas PM10 e PM2,5.

No entanto, a evolução destes fenómenos não é linear. “A investigação baseada em dados concretos não revelou ainda tendências claras”, apesar de episódios recentes particularmente intensos de poeiras vindas do Saara.

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Um desses casos ocorreu em março de 2022: “Foi o mais extremo alguma vez registado na Península Ibérica, com concentrações de PM10 a atingir 600-650 µg/m³ no centro do país”, valores muito acima do habitual e associados a um maior risco de hospitalizações por doenças respiratórias.

Nos incêndios, o impacto pode ser ainda mais severo.

“Nos incêndios de 2017, o pico de concentrações de PM10 atingiu os 704 µg/m³ em Leiria — 14 vezes o limite legal”, com consequências diretas na saúde: centenas de admissões cardiovasculares, milhares de sintomas de asma e mortes prematuras, explica a investigadora.

Qualidade do ar melhora, mas metas mais exigentes aproximam-se

“A qualidade do ar em Portugal tem melhorado de forma consistente nas últimas duas décadas. A percentagem de dias com qualidade ‘Fraca’ ou ‘Má’ caiu de 17% em 2005 para apenas 1% em 2023 – uma melhoria drástica ao longo de quase duas décadas”, constata a investigadora do departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da NOVA FCT.

Apesar desta evolução, o cenário está longe de resolvido. “Atualmente, os valores limite definidos na legislação nacional estão a ser cumpridos. Ainda assim, há necessidade de melhorias”, sublinha.

A investigadora alerta para o impacto da nova Diretiva Europeia da Qualidade do Ar (2024/2881), que entra em vigor daqui a quatro anos e que estabelece valores limite mais ambiciosos para maior proteção da saúde humana.

“Portugal terá dificuldade em cumprir os novos limites para alguns poluentes, tais como o dióxido de azoto (NO2) e as partículas em suspensão (PM10), principalmente nas zonas urbanas densamente povoadas”.

Qualidade do ar na Europa a 7 de março de 2026

European Union, Copernicus Sentinel

Portugal cumpre hoje, mas parte de um histórico de incumprimento

“Em 2025, Portugal cumpriu pela primeira vez todos os limites atuais da União Europeia para a maioria dos poluentes”, afirma a investigadora.

Mas esse resultado contrasta com um passado recente marcado por incumprimentos, sobretudo nas áreas urbanas.

Nos últimos anos, o país foi várias vezes condenado pelas instâncias europeias devido à ultrapassagem sistemática dos limites, em particular no que diz respeito ao dióxido de azoto e às partículas em suspensão.

Nas últimas décadas, houve progressos relevantes na redução das emissões, sobretudo graças à evolução tecnológica e a mudanças estruturais em sectores-chave.

“As alterações tecnológicas introduzidas no fabrico de automóveis têm sido fundamentais”, quer na redução das partículas, com a introdução de filtros nos veículos a gasóleo, quer mais recentemente na diminuição dos óxidos de azoto.

Apesar destes avanços, o principal obstáculo está na implementação efetiva dessas medidas e numa “mudança de mentalidade”, sublinha a investigadora. Muitas das soluções implicam mudanças no dia-a-dia das pessoas, sobretudo na mobilidade. Medidas como a redução do uso do automóvel individual ou restrições ao tráfego enfrentam resistência, precisamente porque “exigem alterações comportamentais”.

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