A iniciativa é coordenada pela médica especialista em saúde vocal Clara Capucho e destina-se a artistas, profissionais da voz e público em geral, que pode inscrever-se através do ‘email’ [email protected] ou por contacto telefónico (210 432 410).
Clara Capucho, coordenadora da Unidade da Voz da Unidade Local de Saúde Lisboa Ocidental, que funciona no Hospital Egas Moniz, explicou à agência Lusa que a finalidade do rastreio é o diagnóstico precoce de patologias vocais, que podem ser tratadas e revertidas.
A especialista fundou a Unidade da Voz em 2005 e, desde então, os rastreios decorrem regularmente por ocasião desta efeméride, durante uma semana, com avaliações de manhã e à tarde. Ao longo dos anos, tem-se verificado uma maior adesão da população ao rastreio, assim como uma maior consciencialização para a importância da voz.
Segundo a otorrinolaringologista, os rastreios têm permitido identificar casos de cancro, HPV na laringe, presbifonia, associada ao envelhecimento da voz, entre outros problemas.
“Por exemplo, em 2024, conseguimos apanhar cancros e em 58% dos casos em estadiamentos mais avançados”, afirmou, observando que a tendência tem vindo a inverter-se, com a deteção de tumores em fases mais precoces, permitindo tratamentos curativos ou com maior sobrevida.
O cancro da laringe representa apenas 2% dos tumores, mas o problema é que os sintomas aparecem numa fase muito tardia, o que reforça a importância do rastreio: “Quando diagnosticado precocemente, tem cura em 98% dos casos”.
Alertou ainda para a importância da prevenção e dos cuidados com a saúde vocal, sublinhando que alterações persistentes da voz devem motivar avaliação médica, sobretudo quando a rouquidão se prolonga por mais de uma semana.
Clara Capucho salientou que a sobrecarga vocal, o ‘stress’, a hidratação insuficiente e o uso inadequado da voz são fatores de risco relevantes para o desenvolvimento de patologias vocais, a que se juntam o tabaco, a poluição, o refluxo e o HPV.
Entre os principais cuidados, destacou a importância de evitar o abuso vocal, “não pigarrear”, manter uma boa hidratação e reduzir comportamentos de esforço excessivo da voz no quotidiano.
A especialista salientou que pequenas alterações podem ser tratadas com exercícios específicos, muitas vezes com apoio de terapeutas da fala e professores de canto, evitando a necessidade de cirurgia.
Quando é necessário tratamento cirúrgico, são utilizadas técnicas que procuram preservar o timbre vocal, nomeadamente laser CO2 e outras tecnologias, de forma a minimizar sequelas.
Os rastreios resultam de uma parceria com a Fundação GDA.
“Ao apoiar esta iniciativa, reafirmamos a nossa missão de defesa e promoção do bem-estar dos artistas, incluindo a proteção da sua ferramenta de trabalho mais essencial, a voz, garantindo que a saúde vocal, tantas vezes invisível, mas absolutamente central, recebe a atenção e os cuidados que merece”, afirmou o diretor-geral da Fundação GDA, Mário Carneiro.
Clara Capucho, conhecida como “Dra. Voz”, referiu que o mote deste ano, “Cuidar da Voz”, destaca a importância da voz não apenas para a comunicação, mas também para o exercício de profissões dependentes da voz, como atores, cantores, professores, jornalistas, vendedores ambulantes ou trabalhadores de ‘call centers’.
“Tem que haver uma consciencialização para que a voz se mantenha, para que possam desempenhar o seu trabalho sem baixas, sem prejuízo, tanto para eles como para a entidade patronal e empregadora que necessita deles”, defendeu.
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