Há cidades que se explicam pelos seus monumentos. Coimbra explica‑se também pelos sítios onde se petisca. Em ruas discretas e bairros outrora periféricos, sobrevivem casas que pouco mudaram ao longo das décadas, fiéis a receitas simples, preços contidos e a uma hospitalidade única.
Da Associação Recreativa da Casa Branca, criada em 1976 “para servir petiscos a sócios e amigos”, às bifanas lendárias do Borges, passando pelos eternos debates em torno dos melhores “Ossos” da cidade, estas mesas dizem muito do carácter conimbricense. São espaços onde o tempo abranda, a ementa fala a língua da tradição e cada cliente traz consigo mais um pedaço da história da cidade.
Associação Recreativa da Casa Branca
Associação Recreativa da Casa Branca
Faz 50 anos em 2026 e nasceu, recorda João Santos, por iniciativa da direção da Associação Recreativa da Casa Branca, “para servir petiscos a sócios e amigos”. Tem, no entanto, como objetivo maior incentivar a prática desportiva dos mais jovens deste bairro de Coimbra. Quando abriu portas, situava-se nos arredores da cidade, mas hoje a construção quase coloca a sede da associação no perímetro urbano. As portas estão abertas todos os dias, exceto ao domingo, e, volvido meio século, continua a funcionar da mesma maneira, quer na promoção do desporto, quer no serviço aos associados e aos amigos que cada um leva, nem que seja apenas para petiscar. No que aos petiscos diz respeito, há uma lista quase infindável que João Santos recita como uma ladainha: “Temos salsicha, moelas, iscas de fígado, filetes, lombo, entremeada, bacalhau, sardinha, carapau e orelha”. Ainda assim, há sempre outras propostas tentadoras que animam as mesas. Quanto a preços, as opções variam entre €1,50 e €5.
Rua de Baixo, 2, Coimbra. Tel. 239100305
Barracão – O Cantinho dos Ossos
Barracão, O Cantinho dos Ossos
Poucos temas dividem verdadeiramente os conimbricenses, mas há um que persiste há décadas: onde se comem os melhores “Ossos” da cidade. A rivalidade sempre se fez entre o Zé Manel dos Ossos e o Quim dos Ossos. O primeiro transformou-se num ponto de atracção turística. O segundo encerrou durante a pandemia, mas viria a reabrir mais tarde noutro local. Literalmente, instalou-se num barracão junto à circular norte de Coimbra.
Feitos a partir dos melhores ossos de espinhaço, cozidos apenas com sal, cebola e um enchido para dar sabor, são servidos à dose (€8) ou, como petisco, em meia dose (€6,50), quantidade suficiente mesmo para “gente de muito sustento”. A acompanhar, chegam à mesa a hortaliça, o arroz e a batata, a murro ou frita. “São ossos de comer à colher, pela maneira como se desfazem”, assegura Emanuel Marques, funcionário da casa, que sublinha ainda “a generosidade do serviço”, mesmo quando as filas se acumulam intermináveis à porta.
Rua do Vale de Linhares, Coimbra. Tel. 239823146
Café Cervejaria Borges
Café Cervejaria Borges
“Eu sou uma lenda! Qual famoso? Sou uma lenda”, afirma Luís Borges, sem qualquer modéstia ou hesitação. “Uma lenda dos petiscos da cidade de Coimbra.” E acrescenta, a título de prova: “Só para ver, ainda este ano cá esteve uma televisão belga a fazer uma reportagem comigo”. O sucesso não aconteceu de um dia para o outro. Levou 50 anos a construir, num espaço que antes acolheu a Leitaria do Castelo, e onde hoje se cultiva uma clientela fiel, alimentada tanto pelos petiscos como pela personagem.
Há dois pratos que nunca saem da ementa. Primeiro, as “Bifanas” (€3,50), que Luís Borges garante serem “as melhores do mundo, porque ninguém come só uma”. Diz preparar entre 4 e 5 kg de carne por dia e não abdica de sublinhar o segredo do molho e do picante, com mais de “15 meses de maturação”. Depois, as “Tostas de galinha” (€3,50), “inventadas por nós”, feitas com pão especial e um molho também criação da casa, que contribuiu para a identidade do espaço. Nas redes sociais, o empresário tornou‑se um fenómeno e soma admiradores. No interior, uma “parede da fama” exibe fotografias com clientes. “Todos querem ser fotografados comigo”, diz, entre risos, como quem relata algo perfeitamente natural.
Avenida Marnoco e Sousa, 5, Coimbra. Tel. 239716297
Mijacão
Mijacão
Em 1939, para ajudar a localizar o estabelecimento, o proprietário decidiu colocar à porta um cão de barro com uma perna levantada, como se estivesse a aliviar-se. Assim nasceu o nome da casa, hoje nas mãos de Jorge Silva. “O nome pegou”, recorda, “e quando as pessoas combinavam um petisco ou um copo, diziam que era no Mijacão o ponto de encontro”.
Décadas depois, continuam a ser muitos os que ali marcam encontro à procura de petiscos como “Moelas”, “Iscas”, “Orelha” e “Pataniscas”, entre mais de 30 opções disponíveis na ementa. Apesar da fartura e da variedade, a verdadeira imagem de marca da casa são as “Bifanas” (€2,30). Servidas em pão de bico ou em pão da avó, surgem em versão grelhada ou à São Bernardo, com ovo, queijo, fiambre, alface e tomate. Há ainda as variações à Labrador e à Buldogue, esta última recheada com três porções de carne, pensada para apetites mais robustos.
Rua Nova, 8, Coimbra. Tel. 239156997
Restaurante A Cova Funda – O Espanhol
Restaurante A Cova Funda – O Espanhol
A história deste espaço começa com uma família de espanhóis que chegou a Coimbra fugida à Guerra Civil. Foram os irmãos Manuel, Benito e Pepo que deram início ao negócio, em 1947, mantendo‑o ativo durante mais de 60 anos.
Nicolau Oliveira, atual proprietário, trabalha na casa desde os 12 anos. Após cumprir o serviço militar, tornou‑se sócio e hoje, em conjunto com a filha, conduz os destinos do estabelecimento. Tem bem presente a origem do nome, que “se justifica pela necessidade de descer umas escadas para chegar à sala de refeições”. Mantém à frente do nome “O Espanhol” porque “há muitos clientes que nunca se esqueceram do nome original e continuam a tratá‑lo pelo antigo”.
Empresários e trabalhadores da zona, jogadores da Académica, treinadores, futebolistas e estudantes continuam a frequentar a casa, conhecida pela “Sopa à lavrador” e pelo “Bacalhau com grão” (€9,50). Para petiscar, há “Petingas fritas de escabeche”, “Jaquinzinhos”, “Moelas” e o que mais o mercado ditar. Como reconhecimento da sua história e da importância social na cidade, o município de Coimbra distinguiu o espaço com o galardão Comércio com História.
Rua da Sofia, 117, Coimbra. Tel. 239825195
Taberna Casa Costa
Taberna Casa Costa
Em 65 anos, pouco mudou, com exceção dos pipos, antes em madeira, hoje em inox, “mas sempre com vinho do produtor”, garante Rui Gonçalves, proprietário da casa, que continua a ser um dos pontos de eleição dos conimbricenses para um petisco e um copo. Esta gerência comanda o espaço há 46 anos. “Foi aqui a minha creche, uma vez que a casa era dos meus avós e da minha mãe”, recorda, sublinhando a dimensão familiar que atravessa gerações.
O mais emblemático dos petiscos é a “Sandes de omelete” (€2,40), a que se seguem os peixes fritos, como a “Sardinha em molho de escabeche”, vendida à unidade. A “Chanfana” é prato do dia e, se sobrar, pode ainda chegar ao balcão num pires, assim o cliente o deseje.
Rua Filipe Simões, 3, Coimbra. Tel. 239717739
Tasquinha T’Irene
Tasquinha T’Irene
Fundada nos finais da década de 70 do século passado, esta casa de alma de tasca tradicional, que tem em D. Irene a sua anfitriã, foi ao longo dos anos refúgio fiel de estudantes e tunas de Coimbra. Junto às ruínas do Convento de Santa Clara-a-Velha, preserva-se aqui o sabor da cozinha portuguesa feita com tempo e afecto, como se de uma casa de avó se tratasse. Em funcionamento ininterrupto ao longo do dia, a tasca mantém viva a tradição de pratos típicos confecionados com a simplicidade e os segredos de outros tempos.
O espaço conta uma história antiga, visível na decoração singela e no pátio das traseiras, onde as mesas ao ar livre se dispõem à sombra das árvores, com vista para o rio Mondego, longe do ritmo frenético de outras casas. A ementa é curta e muda diariamente, mas as doses (€15) são generosas e as refeições fazem-se sem pressas, com propostas como “Dobrada”, “Chanfana”, “Bacalhau assado no forno”, “Bacalhau à Brás”, “Galo de cabidela” e “Galo à antiga”. Por encomenda, a casa prepara ainda pratos de caça, como javali e veado. Em alternativa, pode sempre ficar-se por um petisco, acompanhado por um copo de vinho.
Rua de Baixo, 35, Coimbra. Tel. 919930120
Toca do Gato
Toca do Gato
“Por estar na Rua dos Gatos e como parece estar num buraco, já que é preciso descer alguns degraus, assemelha‑se a uma toca.” É assim que se explica o nome deste espaço inaugurado antes de 1930, apesar de João Brás, que o gere com a mulher, Anabela, não conseguir fixar a data exata. O que não esquece é a determinação em manter a casa aberta, “para que a história não se perca”.
Em 2021, já depois das obras de recuperação e da abertura da esplanada, o estabelecimento foi distinguido com a classificação Comércio com História, atribuída pela autarquia, um reconhecimento do seu valor patrimonial e social na cidade. À mesa, há presenças quase permanentes na ementa, como “Orelha fumada” (€3), “Iscas”, “Bifanas”, “Jaquinzinhos fritos” e “Petingas”, além de “uma chouricinha boa, assada”, como faz questão de sublinhar João Brás, num convite simples e direto ao petisco.
Rua dos Gatos, 8, Coimbra. Tel. 962916904
Zé Manel dos Ossos
Zé Manel Dos Ossos
A constante fila à porta abre o apetite de quem espera para provar a simples, mas saborosa especialidade que dá nome à casa. Os “Ossos” (€13) do espinhaço de porco cozidos são um fenómeno de popularidade neste espaço aberto em 1959. “Feijoada de javali”, “Arroz de feijão malandrinho com costeletinhas de porco” e “Polvo na brasa com molho especial” são outras especialidades a provar. O “Vomitado”, sobremesa feita à base de doce de ovos, é a melhor maneira de terminar a refeição.
Beco do Forno, 12, Coimbra Tel. 239823790
