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Restaurante de israelitas fecha em Lisboa: "Campanhas hostis e boicote"

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O restaurante Tantura, em Lisboa, encerrou no sábado passado devido ao “alarmante aumento do antissemitismo no mundo” na sequência da guerra em Gaza. Segundo os proprietários israelitas, o estabelecimento foi alvo de vandalismo, “campanhas hostis e um boicote total”. 

“Nos últimos três anos, com a guerra e o alarmante aumento do antissemitismo no mundo, fomos confrontados com uma realidade dura e dolorosa: graffiti nas paredes do restaurante, difamação online, campanhas hostis e um boicote total”, lê-se numa publicação na rede social Facebook.

Os proprietários – Elad Budenshtiin e Itamar Eliyahu – lamentaram que o “lugar que deveria ser um espaço de ligação e alegria” se tenha transformado numa “arena de luta diária”. 

“A decisão de encerrar a Tantura está entre as mais difíceis que alguma vez tivemos de tomar. Por isso escolhemos recolher-nos para dentro. Procurar tranquilidade. E criar um novo lar”, acrescentaram. 

Agora, os proprietários decidiram recuperar uma “quinta de charme” e pediram uma “oportunidade para recomeçar em paz, sem stresse nem pressa, criando uma angariação de fundos na página GoFundMe

“Cada donativo é uma porta aberta para se juntarem a nós nesta nova jornada e fazerem parte de uma história que continua a ser escrita. Tantura está a fechar, mas o espírito, o amor e o sonho continuam”, escreveram.

Nome do restaurante na origem dos protestos

Elad Budenshtiin e Itamar Eliyahu abriram o restaurante em 2017, no Bairro Alto, no centro de Lisboa. Escolheram o nome Tantura, inspirados pela praia onde se conheceram e mais tarde casaram.  No entanto, Tantura é também o nome de uma aldeia palestiniana que foi palco de um massacre de palestinianos durante a Guerra da Independência de 1948. 

Em 2024, o restaurante foi grafitado com frases “Tantura é um massacre” e “Free Palestine”. O objetivo, segundo o grupo Coletivo pela Libertação da Palestina, foi “denunciar como o restaurante sionista que diz servir ‘as receitas mais conhecidas da culinária israelita’ é, na verdade, um projeto de apropriação cultural e de branqueamento da Nakba”.

“Tantura, o nome escolhido pelos dois donos israelitas para o restaurante localizado no Bairro Alto, era uma pequena vila costeira palestiniana perto de Haifa, onde viviam cerca de 1500 pessoas. Na noite de 22 de maio de 1948, uma semana após a declaração do estado de Israel, Tantura foi atacada e ocupada por uma brigada do exército sionista”, recordou o grupo.

“Testemunhos de aldeães palestinianos e soldados israelitas afirmam que, depois de se renderem, o exército massacrou até 250 civis e membros da resistência palestiniana – na sua maioria jovens desarmados – em duas vagas de assassinatos”, acrescentou.

No comunicado, o grupo lamentou, ainda, que os proprietários não tenham reconhecido o massacre de Tantura ou o facto de Tantura ser uma aldeia palestiniana destruída pelo projeto colonial israelita.


Em declarações ao Diário de Notícias, na altura, Elad Budenshtiin e Itamar Eliyahu afirmaram que não tinham conhecimento desta associação histórica quando escolheram o nome do restaurante. 

“Não somos políticos. Estamos a viver num país que amamos, aproximando pessoas e culturas através da comida. (…) Abrimos um restaurante, chamámos-lhe Tantura – nome de uma das mais bonitas praias de Israel – e o resto é história”, disseram.

Já numa entrevista ao Canal 12 de Israel, na semana passada, os proprietários contaram que a campanha de assédio começou a 8 de outubro de 2023 – um dia após o ataque do grupo islamita palestiniano Hamas em Israel.

“Parecia planeado, porque tudo começou ali. Começou com mensagens online, depois houve um protesto em frente ao restaurante, graffitis nas paredes, mostrando uma foto nossa como donos de um ‘negócio sionista’, estava por todo o lado”, disse Eliyahu.

Número de clientes do restaurante passou de 120 para 20 por dia

Em entrevista ao jornal israelita Haaretz, os proprietários contaram que o movimento do restaurante caiu de 120 clientes por dia antes da guerra para 20.

Segundo os próprios, noutro comunicado das redes sociais, foram-lhe “sugeridas soluções”, como mudar o nome do restaurante,  manter um perfil discreto, colocar um cartaz a dizer que “não apoiam” a guerra em Gaza ou esconder a sua identidade.

“Tudo isto pareceu um penso rápido numa ferida muito mais profunda”, afirmaram. “Desistimos de Tantura, mas não de nós próprios”.

Congresso Judaico Europeu “profundamente preocupado” 

O Congresso Judaico Europeu (CJE) disse estar “profundamente preocupado” com o encerramento do restaurante de Lisboa.

“O facto de um espaço cultural e gastronómico dedicado a unir as pessoas ter sido levado à falência pelo ódio é um reflexo preocupante do clima que a vida judaica e israelita enfrenta em partes da Europa hoje”, afirmou o CJE num comunicado nas redes sociais.

“Quando o antissemitismo se manifesta de uma forma que silencia os meios de subsistência e apaga a presença judaica da vida pública, deve ser reconhecido pelo que é: discriminação com consequências reais e nefastas. O Congresso Judaico Europeu expressa a sua total solidariedade aos proprietários do Tantura e à comunidade judaica de Lisboa”, acrescentou.

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