José Preto, o até agora advogado de José Sócrates e que pediu renúncia à defesa do antigo primeiro-ministro, explicou que tomou a decisão por considerar que a sua situação clínica estava a ser usada pelo tribunal para “fragilizar a posição da defesa”.
Em declarações à RTP, José Preto afirmou que não podia “consentir” que o facto de estar com uma pneumonia – e de, inclusive ter estado internado no Hospital Santa Maria, em Lisboa – fosse usado como uma forma de fragilizar a defesa a que Sócrates tem direito: “Designadamente, pela nomeação de um defensor oficioso, que não pode ter conhecimento, por mais que o quisesse ter tido, de 300 mil folhas de processo e 400 horas de gravação”, explicou.
José Preto referia-se a Ana Velho, a advogada oficiosa chamada pelo Tribunal a semana passada para defender José Sócrates no julgamento, que teve apenas cinco dias para preparar a defesa do antigo primeiro-ministro.
“Não é possível isto”, afirmou. “E como não é possível, eu não posso deixar de admitir que uma tal nomeação serve para fragilizar os direitos da defesa – e isso eu não posso consentir. Portanto, renuncio para devolver ao engenheiro José Sócrates a decisão que lhe cabe relativamente ao exercício e organização da sua defesa, impedindo os interesses da organização institucional de usarem o meu impedimento temporário para fazer o que estão a fazer“, concluiu.
Questionado sobre o porquê de não ter nomeado um outro advogado para tratar da defesa do antigo primeiro-ministro enquanto se encontrava doente, José Preto explicou que isso não iria anular o problema da falta de tempo de preparação.
“Isso seria devolver a terceiro o problema que eu próprio tenho, ou seja, dez dias para estudar os autos. Eu não posso passar isto a outro colega porque é absolutamente inútil. É transferir o problema, não é anulá-lo“, considerou.
José Preto adiantou ainda que comunicou a sua decisão em primeiro lugar a José Sócrates – “como é óbvio” – deixando claro que entre si e o antigo primeiro-ministro “não há qualquer conflito de qualquer natureza”.
Aliás, o advogado fez questão de frisar a “enorme consideração” que tem por Sócrates que “não cessa de aumentar”.
“É um homem com uma extraordinária conduta sobre pressão, como se tem visto. Um homem de excepcionais qualidades pessoais e não tenho com ele nenhum conflito, nenhuma divergência. O que faço é para proteger a posição dele em processo“, afirmou, considerando ainda a defesa de Sócrates “uma tarefa de capital importância”.
José Preto não pôs ainda de lado a possibilidade de voltar a assumir a defesa do antigo primeiro-ministro, mas frisou que só o fará se a sua presença não prejudicar Sócrates: “Se o Tribunal tivesse qualquer regresso à razoabilidade, sim, não vejo objeções a continuar [na defesa], pelo contrário.”
O advogado afirmou ainda que José Sócrates “contará” consigo em “tudo” o que puder ser útil.
Sócrates está a ser representado por advogados oficiosos desde 6 de janeiro
José Preto apresentou esta terça-feira de manhã um requerimento ao tribunal onde pede para renunciar à defesa de José Sócrates.
O advogado, recorde-se, tinha sido contratado pelo antigo chefe de Governo em novembro de 2025, na sequência da renúncia do advogado Pedro Delille, que acompanhava José Sócrates desde que este fora detido na Operação Marquês, em novembro de 2014.
Na altura, o ex-governante chegou a ser representado por outro advogado oficioso, José Manuel Ramos, em várias sessões do julgamento, até este ser suspenso por quase dois meses, com reinício agendado para 6 de janeiro de 2026, data em que José Preto não compareceu, por estar hospitalizado.
O tribunal nomeou então aleatoriamente a advogada oficiosa Inês Louro, que renunciou logo em seguida à defesa, alegando “objeção de consciência”. A advogada, note-se, é do Chega, e já pronunciou-se por várias vezes de forma crítica sobre o antigo primeiro-ministro.
Seguiu-se Ana Velho, que, após ter tido cinco dias para consultar o processo, marcou presença na sessão desta manhã, durante a qual foram ouvidas duas testemunhas sem conhecimento dos atos sob suspeita.



