Agronegócio

Matadouro do Cachão entrou em processo de insolvência por dívida de 1 ME


O matadouro industrial do Cachão, em Frechas, no concelho de Mirandela, entrou em processo de insolvência, solicitado por um dos credores, depois de a dívida ter chegado a perto de um milhão de euros, explicou, hoje, a administração.

O administrador do matadouro do Cachão, que tem como acionistas maioritários os municípios de Mirandela e de Vila Flor, disse, à Lusa, que a “insolvência foi requerida por um dos credores do matadouro”, a Ares Lusitani.

“Estamos a falar de uma dívida original de cerca de 400 mil euros, que resulta de um financiamento ao BES, (…) e, com a capitalização do juro, neste momento já se fixa em valores próximos dos 983 mil euros”, adiantou o administrador Michel Monteiro.

Contactada pela Lusa, até ao momento não foi possível obter esclarecimentos da Ares Lusitani.

Questionado sobre a razão de a dívida ter vindo a crescer, o responsável explicou que a causa estará da diminuição de exploração de animais para abate.

“Se já estamos a injetar dinheiro no matadouro para ter atividade operacional em normal funcionamento, pouca margem nos deixa para conseguir amortizar o passivo que foi constituído”, referiu.

O matadouro industrial do Cachão emprega 23 trabalhadores, “na maioria com idades entre os 63 e 66 anos”. Apesar de o processo de insolvência estar a decorrer, continua a “mantêm-se em total e pleno funcionamento” e até ao momento “ninguém foi despedido”.

Caso o processo seja fechado e seja declarada insolvência, Michel Monteiro garantiu que os colaboradores “terão de ser ressarcidos dos seus direitos”.

Ainda assim, decorre ainda o prazo para entrega da reclamação dos créditos, por parte dos credores, e depois disso, os municípios de Mirandela e Vila Flor irão apresentar um “plano de recuperação”, que será votado na assembleia de credores.

“Pode acontecer o plano não ser aprovado nesta primeira fase, pode acontecer haver um ajustamento no plano e ser votado posteriormente, ou seja, este processo ainda se pode arrastar durante algum tempo ou pode ficar já definido daqui a quatro, cinco ou seis semanas caso os credores concordem com o plano de recuperação. Está nas mãos dos credores, não ficará nas mãos dos acionistas”, vincou Michel Monteiro.

O administrador salientou que esta dívida é uma herança de anteriores administrações, mas os municípios estão empenhados para resolver o problema.

“Os acionistas, mesmo sabendo que temos um enorme défice de exploração, que resulta da constante diminuição de efetivos para abate, tem mantido o matadouro a funcionar (…) Os acionistas estão verdadeiramente dedicados em manter aquela valência em funcionamento (…) Se fosse entregue a um privado não aguentaria um mês. Nenhuma empresa compra uma empresa para ter prejuízo”, afirmou.

Numa nota enviada à Lusa, a CDU revelou que já tinha questionado o presidente da câmara de Mirandela, Vítor Correia, numa Assembleia Municipal, sobre a possível insolvência do matadouro. No entanto, disse não ter obtido qualquer resposta.

“O MIC (matadouro industrial do Cachão) encontra-se insolvente, uma vez que o seu passivo é superior ao seu ativo em cerca de 2,3 milhões de euros, e, portanto, deverá vir a ser declarada a sua insolvência. Pelo facto de o Município deter uma participação de 49,1% na sociedade intermunicipal AIN (Agroindustrial do Nordeste, E.I.M, S.A.) e esta, por sua vez, deter a totalidade do capital (100%) da sociedade MIC (Matadouro Industrial do Cachão, S.A.) verificamos que a sociedade A.I.N. nunca efetuou a cobertura dos prejuízos da sociedade M.I.C. (…) e que, a esta data, deverão ultrapassar 3 milhões de euros”, pode ler-se no comunicado.

Confrontado com esta informação, o administrador Michel Monteiro disse que “a questão nem é o passivo ser superior ao ativo”, mas sim a “fragilidade dos capitais próprios”.

A CDU entende que “a gravidade deste possível desfecho é profundamente negativo para os trabalhadores que perdem o seu posto de trabalho” e, por isso, vai questionar, na Assembleia da República, o ministro da Agricultura “sobre as medidas em curso para garantir que os produtores locais não ficam impedidos de abater os seus efetivos”.

O SINTAB, Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura e das Indústrias de Alimentação, Bebidas e Tabacos de Portugal, também já se pronunciou. “Esta decisão representa o culminar de um longo processo de má gestão, marcado por opções de endividamento cuja finalidade nunca se traduziu na melhoria das condições de trabalho, nem no reforço da capacidade produtiva da unidade. Trata-se de um caminho que foi sendo sucessivamente avalizado pelas autarquias de Mirandela e Vila Flor”, afirmou, num comunicado enviado à Agência Lusa.

Além de salientar os postos de trabalho que podem ficar em causa, o sindicato realçou ainda a importância da pecuária para o nordeste transmontano, um dos “principais pilares de subsistência da região”, que entende que “não pode ser abandonada”.

“Não existe, neste momento, qualquer infraestrutura com capacidade equivalente de abate em funcionamento”, vincou, acrescentando que “o eventual encerramento do Matadouro Industrial do Cachão representará uma machadada absurda num dos principais pilares da economia agroindustrial de Trás-os-Montes, agravando as dificuldades já existentes, pela perda de infraestruturas essenciais e de capacidade produtiva”.

O matadouro do Cachão sofreu obras recentemente. Em janeiro de 2025, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária fechou a infraestrutura por falta de condições e de manutenção do equipamento, obrigando à realização de obras. Reabriu cerca de um mês depois, após um investimento de 17 mil euros do município de Mirandela, segundo adiantou, à Lusa, a câmara.



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