Cultura

Febre amarela pode regressar à Europa: estudo alerta para risco de nova epidemia


Saúde e Bem-estar

Um estudo internacional analisa a epidemia de febre amarela de 1857 em Lisboa, que matou mais de 5.600 pessoas, e alerta que alterações climáticas, urbanização e mobilidade global podem favorecer o regresso da doença às cidades europeias.

Felipe Dana/ AP

A febre amarela pode regressar à Europa e Lisboa já foi palco de um dos surtos mais devastadores do continente. Um estudo publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases reconstrói em detalhe a epidemia de 1857 na capital portuguesa e identifica condições que continuam presentes hoje.

A investigação foi liderada pelo Imperial College London, em colaboração com o Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa, com base em documentação histórica preservada nesta instituição.

“O acesso e a análise de dados de surtos históricos, como os preservados no património documental do IHMT NOVA, permitem compreender padrões de propagação, os determinantes sociais de saúde envolvidos e antecipar riscos relevantes para a saúde pública atual”, destaca Ana Abecasis, professora do GHTM | IHMT NOVA.

Um vírus importado que se espalhou em semanas

Segundo os investigadores, a epidemia teve origem na chegada de navios provenientes do Brasil no século XIX, que transportavam o mosquito Aedes aegypti, o principal vetor urbano da febre amarela.

A partir da zona portuária, a doença espalhou-se rapidamente por toda a cidade. As áreas mais afetadas concentraram-se nas zonas ribeirinhas, densamente povoadas e com maior acumulação de água, condições ideais para a proliferação do mosquito.

O estudo conclui que a propagação da doença não dependeu apenas do ambiente.

Fatores como a ocupação, o género, as condições de habitação e o acesso a cuidados de saúde influenciaram o risco de infeção e de morte. Trabalhadores ligados ao porto estiveram entre os primeiros afetados.

Já muitas mulheres, frequentemente em trabalho doméstico e com menor acesso a cuidados médicos, apresentaram maior probabilidade de morrer em casa.

Espaços como alojamentos coletivos e zonas de grande circulação contribuíram para acelerar a transmissão.

Densidade urbana e pressão turística são fatores de risco

Os autores alertam que várias das condições que favoreceram a epidemia no século XIX continuam presentes.

“Atualmente, zonas costeiras e de baixa altitude na cidade de Lisboa continuam entre as mais vulneráveis devido a forte pressão urbana e turística, proximidade a pontos de entrada internacional, condições favoráveis à retenção de água em meio urbano e impacto crescente das alterações climáticas”.

Vacina existe, mas não elimina o risco

Apesar de existir vacina, a febre amarela continua a ser endémica em várias regiões do mundo.

A investigadora Ana Abecasis, do IHMT NOVA, sublinha que o estudo de surtos históricos permite compreender padrões de propagação e antecipar riscos atuais.

“A epidemiologia – ciência que estuda a distribuição e os determinantes das doenças nas populações – ganha profundidade quando integrada com dados históricos, permitindo não só reconstruir padrões de transmissão passados, mas também antecipar riscos futuros com maior rigor”.

De sublinhar que o estudo não indica que exista um risco imediato de surto na Europa, mas sim que estão reunidas condições que tornam esse cenário possível.

O que é a febre amarela

Segundo o site do SNS, a febre amarela é uma doença viral aguda transmitida pela picada de mosquitos infetados, mais frequentemente da espécie Aedes aegypti, sendo o vírus responsável um arbovírus do género Flavivírus.

Sintomas: febre, dores de cabeça, dores musculares, falta de apetite, mal-estar geral ou náuseas, vómitos, fadiga, coloração amarelada de pele e/ou mucosas dos olhos (icterícia).

Os sintomas iniciais tendem a desaparecer após 3 a 4 dias. No entanto, após estes sintomas iniciais, 1 a 2 em cada 10 doentes desenvolverá uma forma grave de febre amarela: sangramento (hemorragia) do tubo digestivo, nariz e/ou olhos, falência de múltiplos órgãos e choque

A mortalidade nos doentes com forma grave de doença é muito elevada, podendo chegar aos 50%.

Distribuição: endémica em regiões de África, América Central e América do Sul. Não existe em nenhum país do continente Asiático ou Europeu.

Consulte os mapas disponíveis na Organização Mundial da Saúde: África e Américas.

Vacina: existe uma vacina contra a febre amarela, com muitos anos de utilização e por isso segura, eficaz e da qual uma única dose confere imunidade vitalícia (durante toda a vida) contra esta doença. A vacina é administrada nos Centros de Vacinação Internacional.



SIC Noticias

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