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Um mecanismo europeu para antecipar e evitar ditaduras? Rui Tavares, que conhece bem o regime de Orbán, explica como

O Mundo a seus Pés

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Rui Tavares acha um pouco tonto acharmos que só os nossos antepassados poderiam ter deixado os radicalismos dos anos 30 chegar ao poder. Não estamos imunes, e a Hungria é um caso que merece uma lupa demorada precisamente por já ter passado por vários ciclos de populismo e estar apenas agora, numa grande incerteza, a experimentar outra coisa. Como se garante participação cívica depois de uma vitória tão esmagadora? Como se evita cair nas mesmas armadilhas do poder? E o que é que a UE poderia fazer para tentar evitar que os Estados-membros resvalem para regimes iliberais?

Viktor Orbán perdeu “o toque populista” que lhe foi roubado pelo seu antigo discípulo,Péter Magyar. Por muito que tenha sido um alívio em Bruxelas e em outras capitais europeias Orbán não ter, mais uma vez, renovado a sua maioria, isso não significa que Magyar, um apoiante do Fidesz até há coisa de dois anos, seja um social-democrata à moda nórdica, avesso à intervenção do Estado na vida das pessoas, onde os políticos consideram que responder imediatamente aos jornalistas é responder imediatamente ao povo. Esta é uma parte da questão – é a parte interna da questão.

Outra ramificação da análise prende-se com as implicações da derrota de Orbán para o movimento nacional-conservador mundial, que o próprio inaugurou há mais de 20 anos, quando, em 2002, tendo perdido as eleições, disse que “a nação não pode estar na oposição”, arvorando-se a si mesmo, aos seus ideais, ao seu partido, na única opção possível para um Governo verdadeiramente húngaro.

Os populismos são todos muito diferentes, porque cada país elege os seus líderes mediante necessidades e urgências diferentes. A Reunião Nacional em França responde a problemas completamente diferentes daqueles que levaram os norte-americanos a eleger Trump, nas ex-repúblicas soviéticas a corrupção e a desigualdade são endémicas, coisa que não acontece, por exemplo, na Escandinávia, onde também existem partidos populistas de sucesso. No Reino Unido, esta sensação de que não controlamos os acontecimentos e que são as elites a decidir por nós, e que está na base de algum voto populista, cristalizou-se num voto pela saída do país da UE, coisa que um populista em Portugal ou em Itália só defenderia se não tivesse qualquer intenção de vencer eleições.

Resumindo: a marca Orbán parece ter pedido a capacidade de convencer os húngaros, mas a atratividade este tipo de Governos encabeçados por políticos controversos, “durões”, que se preocupam pouco com as regras democráticas convencionais e dizem defender os [inserir nacionalidade em questão] dos perigos da guerra, da imigração, da inflação, do globalismo, da ditadura das minorias ou de outro qualquer problema, não sofreu nenhum revés significativo e, neste episódio de O Mundo a Seus Pés, Rui Tavares, o eurodeputado que encabeçou a equipa que redigiu o primeiro relatório sobre o declínio do Estado de direito na Hungria, nos idos de 2013, explica porquê.

Há diversas razões para que esta oferta política ainda não se tenha esgotado, uma das mais óbvias é que ela ainda nem sequer chegou ao poder em muitos dos países onde existe como opção. “A Hungria tem vários ciclos de antecipação em relação a nós. Mesmo que acreditemos que as coisas funcionem por ciclos, eles já estão neste ciclo há mais tempo, pelo menos desde 2002, ou seja, esta foi a segunda onda de Orbán no poder. A segunda vez de Trump no poder foi só agora. A segunda vez de um Bolsonaro no poder ainda não chegou. E alguns países ainda não passaram sequer pela primeira vez de um autoritário no poder”.

Durante alguns anos, conta Rui Tavares, muitos jornalistas estrangeiros quiseram saber a sua opinião sobre a alegada imunidade de Portugal, Espanha, Irlanda à vaga de extrema-direita que já se fazia sentir na Europa em 2014, no seguimento da crise de refugiados, e logo depois, com o Brexit e a eleição de Donald Trump. “Perguntavam-me: ‘será que é porque, tal como a Espanha, as ditaduras foram mais recentes e ainda na memória pública há uma certa resistência à ideia de uma ditadura?’ Havia essa teoria. Que tem algum sentido, mas que não nos protegeria para sempre porque, quando muito, é uma espécie de analgésico muito pequeno contra uma forma particularmente virulenta de cancro”, refere o porta-voz do Livre.

O mesmo se passa com estes movimentos, que podem ainda assim ensinar-nos muito. A votação de Péter Magyar pode dar à Hungria uma “oportunidade única de envolvimento da sociedade civil na política” e, isso sim, pode ser “o mapa” para o combate a estes movimentos. O novo ímpeto constituinte deverá, no entender de Rui Tavares, “ ser acompanhado por assembleias cidadãs da própria sociedade civil húngara que está agora mobilizada”. Isto contribuiria para uma responsabilização geral na evolução democrática do país, mas também para evitar as narrativas de “partido contra partido” ou “líder contra líder”. Com a mobilização da população, Magyar vai poder dizer que tem o povo contra os obstáculos, as “minas” deixadas pelo antigo regime.



SIC Noticias

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