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Texto de Filipe Basto, especialista em medicina do viajante. Assinala-se este sábado o Dia Mundial da Malária, doença que mata mais de 500 mil pessoas por ano. Provocada por parasitas do género Plasmodium transmitidos por mosquitos, afeta cerca de 250 milhões de pessoas anualmente. Esta é uma doença que pode ser prevenida, tratada e erradicada.
Ashley Cooper
A malária (ou como muitas vezes se denomina, o paludismo) é uma doença muito grave provocada por um grupo de parasitas do género Plasmodium que infetam alguns tipos de mosquitos e podem, através da picada destes insetos, ser transmitidos aos humanos, causando doença.
A forma mais grave é provocada pelo Plasmodium falciparum que pode rapidamente levar à morte e afetar múltiplos órgãos e sistemas.
A maior parte destes casos acontece em África, afetando particularmente as crianças com menos de 5 anos.
Em Portugal os casos registados estão associados a pessoas que viajam para destinos onde a doença é frequente, por exemplo alguns dos países africanos onde se fala português, ou a pessoas vindas das regiões do mundo mais afetadas.
Comemorar o Dia Mundial da Malária permite sensibilizar-nos para esta doença devastadora que afeta uma grande parte da humanidade e para o facto de a malária poder ser prevenida, ser tratada e mesmo erradicada se partilharmos uma visão ambiciosa de um mundo sem malária.
O objetivo é portanto eliminar a malária nos locais onde ela permanece como um importante problema de saúde pública, prevenir a sua reaparição em locais onde ela já foi eliminada e diminuir as taxas de morbilidade e mortalidade condicionadas pela doença.
Para isso são implementados programas que reduzem o número de pessoas em risco e simultaneamente criam condições para prevenir e tratar de forma mais eficaz e oportuna as pessoas que podem ser afetadas pela doença.
De acordo com as estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de metade da população do planeta está em risco de contrair a doença, existindo cerca de 250 milhões de casos de malária por ano.
O número de mortes ultrapassa as 500 mil por ano, a maioria em África.
Embora com características que podem ser muito diferentes, a malária pode ocorrer em cerca de 100 países que envolvem, entre outras, regiões importantes de África, especialmente Subsaariana, regiões do sul e sudeste da Ásia, Oceânia / Pacífico Sul, Médio Oriente e partes significativas da América Central e do Sul.
A malária aproveita as condições de pobreza e a inexistência de sistemas de saúde consistentes para perpetuar uma espiral negativa, de doença e de pobreza, que comprometem o desenvolvimento económico dos países onde é mais comum.
De uma maneira geral uma pessoa poderá ter malária desde que viva ou viaje para países afetados pela doença.
A malária é habitualmente transmitida através da picada de um mosquito, a fêmea do mosquito Anopheles, que tem uma certa predileção por picar no período noturno, entre o pôr do sol e o nascer do dia.
Como o parasita se instala nos glóbulos rubros das pessoas afetadas a doença pode também ser transmitida pelas transfusões de sangue, pela partilha de seringas, pela transplantação de órgãos ou mesmo ser transmitida aos bebés durante a gravidez ou durante o parto.
A malária não se transmite por via respiratória ou nos contactos sociais entre pessoas.
iiievgeniy
Todos os que vivem ou viajam para locais onde exista a doença tem naturalmente risco de a contrair. Contudo, os lactentes e as crianças com menos de 5 anos, as grávidas, os imunodeprimidos e as pessoas que regressam a locais com risco elevado de infeção após um período prolongado de ausência são os mais suscetíveis.
Embora a doença possa ser eficazmente tratada se o diagnóstico for precoce, a sua complicação mais devastadora é a morte.
Mas na verdade a doença também pode ser prevenida de forma muito eficaz. O facto de se utilizarem os meios de proteção (como a roupa, os repelentes, o ar condicionado ou as redes mosquiteiras) ou de prevenção (como as “profilaxias medicamentosas”) diminuem significativamente o grau de risco. Há muitas vezes conceções erradas em relação ao risco destas profilaxias medicamentosas e o aconselhamento médico adequado é nestas circunstâncias precioso!
Jaromir
Nos casos das deslocações para países com malária é muito importante garantir que há no local meios de diagnóstico e de tratamento pois a sua existência é essencial para diminuir o risco de complicações graves e/ou a possibilidade de morte.
Ao contrário do que todos gostaríamos que acontecesse não há nenhum sinal ou sintoma de doença que permita fazer por si só o diagnóstico específico de malária.
Na verdade, os sintomas que caracterizam a fase inicial da doença são comuns a muitas outras doenças e semelhantes aos que ocorrem, por exemplo, numa gripe vulgar: mal-estar geral, fadiga, dores musculares, cefaleias… Podem também estar presentes outros sintomas inespecíficos como a náusea, vómitos ou diarreia.
Por outro lado, a febre que classicamente se associa à malária pode ser variável ou ser apenas tardia.
E embora os sintomas possam ser ligeiros no início, a doença pode evoluir de forma extremamente rápida.
Por isso há uma “regra de ouro” que obriga – ao contrário do que acontece em países sem malária – a valorizar de forma imediata qualquer sintoma ou alteração do estado de saúde e fazer o teste de despiste da malária. Este teste é rápido e deverá repetir-se, mesmo que o teste inicial seja negativo, se os sintomas se mantiverem ou agravarem. Os testes permitem fazer o diagnóstico e quantificar a gravidade da doença.
A malária ou a suspeita de malária são uma emergência médica.
Um outro aspeto muito importante e subvalorizado é o conhecimento de que os sintomas de malária embora só possam iniciar-se depois de um período mínimo de “incubação” de 7 dias podem manifestar-se até meses depois da picada/infeção.
Deve por isso manter-se um elevado índice de suspeição pelo menos nos primeiros 3-6 meses após a saída da zona de risco pois a doença pode vir a manifestar-se neste período.
Ao contrário de outras doenças não há ainda vacinas eficazes na prevenção da malária.
TG23
Por outro lado, o nosso organismo não consegue montar uma resposta imunológica eficaz e duradoura, pelo que qualquer pessoa que tenha tido malária poderá voltar a tê-la.
Por isso e em jeito de aconselhamento final para quem viaja, não devemos esquecer a importância de:
– Dormir em ambientes controladas, com ar condicionado ou redes mosquiteiras (de preferência impregnadas com inseticidas de longa duração)
– Efetuar de forma adequada a medicação preventiva que evita o aparecimento da doença;
– Utilizar inseticidas residuais nas habitações para reduzir o risco de transmissão da doença.
Artigo da autoria de Filipe Basto, médico especialista em médico medicina interna e competência em medicina do viajante
