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Será Lisboa uma cidade para bicicletas? No Mobi Boom, Luísa Sousa e Diego Cavalcanti, investigadores e co-autores do livro “Cycling Cities: The Lisbon Experience”, desconstroem o mito das sete colinas e apontam para a ambição de seguir o modelo de Amesterdão. Oiça aqui o podcast assinado por Luís Costa Branco
Para Luísa Sousa e Diego Cavalcanti, a história da bicicleta em Lisboa é muito mais rica do que o senso comum sugere — e está repleta de mitos por desconstruir. “Lisboa não tinha passado ciclável”, era o que se dizia, mesmo entre académicos. O livro “Cycling Cities: The Lisbon Experience”, do qual são co-autores, veio mostrar o contrário. Não só mais de 70% das ruas de Lisboa têm menos de 5% de declive, como em 1901 foi apresentada a primeira proposta de uma ciclovia — para a Avenida da Liberdade. “Ainda hoje não a temos”, nota Luísa Sousa.
Os registos históricos de licenças de velocípedes traçam um retrato surpreendente dos utilizadores de bicicleta: serralheiros, funcionários públicos, militares, trabalhadoras domésticas, estudantes. Só em meados dos anos 60 do século XX é que o número de licenças de automóveis ultrapassou o de bicicletas. “O INE decide não publicar esses dados a partir de 70, porque a ideia era que a bicicleta estava dedicada à obsolescência”, explica Luísa Sousa. Em 1950, as bicicletas representavam 40% de todos os veículos em circulação no país.
A tensão entre automóvel e bicicleta não é nova, mas foi-se agravando com décadas de planeamento urbano centrado no carro. “Como é que se muda uma política e uma infraestrutura urbana se não se mudam também as ideias e os conceitos que fazem com que se produza esse espaço urbano?”, questiona Diego Cavalcanti.
Sobre Lisboa hoje, o diagnóstico é cauteloso. A rede ciclável cresceu, mas de forma inconsistente e o passado recente é um pouco preocupante. “Temos uma manta de retalhos numa série de sítios, houve ciclovias que foram desmontadas, como na Avenida de Berna”, critica Luísa Sousa, que apela a uma visão política clara. “Há coragem para fazer o que Amesterdão fez nos anos 70?”
No horizonte, as bicicletas partilhadas e a intermodalidade surgem como alavancas de mudança. “À medida que se oferecem alternativas, não é preciso ser só a bicicleta. A necessidade do carro foi gerada a posteriori — também podemos projetar um futuro em que haja bicicletas”, conclui Diego Cavalcanti.
Oiça o episódio na íntegra no topo desta página.
Eis a foto mencionada durante a conversa, com D. Maria Pia de Sabóia a andar de bicicleta no Palácio de Queluz
D. Maria a andar de bicicleta nos jardins do Palácio de Queluz
(Palácio Nacional da Ajuda)
Além disso, ha também este registo na Serra de Sintra.
Ao centro, marquesa de Belas, infante D. Afonso, Benjamim Pinto e rainha D. Maria Pia, à frente, segurando a bicicleta. A Rainha recebera recentemente lições para andar de bicicleta, no recinto do Jogo da Pela do Palácio de Queluz, onde ia por vezes exercitar-se com a sua comitiva particular. A partir da década de noventa, já viúva, a rainha organizava frequentes passeios de um dia, incluindo picnics, no campo ou na praia, onde era montada uma barraca de lona.
Fotógrafo desconhecido. 1898 (Palácio Nacional da Ajuda)
A forma como nos movemos define como vivemos. Mobi Boom é um podcast semanal sobre mobilidade, inovação e qualidade de vida nas cidades. Dos carros elétricos aos bairros inteligentes, exploramos as ideias, tecnologias e tendências que estão a transformar a malha urbana e a nossa qualidade de vida. Se acredita em cidades mais verdes, humanas e práticas, este podcast é para si. Novo episódio todos os domingos.
Mobi Boom é um podcast Expresso, com produção Tale House, e a primeira temporada tem o apoio da Kinto.
