Mundo

Não somos todos Vinícius – SIC Notícias


Desporto

Opinião

A opinião de João Rosado. Amanhã disputa-se o Real Madrid-Benfica e a UEFA só suspendeu Gianluca Prestianni.

Não somos todos Vinícius

Soccrates Images/GETTY

Não nasceu assim e no entanto está-lhe na pele, escrito em forma de tatuagem. O 13 de maio está no corpo de Vinícius Júnior e assinala um milagre muito maior do que a imensidão de golos que assinou vestido de branco e de amarelo.

Nas cadernetas do futebol tem a ver com a estreia como profissional ao serviço do Flamengo. Ainda nem sequer era maior de idade e a 13 de maio de 2017 respirava o ambiente do Maracanã, jogando os últimos… 13 minutos (descontos incluídos) da partida diante do Atlético Mineiro, correspondente à primeira jornada do campeonato brasileiro.

Com a transferência para o Real Madrid selada e programada para o ano seguinte, mal completasse os 18 anos, Vini começou nessa tarde a sentir o peso da responsabilidade dos muitos milhões investidos na sua contratação e sobretudo o peso de uma missão que o vai manter na linha da frente muito depois de terminar a carreira.

O jogador que herdou a camisola 7 de Cristiano Ronaldo no Santiago Bernabéu assume a bandeira da luta contra a discriminação e o racismo e também por isso muitas vezes não é poupado pela legião de críticos que não lhe perdoa o facto de achar pouco ser multimilionário e concorrer ao título de melhor futebolista do planeta.

Antes de mais, este texto é sobre as batalhas que Vini conquistou perante os que comprovadamente relevaram preconceitos punidos por lei, com frequência mascarados num falso anonimato e numa hipócrita postura. Este texto não é (apenas) sobre Vini e Gianluca Prestianni, os dois únicos homens que podem responder perante a Verdade quando o episódio que incendiou o Benfica-Real Madrid ficar por fim desvendado.

Aqueles que sem provas querem de imediato riscar do mapa o jovem argentino não ficam muito a dever aos seres ignóbeis que insultam por causa da cor, da raça ou da religião. Na sociedade que baila com os valores da igualdade, da tolerância e da justiça, ninguém merece ficar privado da presunção de inocência.

Quem mentiu no estádio da Luz deve sofrer um castigo exemplar e a própria UEFA poderia aproveitar o caso para adensar o quadro punitivo e ir além dos meros jogos de suspensão, dos encontros à porta fechada, das multas pecuniárias e da sanção desportiva. O que aconteceu ultrapassa em larga escala os protagonistas, os clubes, a competição, inclusive rompe as fronteiras de Portugal e do Brasil, não se limita a dois irmãos e não se fica por dois continentes.

A única coisa que a UEFA não pode fazer é dizer que não foi capaz de encontrar provas e que o assunto termina aqui (numa suspensão preventiva de Prestianni), arrumado na pasta dos ficheiros por desvendar, como se feridas desta natureza, assim, ficassem curadas com o tempo. Caso a investigação declare resultados inconclusivos, talvez não reste outro caminho senão a eliminação pura e simples de Benfica e Real Madrid, seja qual for o desfecho do duelo de amanhã.

Está longe de ser a melhor solução, pode obrigar a repensar a regulamentação e a contemplar medidas radicais para desencorajar atos futuros forjados na representação (um atleta, por exemplo, estaria sujeito ao risco de ficar irradiado para sempre), mas será uma via a considerar para não se cair num vazio e deitar a perder tudo o que foi conquistado.

Esse legado não repousa no mapa das convicções pessoais de cada um, não pertence à disputa de quem é que acredita em quem. Aí Vinícius tem sido inspirador e revelado uma coragem inesgotável, em contraste com todos os que baixam a cabeça, têm a cobardia a correr no sangue e preferem fazer de conta que nada lhes diz respeito.

Não somos todos Vini. E não é nenhum segredo de Fátima que desde que se realizou o Benfica-Real Madrid em cada treinador de bancada passou também a estar tatuado um juiz e um infalível julgador.



SIC Noticias

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *