A reação surge um dia depois de a Comissão dos Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas ter ratificado um texto conjunto, que agregou projetos de voto da Iniciativa Liberal (IL) e do Partido Socialista (PS), a condenar uma incursão policial na Casa dos Direitos, na Guiné-Bissau, e a expulsão daquele espaço do embaixador da União Europeia, a 07 de fevereiro.
Num comunicado enviado hoje à Lusa, o órgão que substituiu o parlamento guineense, depois da tomada do poder pelos militares, em 26 de novembro de 2025, afirma que a soberania da Guiné-Bissau não está à venda e que o destino do país não se decide em Lisboa.
O CNT considera o que classifica de “ingerência” como um desvio de atenção dos problemas internos portugueses.
“Sugerimos que estes deputados se ocupem em resolver os problemas do povo irmão de Portugal que sofre com a crise da habitação e a degradação dos serviços públicos. Deixem a Guiné-Bissau em paz”, lê-se no comunicado.
Para os militares que governam a Guiné-Bissau, as reformas em curso, como a redução de mandatos e do sistema eleitoral, “são decisões soberanas de um povo livre que já não aceita protetorados nem conselhos de quem confunde o público com o privado”.
Os militares guineenses nomeiam a deputada portuguesa Elza Pais, que se tem manifestado contra a situação político-militar na Guiné-Bissau, a quem acusam de “moralismo de fachada” por aqueles que “hoje ataca” terem sido “até há bem pouco tempo seus parceiros de ocasião”.
O CNT refere que “não se vê o parlamento francês a perder o seu tempo em debates estéreis” sobre problemas internos de países como o Mali, Níger ou Burkina Faso, antigas colónias franceses.
“Porque em Paris conhecem e respeitam os limites da soberania nacional e o papel de uma assembleia estrangeira”, acrescenta.
Os militares guineenses acusam os deputados portugueses em causa de “falta de maturidade institucional” e de “complexo do educador colonial”, e referem ainda o “preconceito dos nomes”.
“É notório o desconforto visceral deste setor político em Lisboa sempre que a Guiné-Bissau afirma a sua identidade plena. Sentem-se confortáveis com os Domingos, Antónios ou Josés, mas tremem de insegurança com os Mamadu, Djalós, Embalós, Bacais, (…)”, concretiza o comunicado.
O CNT descreve como “expressão máxima de estupidez saloia acreditar que a confiança política depende da onomástica colonial”.
“A Guiné-Bissau é governada por guineenses, para guineenses, independentemente de quão ´não portugueses` os nossos nomes soem aos vossos ouvidos viciados no passado”, refere.
Os militares tomaram o poder na Guiné-Bissau a 26 de novembro de 2025, um dia antes da divulgação dos resultados oficiais das eleições gerais, presidenciais e legislativas, de 23 de novembro, em que o candidato da oposição, Fernando Dias, reclamou vitória sobre o Presidente cessante e candidato a um segundo mandato, Umaro Sissoco Embaló.
O país foi suspenso de todas as organizações internacionais de que era membro, nomeadamente da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e da União Africana.
A CEDEAO e a União Africana têm mediado o processo de transição na Guiné-Bissau, com novas eleições gerais marcadas para 06 de dezembro pelos militares, que já alteraram a lei dos partidos, a lei eleitoral e a Constituição do país, conferindo mais poderes ao Presidente da República.
A CPLP teve agendado o envio de uma missão de bons ofícios, que foi cancelada depois de troca de acusações ao mais alto nível entre a Guiné-Bissau e Timor-Leste, que assumiu a presidência da organização temporariamente.
Na Cimeira de chefes de Estado e do Governo, que decorreu em julho, em Bissau, com a passagem da presidência da CPLP para a Guiné-Bissau, Portugal não se fez representar, pela primeira vez, ao mais alto nível, nem pelo Presidente da República, nem pelo primeiro-ministro.
Menos de um mês depois, o Governo guineense expulsou a comunicação social portuguesa, com a suspensão das delegações da Lusa, RTP e RDP.
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