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Entre o algoritmo e a medicina é o doente quem perde


Histórias

Desinformação. Entre o consultório e o feed, a luta é desigual e exige que os profissionais de saúde sejam, também eles, influenciadores. Especialistas pedem cuidado com a promessa de curas fáceis no digital porque “o tempo em oncologia conta”

Marine Antunes, sobrevivente de leucemia, criou o projeto Cancro com Humor para ajudar outros a lidar com o peso da doença

Marine Antunes, sobrevivente de leucemia, criou o projeto Cancro com Humor para ajudar outros a lidar com o peso da doença

Todos os dias, 167 pessoas recebem um diagnóstico oncológico em Portugal, onde os cancros da mama, colorretal, próstata, pulmão ou pele constam entre os mais frequentes. Os dados mais recentes do Registo Oncológico Nacional mostram a dimensão, mas escondem os rostos, as histórias e os percursos de cada doente.

Uma dessas histórias é a de Marine Antunes, 36 anos, que aos 13 foi diagnosticada com Linfoma de Hodgkin e hoje usa o humor para falar de cancro nas redes sociais. Além de humor, o digital é, para muitos doentes, um espaço de procura de respostas, partilha e apoio. Foi isso que levou Cláudia Bernardo, enfermeira oncológica a quem foi diagnosticado um cancro da mama em janeiro de 2025, a criar a página “Cancro sem Filtros” no Instagram. “Senti muita necessidade de falar e de encontrar apoio para lá daquele que recebi da minha família e da minha equipa”, conta.

A página que Cláudia criou, em julho, foi o caminho que encontrou para partilhar as ansiedades e os medos de quem, ao fim de 13 anos a tratar doentes oncológicos, se viu pela primeira vez do outro lado. “As pessoas que estavam a passar pelo mesmo, quando sabiam que era enfermeira, perguntavam-me muitas coisas e percebi que precisavam de informação”, explica. Foi assim que aquela sala de apoio que criou no digital passou a ser um espaço de sensibilização e informação, credível e suportada em evidência científica, para doentes e cuidadores.

A desinformação, no entanto, continua a ser uma preocupação dos profissionais de saúde e especialistas em literacia. Se antes o “doutor Google” já motivava confusão nos doentes e tornava difícil separar o trigo do joio, a explosão das redes sociais e dos influenciadores trouxe a desinformação para a ponta dos dedos de qualquer pessoa, de forma constante e de fácil acesso.

“O risco é real” na internet

Paulo Cortes, coordenador de oncologia no Hospital Lusíadas Lisboa, confirma que “é cada vez mais frequente” encontrar doentes que chegam à consulta “com algum grau de influência do que viram nas redes sociais, desde dúvidas legítimas até convicções muito rígidas, assentes em conteúdo enganador”. Não há, sublinha, grande diferença geracional e o problema afeta pessoas de todas as idades — “o que varia é a fonte”, seja ela os grupos de WhatsApp, vídeos no YouTube, fóruns ou redes.

“O risco é real”, lembra o especialista, referindo-se à desconfiança ou abandono de tratamentos em consequência do que se leu ou ouviu no feed. “O tempo em oncologia conta. Um atraso de semanas ou meses pode significar a diferença entre um tratamento com intenção curativa e um tratamento apenas paliativo”, alerta. Há quem interrompa a terapêutica por medo causado pela desinformação, outros que optam por tratamentos alternativos sem eficácia comprovada ou aqueles que simplesmente atrasam o início da intervenção médica. “Felizmente, não é o quotidiano. Mas já vi situações que tiveram impacto clínico importante”, refere Paulo Cortes.

Para Marine Antunes, a ausência de responsabilização de quem partilha informação falsa ou enganadora sobre cancro nas redes sociais é difícil de compreender. “Assusta-me que estas pessoas tenham espaço e ninguém faz nada. O Instagram não derruba estas páginas”, afirma. A decisão de expor publicamente a sua história surgiu já em adulta, quando começou a escrever livros e a fazer palestras sobre cancro. “A ideia era descomplicar e chegar às pessoas através do humor… ser leve sem ser leviano”, explica. O projeto Cancro com Humor acabou por se tornar uma forma de “arrumar” esse período da sua vida, mas também um instrumento para ajudar outros a encarar a doença de outra forma.

“Nunca se falou tanto desta epidemia silenciosa como agora”, aponta Cristina Vaz de Almeida, referindo-se à desinformação. A presidente da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde (SPLS) lembra que hoje o tempo médio de atenção das pessoas é muito curto e que a informação é processada em segundos, o que torna mais fácil a propagação de informações falsas e perigosas. “O investimento tem de ser numa espécie de inoculação informativa, ou seja, permitir às pessoas que elas sejam informadas antes de entrarem no campo da desinformação”, defende. Isso significa dar melhores ferramentas à sociedade para distinguir entre informação e propaganda enganosa, mas também formar os profissionais de saúde, atuais e futuros, para a comunicação clara e verdadeira. “Cada um dos profissionais de saúde também tem de ser um influencer”, sublinha.

Paulo Cortes concorda que “combater mitos e desinformação faz parte do trabalho clínico”, assim como criar uma relação de confiança entre o médico e o doente para “responder às suas dúvidas”. Os oncologistas Ana Raimundo e Duarte Canelas são o exemplo de como é possível usar as redes sociais para transmitir informação credível e factual, de compreensão simples. Nesta equipa estão também dezenas de pessoas — como Marine Antunes e Cláudia Bernardo — que procuram esclarecer, sensibilizar e apoiar quem, como elas, atravessa situações em que o medo e a ansiedade tornam os doentes mais permeáveis às promessas de curas fáceis. “As pessoas, com medo, vão procurar respostas e agarram-se a tudo. Isto assusta”, remata Cláudia.



SIC Noticias

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