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Inseminação caseira. Sintoma de um SNS em lista de espera


Saúde e Bem-estar

Opinião

A recente reportagem da SIC sobre o chamado “submundo da fertilidade” em Portugal colocou a inseminação caseira no centro do debate público. A prática, cada vez mais frequente, representa elevados riscos para a mãe e para o bebé, mas também é um sintoma de um SNS com dificuldades em garantir acesso atempado aos cuidados de fertilidade. Artigo de opinião de Miguel Raimundo, ginecologista e obstetra especialista em fertilidade.

Inseminação caseira. Sintoma de um SNS em lista de espera

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Levantam-se então duas questões: Porque acontece? E o que precisa de mudar para que deixe de ser vista como alternativa?

No sistema público, o percurso de um casal com suspeita de infertilidade pode prolongar-se, em média, entre três a cinco anos até ao início efetivo de um tratamento com doação de gâmetas. Em muitos casos, são necessários cerca de nove meses até à primeira consulta, mais seis a nove meses para análises, exames e resultados, e, nos casos aplicáveis, seguidos de dois a três anos apenas para conseguir um dador.

Tempo é fertilidade

Muitos dos casais que procuram este tipo de acompanhamento já chegam muitas vezes com idades avançadas, pelo que esperar 3 a 5 anos pode significar perder a oportunidade de ter um filho biológico. É aqui que a desigualdade se torna evidente.

Quem tem capacidade financeira encontra soluções mais rápidas e seguras no setor privado. Quem não tem, enfrenta um dilema difícil: esperar anos e correr o risco de não conseguir engravidar, assumir os custos elevados do acompanhamento privado ou recorrer a alternativas mais criativas, como a inseminação caseira.

Esta última prática envolve riscos que não podem ser ignorados. Entre eles, a possível falsificação de análises com resultados negativos para doenças sexualmente transmissíveis por parte dos dadores, e consequentemente possíveis infeções para a mãe, bem como a falta de rastreio para doenças genéticas, danos nos órgãos genitais pelo uso de métodos de inseminação improvisados, para não falar dos elevados riscos de complicações durante a gravidez, entre muitos outros.

Estima-se que existam cerca de 300 mil casais com problemas de fertilidade em Portugal. Nem todos necessitam de recorrer a dador, mas aproximadamente 10% poderão vir a precisar. É aqui que surge um dos principais problemas: a disponibilidade de gâmetas a que o SNS tem acesso. Enquanto o sistema público depende sobretudo dos dadores que se dirigem diretamente aos seus centros, muitas clínicas privadas conseguem aceder a bancos internacionais certificados ou mesmo comprar gâmetas entre si, o que reduz significativamente os tempos de espera.

Os dadores existem. Mas preferem doar no setor privado, onde o processo é mais rápido, mais organizado e com maior qualidade percebida – acompanhado por um forte investimento em campanhas marketing. A compensação financeira para os dadores é semelhante entre setores; a diferença está na experiência e na facilidade do processo. Trata-se, portanto, de um problema organizacional e de acesso.

Se a prática da inseminação caseira é um sintoma de um SNS que não consegue dar resposta em tempo útil, com tempos de espera que podem ir até 5 anos, sendo a maior parte devido à disponibilidade de gâmetas, talvez seja necessário repensar a forma como o sistema público acede a estes recursos.

O reforço da cooperação com bancos de gâmetas certificados, nacionais ou internacionais, ou mecanismos de colaboração mais estruturada entre setores público e privado, poderão ser caminhos a considerar. Não se trata de substituir o SNS, mas de o capacitar para responder com maior rapidez e equidade.

Naturalmente, esta resposta requer investimento por parte do Estado. A escolha é clara: ou se investe na melhoria do acesso ao banco de gâmetas certificados e na redução efetiva dos tempos de espera, ou continuamos a pagar o preço associado aos riscos da inseminação caseira, como o tratamento de infeções sexualmente transmissíveis, acompanhamento de gravidez de risco, gestão de doenças genéticas evitáveis, entre muitos outros custos diretos e indiretos.

Se conhecemos os riscos e as causas de um sistema que falha em responder em tempo útil nos cuidados de saúde para a fertilidade, a decisão de não investir na melhoria do acesso é, em si, uma decisão que empurra os portugueses para soluções de risco para que consigam constituir família.

Artigo de opinião de Miguel Raimundo, ginecologista e obstetra especialista em fertilidade



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