“É um regresso a uma normalidade relativa. Há muitos problemas para resolver, nas ruas, nas infraestruturas públicas e nas telecomunicações, e a recuperação social e empresarial vai levar meses”, disse à agência Lusa o presidente da câmara, Bruno Gomes, acrescentando que os prejuízos em habitações, empresas e florestas podem rondar os 200 milhões de euros e a reconstrução completa poderá prolongar-se por mais de um ano.
À entrada da vila os danos causados pela tempestade impressionam. Centenas de árvores partidas ou dobradas, postes de eletricidade retorcidos e sinalética derrubada marcam as estradas.
Nas ruas, os moradores retomam o quotidiano, mas cada gesto revela a presença do desastre: cacos de telha no chão, telhados com lonas, desvios de trânsito, comércio e serviços tentando normalizar a atividade e muitos funcionários municipais munidos de pás, vassouras e motosserras.
No interior do concelho, na aldeia de Meneixas, Fátima Marques recorda as dificuldades das mais de três semanas sem eletricidade, especialmente por causa do aparelho de apneia do sono do marido.
“Foi muito complicado ver tudo a ser arrancado pelo vento. Sem luz não conseguíamos usar o aparelho dele, o que tornou as noites ainda mais assustadoras. A falta de eletricidade deixou marcas profundas em toda a família, sobretudo nas crianças”, explicou, lembrando os momentos de tensão e medo dentro de casa.
Em Sobreiras, Joaquim Henriques ainda queima restos de árvores levados pelo vento, recordando a noite em que o temporal foi tão forte que até um cão foi transportado pelo ar e foi parar à sua porta. “Foi assustador, nem consigo imaginar algo assim de novo”, disse, enquanto removia destroços do quintal.
Na Aldeia dos Gagos, onde vivem pouco mais de 20 pessoas, Fátima Simões mostra a casa ainda coberta com lonas, onde ela, o marido e o filho passaram semanas sem eletricidade e onde a tempestade arrancou todo o telhado.
“Foi para esquecer. Só pensávamos que íamos morrer dentro de casa, com o vento a arrastar tudo à nossa volta e sem forma de nos ligarmos a ninguém. Os primeiros dias foram de puro desespero, mas a solidariedade dos vizinhos e da câmara ajudou-nos a encontrar alguma segurança e esperança. Mas ainda hoje, quando o vento sopra, sentimos medo”, afirmou.
Patrícia Gomes, vereadora com pelouro da Ação Social e Políticas Humanas na Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere, aludiu ao grande número de pedidos de auxílio recebidos pela autarquia.
“Nós tivemos realmente muitas sinalizações, ultrapassam os 4 mil pedidos de ajuda. Alguns mais sérios, outros não tanto, felizmente. Mas há uma marca muito grande que ficou nas pessoas, especialmente psicologicamente. Hoje em dia, muitas pessoas, de várias idades, nos abordam a chorar. Não pelos estragos concretos, mas pelo que sofreram, pelo medo que tiveram, pelos dias que ficaram sem energia. Muitas crianças até ficam com receio, ouvem um vento ou alguma coisa e entram em pânico”, disse a autarca à agência Lusa.
As equipas de ação social “acompanham neste momento 379 famílias, um número que ainda cresce. O apoio é prolongado e abrange alimentação, reconstrução de habitações, candidaturas a apoios do Estado e também acompanhamento psicológico. Nesta última área sentimos limitações: os técnicos do município são insuficientes e pedimos ajuda à Ordem dos Psicólogos, porque as pessoas realmente precisam de apoio”, acrescentou.
A vereadora recordou casos concretos que a comoveram: “Vi pessoas que no primeiro dia pareciam bem, mas poucos dias depois estavam muito fragilizadas. Há medo do vento, medo do que aconteceu. Esta marca ficou nas pessoas de todas as idades, e isso ainda é mais preocupante”.
No centro da vila, a indústria é uma parte essencial da recuperação. Ferreira do Zêzere, conhecida como a Capital do Ovo, viu vários pavilhões industriais danificados, alguns com telhados arrancados e produção interrompida.
Bruno Gomes explicou que as empresas do setor, bem como fábricas de madeira, como a Casa Bang Wood, com 25 funcionários, foram fortemente afetadas, mas retomam a atividade gradualmente.
Manuel Gonçalves, proprietário da empresa, descreveu o impacto devastador: a fábrica destruída, máquinas danificadas e produção paralisada por dois a três meses, sem seguro para cobrir perdas que estimou em mais de meio milhão de euros e sem grandes expectativas de apoio externo.
No caminho da Aldeia dos Gagos, no meio de um pinhal, no dia em que a Lusa andou pelo concelho, um técnico da Visabeira trabalhava sozinho num carro de operações para restabelecer comunicações numa aldeia isolada.
Desde 30 de janeiro que coordena a reparação de cabos e postes e calcula entre 2.500 e 3.000 postes caídos ou partidos, num trabalho que poderá prolongar-se até ao final do ano.
A cada passo, a devastação revela-se: postes provisoriamente presos, fios soltos, linhas de energia e dados reconstruídas aos poucos.
Bruno Gomes reconheceu que a recuperação do território tem sido lenta e que a autarquia e muitos munícipes sentiram-se, nos primeiros dias, praticamente abandonados pelas autoridades e pelos responsáveis pelas infraestruturas críticas, perante a força da tempestade.
“O impacto foi brutal e, durante semanas, a sensação de isolamento e vulnerabilidade era enorme. Muitas pessoas não sabiam como iriam conseguir retomar a vida e nós sem capacidade para resolver questões como retoma de energia e de comunicações”, lembrou.
Para o autarca, esta experiência evidencia a “necessidade de reflexão sobre as vulnerabilidades do interior”, o planeamento de infraestruturas críticas e a urgência de maior capacidade de resposta nacional em situações extremas.
“Não podemos deixar que situações assim apanhem o interior desprevenido. A lição que fica é de que precisamos de estar mais bem preparados, com mais solidariedade e planeamento, para proteger quem aqui vive”, concluiu.
Pelo menos 18 pessoas morreram em Portugal entre janeiro e fevereiro na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo foram as mais afetadas.
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