“Na psicologia, a este tipo de lutos em que as pessoas estão fisicamente ausentes, mas, no fundo, psicologicamente presentes, chamamos de luto ambíguo. Precisamente para, de alguma forma, expor esta dificuldade que existe em equilibrar um processo de luto a par com um ciclo de manutenção de esperança que, muitas vezes, acontece nestes processos. Uma das grandes dificuldades que se prende com este tipo de lutos, eu diria, é a grande ausência da despedida”, explica à Lusa Sandra Torres.
A docente da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), responsável por várias unidades curriculares sobre luto, reflete sobre as 36 vítimas que não tiveram funeral, por não encontrarem os corpos, após a tragédia de 04 de março de 2001, em que morreram 59 pessoas quando o quarto pilar da ponte Hintze Ribeiro colapsou.
“Os funerais têm, muitas vezes, esta função. Mesmo que simbolicamente eles tenham sido realizados, não existe a possibilidade de as pessoas, de alguma forma, terem feito um processo de despedida que, na sua mente, só acontece quando o corpo, efetivamente, está presente. E, portanto, por muito que possa ter havido um reconhecimento público desta perda, esta despedida mais física nunca pode ser realizada por estas pessoas. E é isto que, de alguma forma, vai trazendo aqui esta situação de ambiguidade que impede, muitas vezes, a aceitação e a reorganização emocional que é exigido que aconteça num processo de luto”, explica.
Para uns, esta ambiguidade manifesta-se com “ruminação persistente” do processo, outros pela “procura mental contínua”, pelos “e se, e se”, uma ‘dor’ que vem de equilibrar esperança e racionalidade, uma dor expressiva que pode levar a “outras emoções que são muitas vezes fortes, intensas e difíceis, em que as mais predominantes costumam ser a culpa e/ou a raiva”.
“Do ponto de vista da raiva, muitas vezes pode ser direcionada para outros. Quando olhamos para a culpa, olhamos mais por uma dimensão interna, quando olhamos para a raiva olhamos, muitas vezes, por uma direção externa, e aqui ela pode ser dirigida para as responsabilidades políticas e administrativas que houve, na manutenção das infraestruturas, ou até o facto de as autoridades não terem feito tudo o que podiam para encontrar os corpos…”, exemplifica, como “possíveis pensamentos” associados.
A consequência acaba por ser “dificultar todo um processo de ajustamento”, o que por sua vez faz com que o “luto se mantenha muito intenso ao longo dos anos”, com o peso da sociedade que pode fazer as pessoas sentirem-se “isoladas e incompreendidas”, por esperarem que as pessoas sigam em frente.
“Ao dificultar todo um processo de ajustamento, o luto vai se mantendo muito intenso ao longo dos anos. (…) E muitas vezes há aqui alguns processos que podem não ser conscientes, como até perante a sociedade: ‘se eu fizer este processo de luto, eu vou estar a dizer que de alguma forma eu aceitei isto, eu resignei-me, e no fundo o que eu quero é manter a pessoa viva'”, acrescenta a especialista.
Sendo um luto um processo “profundamente individual”, as reações de cada pessoa “podem ser muito diversas”, e numa circunstâncias como a tragédia em Entre-os-Rios, “com todo este mediatismo envolvido”, há pessoas para quem a lembrança chama à memória feridas antigas, mas para outros um sinal de homenagem, “uma forma de manter vivas as pessoas que se perderam”.
“Manter a ligação com a pessoa que se perdeu hoje é visto como um processo adaptativo e isto pode manifestar-se seja na valorização das memórias, seja em conversar com as pessoas em pensamento, sejam vivências que honrem o seu legado e portanto estes laços podem proporcionar conforto e significado, mesmo que em muitas circunstâncias isto signifique voltar a lembrar e reviver a dor da perda que aconteceu há 25 anos”, aponta.
Este ajustamento a uma nova vida, mesmo mais de duas décadas depois, tem de ser compreendido como uma reconstrução “do significado e da relação com a pessoa que se perdeu”.
“Nós dizemos muitas vezes que as pessoas não abandonam o passado, mudam a sua relação com ele, é isto que se pretende num processo de luto. Mas muitas vezes as pessoas é isto que sentem: ‘se eu não mostrar que continuo a sofrer, se eu não mostrar que continuo a privar-me de tudo o que é alegre, eu não tenho forma de mostrar aos outros que esta pessoa continua a ser muito importante para mim'”, afirma Sandra Torres.
O suporte social, sobretudo numa perda “violenta e traumática, claramente inesperada”, ganha papel de grande relevância nestes processos, bem como a compreensão de que a diversidade é a pedra de toque para se quebrar um “mito que se cria na sociedade: o luto não é um processo linear”, e não é regra que se torne mais fácil com o passar dos anos.
“O que é importante é que esses momentos orientados e centrados na perda também tenham alternância com momentos em que as pessoas comecem a assumir tarefas, muitas vezes que a pessoa que desapareceu fazia, que se ajustem a novos papéis sociais e rotinas, que consigam ir resolvendo questões práticas do dia-a-dia e que até vão de alguma forma reavaliando a sua própria identidade e o seu próprio sentido de vida. E é nesta alternância e entre estes momentos que as pessoas vão avançando”, aconselha Sandra Torres.
“O luto é simplesmente amor que não tem lugar para ir”, completa.
