Agronegócio

Quando produzir amêndoa é sobretudo aprender


Num território onde a cultura da amendoeira ainda está a ganhar forma, produzir é um exercício feito de tentativas, ajustes e tempo. Em Alvito, a experiência da Rota Única mostra como, num setor jovem e sem conhecimento geracional acumulado, cada campanha acrescenta informação, corrige expectativas e ajuda a desenhar, pouco a pouco, o caminho da amêndoa em Portugal.

A Rota Única, com exploração localizada em Alvito, é um dos projetos que melhor traduz a curva de aprendizagem associada à implantação da cultura da amendoeira em Portugal. Num setor ainda recente no país, a última campanha decorreu num contexto exigente, em que fatores climáticos, técnicos e estruturais voltaram a pesar nos resultados e a sublinhar os desafios de consolidação da fileira.

Esse contexto tornou-se particularmente evidente logo no início do ano agrícola. David Doll, que está à frente da empresa, explica que a campanha arrancou com precipitação excessiva, um fator especialmente penalizador para algumas das variedades instaladas. “Tivemos muita chuva no início do ano, durante muitos dias, e isso cria muitos problemas, sobretudo em variedades de casca mole”, refere, apontando o aparecimento de doenças como a antracnose e outros problemas fitossanitários associados à humidade elevada durante a floração.

A mesma leitura é partilhada por Pedro Vieira, o responsável técnico da Rota Única, que confirma que, apesar de uma floração globalmente positiva, o excesso de chuva e os períodos prolongados de solo saturado acabaram por comprometer o desenvolvimento das árvores. “Passámos muito tempo com o terreno encharcado, o que acaba por afetar a cultura”, explica, sublinhando que, no final, a campanha não permitiu atingir os objetivos inicialmente traçados.

As limitações impostas pelas condições climáticas refletiram-se também nos resultados produtivos. David Doll refere que, considerando a diversidade de idades das árvores e as diferentes variedades existentes nos pomares, o rendimento médio se situou em cerca de uma tonelada por hectare, contabilizada em amêndoa em casca, um valor que espelha simultaneamente o potencial da exploração e os constrangimentos do ano agrícola.

Ainda assim, do ponto de vista operacional, houve um aspeto que se destacou pela positiva. David Doll sublinha que foi possível concluir a colheita até ao final de setembro, algo pouco habitual, tendo em conta que este é normalmente um mês marcado por episódios de chuva que dificultam o trabalho no terreno. Pedro Vieira reforça essa leitura, lembrando que setembro é, por regra, um período crítico. “Normalmente temos duas tempestades fortes, com 20 a 50 litros de chuva, mas este ano foi diferente”, refere, explicando que a precipitação foi reduzida e concentrada no início do mês, o que permitiu um ritmo de trabalho mais contínuo e o fecho antecipado da campanha.

A experiência acumulada ao longo das campanhas tem conduzido a uma reflexão mais profunda sobre as opções técnicas do projeto, começando pela questão varietal. Com experiência anterior na produção de amêndoa nos Estados Unidos, David Doll explica que trouxe para Portugal conhecimento adquirido na Califórnia, sublinhando, no entanto, que o projeto tem sido sobretudo um exercício de adaptação desse saber a uma realidade climática e produtiva distinta. A Rota Única trabalha maioritariamente com variedades californianas de casca mole, mantendo também áreas com variedades ibéricas, de casca dura, mais adaptadas ao contexto mediterrânico. “Não se trata de uma guerra entre variedades americanas e mediterrânicas”, afirma, explicando que a intenção passa por “usar todas as variedades disponíveis e encontrar aquelas que melhor funcionam nas condições portuguesas”, declara o mentor do projeto.

Essa adaptação tem-se revelado mais complexa do que inicialmente previsto. Segundo David Doll, fatores como invernos mais quentes, padrões de precipitação irregulares e maior pressão de doenças obrigam a uma aprendizagem constante e a sucessivos ajustamentos. Assim, perante este cenário, a estratégia passa por identificar materiais vegetais mais resistentes e melhor adaptados à realidade nacional, num processo que exige tempo, ensaio e acumulação de conhecimento no terreno.

Do ponto de vista técnico, essa aprendizagem reflete-se também na gestão da água e da fertilização, áreas que assumem um papel determinante na exploração. Pedro Vieira explica que a Rota Única trabalha com regimes de rega deficitária controlada, aplicando cerca de 50% a 60% da evapotranspiração total, de forma a equilibrar consumo e produção, num contexto em que a água não é abundante. “Sabemos o que cada hectare consome e o que é necessário repor”, afirma, sublinhando que, ainda assim, a exploração está a trabalhar abaixo do seu potencial produtivo devido a limitações no acesso ao recurso.

A campanha trouxe também desafios relevantes na fase pós-colheita, nomeadamente ao nível da secagem. David Doll explica que a opção pela secagem natural ao sol tem sido essencial para garantir a viabilidade económica da produção. “No ano passado, o custo da secagem mecânica com gás natural foi equivalente ao valor obtido com a venda da amêndoa”, afirma, considerando este cenário insustentável, secundado por Pedro Vieira, que acrescenta que o custo energético se tornou um dos principais fatores de pressão sobre a rentabilidade, sobretudo num contexto europeu marcado por preços elevados da energia.

Apesar das dificuldades acumuladas, David Doll faz um balanço positivo da evolução do projeto ao longo dos últimos anos. “Os últimos dois ou três anos foram difíceis, mas tornámo-nos mais eficientes”, afirma, explicando que a empresa ganhou maturidade ao nível da gestão, das operações e da organização interna. “Uma empresa agrícola precisa de tempo para estabilizar”, acrescenta.

Essa maturação esbarra, contudo, num desafio estrutural que atravessa todo o setor: os recursos humanos. David Doll sublinha que a produção de amêndoa é uma indústria nova em Portugal e que não existe ainda conhecimento geracional acumulado. “Na Califórnia há agricultores de várias gerações. Aqui estamos a construir isso do zero”, afirma. Ainda assim, destaca a capacidade e a vontade de aprender da mão de obra portuguesa, embora reconheça a ausência de quadros intermédios e a persistente desvalorização social das profissões agrícolas.

Para o responsável pelo projeto, a agricultura tem tido um impacto económico e social relevante nas regiões onde se instala. David Doll sublinha que projetos como a Rota Única criam emprego, atraem jovens para o interior e injetam investimento significativo nas economias locais, um contributo que, na sua opinião, nem sempre é devidamente reconhecido no debate público.

É também nesse enquadramento que surge a reflexão sobre as políticas agrícolas. David Doll defende que o apoio do Estado e da União Europeia deveria privilegiar mecanismos estruturais, em vez de subsídios diretos. “O dinheiro público devia ser usado em infraestruturas, apoio técnico e instrumentos financeiros que compreendam os ciclos de preços”, afirma, alertando para a instabilidade das políticas e para a necessidade de programas permanentes e previsíveis.

A ausência de seguros agrícolas acessíveis é outro ponto crítico. Segundo David Doll, o custo do seguro pode atingir 2% a 3% do valor da colheita, tornando-se incomportável para muitos produtores. “Quando há 60 dias seguidos de chuva ou geadas inesperadas, deviam existir mecanismos que amparassem os agricultores”, defende.

Também a burocracia é apontada como um entrave adicional ao desenvolvimento das explorações. “É extremamente difícil obter autorizações para coisas básicas, como restaurar edifícios ou ligar eletricidade”, afirma, considerando que pequenos ajustamentos administrativos fariam uma grande diferença na eficiência do setor. David Doll defende ainda uma abordagem equilibrada às políticas sobre fertilizantes e pesticidas, alertando para o risco crescente de novas pragas e doenças num contexto de alterações climáticas.

O futuro da amêndoa em Portugal é encarado com cautela, mas também com otimismo. David Doll acredita que o setor atravessa uma fase de aprendizagem acelerada e que a próxima etapa passará por encontrar variedades mais adaptadas ao território e por melhorar a eficiência técnica e ambiental das explorações. Aos produtores que ponderam investir na cultura, deixa um conselho simples: aprender continuamente, observar, fazer perguntas e não assumir que um diploma é mais importante do que a curiosidade e a experiência no terreno.

Também Pedro Vieira partilha dessa visão e sublinha que a agricultura atual é cada vez mais uma atividade baseada em dados, tecnologia e conhecimento científico. “Hoje tomamos decisões com base em medições e informação”, afirma, manifestando preocupação com a redução do número de jovens a optar por formações na área agrícola. Para o responsável técnico da Rota Única, agricultura, tecnologia e alimentação estão hoje profundamente interligadas, num momento em que o setor enfrenta desafios decisivos, mas também oportunidades claras de fazer diferente e melhor.

 



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