Empresas tecnológicas e o setor do agronegócio industrial estão a “brincar com o sistema alimentar” ao recorrerem à inteligência artificial (IA) e algoritmos que podem condicionar as decisões dos agricultores sobre o que é cultivado e, em última análise, sobre o que o mundo come, alertam especialistas em segurança alimentar.
O aviso surge num relatório do think tank Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis (IPES-Food), segundo o qual empresas como a Google, Microsoft, Amazon e Alibaba trabalham com grupos do agronegócio para influenciar que culturas são produzidas e de que forma.
 
Os autores do documento descrevem uma dinâmica “de cima para baixo” na agricultura, em que grandes empresas passam a ditar orientações sobre o que plantar, privilegiando frequentemente as culturas mais produtivas e lucrativas.
“As empresas estão a brincar com o sistema alimentar, e não podemos permitir que isso aconteça”, afirmou Pat Mooney, autor canadiano e especialista em agricultura que contribuiu para o relatório.
 
O especialista sustenta que estas empresas tendem a concentrar-se num conjunto reduzido de culturas, como milho, arroz, trigo, soja e batata, o que pode reduzir a diversidade agrícola.
Na leitura do responsável, os agricultores correm o risco de ficarem presos a um modelo globalizado em que, em vez de continuarem a produzir culturas adaptadas localmente e transmitidas ao longo de gerações, são pressionados a comprar sementes industriais “empacotadas” com máquinas e produtos químicos (como fertilizantes e pesticidas) provenientes de outras regiões do mundo.
 
Pat Mooney sublinhou ainda que o sistema alimentar global já provou ser vulnerável a choques, como a crise climática ou a guerra na Ucrânia.
“Quanto mais globalizado o sistema, mais difícil é garantir que ele realmente funcione, e a segurança alimentar é algo que precisa ser o mais local possível”, defendeu.
 
O relatório descreve como empresas tecnológicas alimentam modelos de IA e algoritmos com dados recolhidos junto de agricultores e através de ferramentas como sensores, satélites e drones, capazes de monitorizar condições meteorológicas e indicadores de saúde do solo. Com base nesses dados, as plataformas geram recomendações sobre o que plantar, por exemplo, sugerindo que determinada semente é adequada à humidade do solo numa região específica.
O especialista, porém, deixou o alerta de que estas recomendações tenderão a favorecer as culturas nas quais as empresas têm interesse comercial e que podem empurrar os agricultores para a compra de sementes, equipamentos e meios de produção como fertilizantes.
O documento também alertou que estas ferramentas digitais são frequentemente apresentadas como “inovadoras”, o que facilita a atração de decisores políticos e investidores. Assim, mesmo quando os agricultores hesitam em seguir as recomendações, estas soluções podem acabar promovidas pelos governos como o caminho “inevitável” para o futuro da agricultura.
O mercado de ferramentas digitais aplicadas à agricultura movimentou 30 mil milhões de dólares no último ano e poderá atingir 84 mil milhões de dólares até 2034, segundo a empresa Fortune Business Insights. O relatório refere ainda que o Banco Mundial financiou 1,15 mil milhões de dólares em empréstimos para projetos de agricultura digital e que a União Europeia (UE) investiu 200 milhões de euros em investigação nesta área.
Segundo Lim Li Ching, copresidente do IPES-Food, a “agricultura por algoritmo” não corresponde ao que muitos agricultores querem e defendeu uma abordagem “de baixo para cima”, centrada no conhecimento local e nas necessidades reais das comunidades rurais.
“A inovação que realmente funciona para as pessoas precisa de estar fundamentada nas suas realidades… de forma a atuarem como guardiãs e gestoras da biodiversidade agrícola”, afirmou o copresidente do IPES-Food. E continua: “precisamos de inovações que apoiem genuinamente a sustentabilidade, que empoderem os agricultores, que sejam geridas localmente e que possam fortalecer as práticas agroecológicas, em vez de consolidar ainda mais a agricultura industrial, as monoculturas ou uma agricultura fortemente dependente de produtos químicos”.
