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A neuroplasticidade – a extraordinária capacidade do cérebro de se reorganizar e criar novas ligações ao longo da vida – mostra que mudar não é apenas uma ideia motivacional, mas um processo biológico real. Neste artigo, a médica psiquiatra Maria Moreno explica como pensamentos, emoções e hábitos vão esculpindo os circuitos do cérebro e porque é que, apesar das diferenças de contexto e de partida, todos temos margem para transformar os nossos próprios “trilhos” mentais.
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O cérebro é um super-herói silencioso, daqueles que receberam um dom incrível. A capacidade de se reinventar. Enquanto lê estas linhas, milhões de ligações estão a fortalecer-se e outras a desaparecer – em silêncio. Chamamos a isto neuroplasticidade – a capacidade extraordinária do cérebro de se reinventar ao longo da vida.
Imaginemos um campo cheio de neve acabada de cair. Está frio. O primeiro passo custa. Os nossos pés afundam. Hesitamos. Mas quando repetimos o caminho, surge um trilho. Depois um carreiro. Até que, sem percebermos, passamos sempre pelo mesmo sítio.
E lá fora continua a nevar a semana inteira. Se não mantivermos as nossas caminhadas diárias, vai na volta e o trilho desapareceu. Por falta de uso.
O cérebro funciona assim.
Cada pensamento repetido, cada emoção cultivada, cada hábito treinado grava um percurso neural. Não é motivação. É biologia.
Na infância, o cérebro constrói cidades inteiras de conexões. Na adolescência, faz uma grande remodelação: elimina o que não usa e reforça o essencial.
Mas a cidade nunca está verdadeiramente acabada. Aqui e ali surgem pequenas obras que mantêm tudo em movimento. Em adulto, mudar continua possível – apenas exige mais intenção, mais repetição e mais tempo.
Durante o processo de reabilitação após um AVC ou ao longo de uma psicoterapia para um problema de ansiedade, é esta plasticidade que permite criar desvios quando a estrada principal falha. Não é um mero milagre. É por tudo isto que aprender custa antes de se tornar automático. E também é por isto que mudar e recuperar é possível – mas não instantâneo.
No final, nenhum cérebro cresce no vazio. Toda a gente tem esta capacidade mas nem todos têm o mesmo ponto de partida. Alguns começam em terreno firme, outros avançam contra o vento. Uns têm botas de neve, outros sandálias. Não é uma questão de “uns podem, outros não”. É uma questão de existirem fatores biológicos e ambientais que tornam este caminho mais fácil ou mais difícil.
Somos todos diferentes e as nossas experiências emocionais, o nosso contexto, a nossa saúde física e mental moldam a forma como aprendemos e mudamos. Um cérebro privado de sono ou mal irrigado porque existe uma doença cardiovascular consolida pior as aprendizagens, por exemplo.
Todos temos neuroplasticidade. O cérebro muda sempre. A pergunta não é se. É para onde.
Uma frase que ouço frequentemente na consulta: “Eu sei que isto não faz sentido, mas não consigo parar.” Na prática, muitas vezes não é falta de força de vontade. Muitas vezes, estamos apenas a treinar os circuitos errados.
Porque o cérebro aprende tudo – inclusive aquilo que nos limita. E talvez crescer seja isto: escolher, dia após dia, que trilhos queremos tornar inevitáveis.
A frase “tu controlas quem és” é inspiradora – mas simplifica demais. Prefiro: “Tu não controlas tudo mas influencias muito mais do que imaginas.”. E, dito isto, abandonar definitivamente o rótulo: “sou assim, não há nada a fazer”.
