Agronegócio

Casa Prudêncio estreia-se na noz com balanço positivo


A expansão da noz em Portugal continua a atrair novos projetos agrícolas. Na Casa Prudêncio, em Almeirim, a primeira campanha do pomar de nogueiras instalado em 2021 terminou com um balanço positivo, superando as expectativas iniciais. A experiência revelou potencial produtivo, mas também expôs limitações logísticas e a necessidade de prudência numa fileira ainda em consolidação.

A aposta da Casa Prudêncio nos frutos secos é recente e nasce da necessidade de diversificar a atividade agrícola. O pomar de nogueiras foi instalado em 2021, em Almeirim, numa altura em que a empresa procurava culturas menos intensivas em mão de obra do que os pequenos frutos, área onde tradicionalmente se concentrava. A decisão não foi tomada de ânimo leve. “Foi uma decisão ponderada, mas sabíamos que estávamos a entrar numa cultura nova para a empresa”, explica Cláudia Andrade Serrano, responsável pelo projeto, sublinhando que a nogueira representava uma mudança significativa face ao histórico produtivo da exploração.

A campanha agora concluída foi a primeira colheita do pomar e acabou por correr melhor do que o esperado. “Excedeu as nossas expectativas”, afirma, explicando, no entanto, que as previsões iniciais tinham sido conservadoras e que a produção acabou por ser superior ao valor antecipado. A variedade escolhida foi a Chandler, apesar das dúvidas iniciais quanto à adaptação às horas de frio da região, mas apesar de saber “que estávamos no limite, mas decidimos avançar”, refere a responsável, acrescentando que, para já, a adaptação foi positiva, tanto em termos de produção como de qualidade e calibre.

O pomar tem 12 hectares e está localizado numa zona onde a noz não era uma cultura tradicional, embora nos últimos anos tenham surgido novos investimentos no Ribatejo. Ainda assim, a condução agrícola não trouxe surpresas relevantes, já que “em termos de rega, fertilização e tratamentos, não foi muito diferente de outras culturas que já trabalhamos”, explica Cláudia Andrade Serrano, sublinhando que o acompanhamento técnico e a utilização de sondas permitiram manter o controlo desde o início e ajustar as decisões à evolução do pomar.

Os principais desafios surgiram na fase da colheita e do pós-colheita, áreas para as quais a empresa não dispunha ainda de estrutura própria. “Não tínhamos capacidade instalada para essa fase”, reconhece, explicando que a solução inicial passava por recorrer a uma unidade industrial próxima, mas a capacidade revelou-se insuficiente. “Acabámos por ter de enviar parte da produção para a Nogam, em Évora, para lavagem e secagem”, diz, apontando esta etapa como um dos pontos mais frágeis da fileira, sobretudo para produtores de menor dimensão que não têm escala para investir em unidades próprias.

Apesar desses constrangimentos, o balanço da campanha foi positivo, também porque conseguiram colher toda a produção antes do início da chuva. “Tivemos sorte”, afirma, consciente de que este fator penalizou fortemente outros produtores de noz e amêndoa este ano. A experiência reforçou, no entanto, a perceção de que a logística do pós-colheita terá de ser mais bem planeada no futuro. “É uma questão que vamos ter de resolver”, admite.

Para já, não estão tomadas decisões quanto à expansão da área de pomar. A prioridade passa por acompanhar a entrada deste em velocidade de cruzeiro e perceber a produtividade real ao longo de várias campanhas. “Queremos primeiro perceber como a plantação se comporta”, explica, lembrando que a questão das horas de frio continua a pesar na avaliação. “A Chandler está no limite para esta região e, com a redução das horas de frio nos últimos anos, temos de ser prudentes”, acrescenta, afastando decisões precipitadas.

Já em termos de mão de obra, a primeira campanha foi assegurada com recursos internos, mas a responsável reconhece que o aumento da produção colocará novos desafios. “Com mais produção, vamos precisar de mais pessoas”, afirma, sublinhando que a disponibilidade de mão de obra continua a ser uma incógnita transversal à agricultura.

Também a sustentabilidade faz parte do modelo produtivo da Casa Prudêncio, que trabalha com certificações como GlobalGAP e GRASP, aposta na utilização eficiente da água e na monitorização da rega através de sondas. A aplicação de fitofármacos é feita de forma criteriosa. “Só tratamos quando é necessário”, refere. Sobre a eventual autorização da aplicação de fitofármacos por drones, Cláudia Andrade Serrano considera que se trata de uma ferramenta relevante para a agricultura, nomeadamente pela eficiência que pode trazer às operações. No caso da noz, admite, no entanto, que existam desafios específicos associados à dimensão das árvores. “Com árvores desta dimensão, ainda temos dúvidas sobre a eficácia”, afirma, referindo que a aplicação terá de ser avaliada em função das características da cultura.

E, para quem pondera entrar hoje na cultura da noz, o conselho é cautela. “É preciso fazer bem as contas e não entrar de ânimo leve”, afirma Cláudia Andrade Serrano. A responsável sublinha que a decisão exige uma análise cuidada da variedade a instalar e da sua adaptação à região, incluindo a disponibilidade de horas de frio, bem como da logística necessária para a colheita e o pós-colheita, que nem sempre está assegurada localmente. O escoamento da produção é outro fator determinante, sobretudo para produtores sem escala ou estrutura própria. Neste contexto, a ligação a associações como a Portugal Nuts é vista como uma mais-valia. “É importante trocar informação e perceber o que está a acontecer no setor”, conclui.



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