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Hoje no Jornal da Noite
A Galp registou lucros recorde de 1,15 mil milhões de euros em 2025, um aumento de 20% face ao ano anterior. Será que este montante poderia ser distribuído por todos os trabalhadores, como alega o secretário-geral do PCP Paulo Raimundo? A SIC Verifica. Este e muitos outros fact-checks, a não perder, hoje no Jornal da Noite.
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Após a declaração, o partido insistiu na ideia através de um tweet, publicado no mesmo dia, que chama a atenção – em maiúsculas – para os “lucros recorde em 2025” da Galp. E são feitas as contas:
“3,15 milhões por dia, 131 mil por hora. Permitiria aumentar o salário em 12.000€ a todos os trabalhadores da Galp“, garante-se.
A publicação passa depois a questionar se “ainda se atrevem a dizer que não há dinheiro para aumentar salários acima da inflação”.
Será que o dinheiro pode ser distribuído desta forma?
A Galp registou, de facto, um resultado líquido recorde de 1,15 mil milhões de euros em 2025, um aumento de 20% face ao ano anterior (em que se registaram 961 milhões), segundo anunciou a empresa. Deste resultado, mais de 80% teve origem nas atividades internacionais e mais de metade foi gerado no Brasil. Além disso, este é o resultado líquido já depois de juros e impostos, ou seja, é o resultado final para os acionistas.
Já quanto ao universo de trabalhadores, de acordo com o Relatório Integrado de Gestão da Galp de 2024 (dados mais recentes disponíveis), a “31 de dezembro de 2024 a Galp tinha 7.086 colaboradores“.
Se dividíssemos os 1,15 mil milhões de euros pelos 7.086 trabalhadores, estaríamos a falar de cerca de 162 mil euros anuais. Pagos em doze meses (sem subsídios), seriam 13.500 euros por mês, mas com subsídios de Natal e férias, estaria em cima da mesa um valor de 11.500 euros, próximos dos 12 mil euros referidos pelo PCP.
O problema está no facto de aqui não estar traduzido o custo real que a empresa teria.
“Quando se faz um pagamento de remunerações, há um custo com contribuições para a Segurança Social do lado da entidade empregadora“, lembra Luís Leon, especialista em fiscalidade e cofundador da consultora Ilya.
Leon explica que não se pode “simplesmente pegar num valor, ainda que admitíssemos que fosse um lucro real, efetivo, dinheiro em caixa, para distribuir a todas as pessoas e depois dizer: ‘já agora, em cima disso ainda tenho de gastar mais 20 e tal por cento” em impostos.
“Esse dinheiro [para remunerações] tem de estar dentro do custo total e, por isso mesmo, matematicamente não dava, não chega“. acrescenta.
Para o fiscalista, esta consideração em relação aos lucros da empresa ignora ainda – além da carga fiscal – outro ponto importante: “o lucro é uma remuneração de risco”.
“O lucro de uma organização – e é bom que as organizações tenham lucro – é a remuneração do acionista. Qualquer pessoa pode receber esses lucros. Basta ir ao mercado e comprar ações da empresa. (…) Os lucros estão associados ao risco de investimento. E quem quer participar no lucro, participa no risco“, detalha.
O que quer isto dizer?
Imagine que tem um café e investe o seu dinheiro na compra do espaço e dos equipamentos. Com o passar do tempo pode ter também quem invista no seu café. Quando há lucro, este montante irá reverter para si e para quem invista no seu negócio. Mas quando há risco, também perderá de igual forma. Ao distribuir o lucro total pelos trabalhadores, que não investiram dinheiro no espaço, estes ganham com o lucro da empresa, mas não contribuem quando há prejuízo.
O mesmo acontece com um negócio como o da Galp, como exemplifica o fiscalista: “Se houver um incêndio numa refinaria, são os trabalhadores que vão ter de pedir financiamento para pagar a refinaria?“
Em suma, a empresa quando tem lucros não pode distribuir tudo pelos trabalhadores, ignorando tudo o resto, como explica Luís Leon.
“Há uma parte que, sim, é distribuída aos trabalhadores, uma parte em remuneração fixa, uma parte em remuneração de desempenho. E depois há uma parte que tem de ser para remunerar os investidores, que é quem corre o risco.“
A SIC questionou o PCP sobre as contas feitas e sobre as mesmas não terem em conta o custo real para a empresa. Em resposta, o partido justificou que “o Secretário-Geral do PCP fez uma ilustração da dimensão dos lucros da Galp e do que significaria se estes fossem distribuídos pelos seus trabalhadores em vez de distribuídos em dividendos ao restrito conjunto dos seus acionistas”.
“Sendo uma imagem visando traduzir a dimensão dos lucros da empresa e não uma proposta política, a consideração dos elementos referidos não é relevante”, conclui o partido.
A SIC Verifica que é…
O secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, afirmou que os lucro recorde da Galp de 1,15 mil milhões de euros em 2025 permitiria aumentar todos os salários dos trabalhadores em 12 mil euros mensais. Uma análise às contas feitas pelo secretário-geral comunista mostra que matematicamente o valor aproxima-se do calculado, mas ignora custos fiscais como contribuições para a Segurança Social e o lucro como remuneração de risco dos acionistas. O PCP justifica que se tratava de uma “ilustração da dimensão dos lucros da Galp”, pelo que “a consideração dos elementos referidos não é relevante”.
