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O alegado caso de racismo no Estádio da Luz é apenas mais um caso de uma realidade que se tem repetido ao longo dos anos. Em Portugal e um pouco por todo o mundo, multiplicam-se os episódios semelhantes, num fenómeno persistente que continua a desafiar autoridades, clubes e organismos que tutelam o futebol.
Alex Caparros
Na noite europeia no Estádio da Luz desta terça-feira, o árbitro francês François Letexier viu-se obrigado a acionar o protocolo antirracismo da UEFA, interrompendo o encontro durante cerca de dez minutos.
A partida só seria retomada depois de Vinícius Júnior regressar ao relvado, alegando ter sido alvo de ofensas racistas por parte do jovem argentino das ‘águias’.
O internacional brasileiro Vinícius Júnior durante a partida entre o Benfica e o Real Madrid, no Estádio da Luz.
Rodrigo Antunes
O episódio reacendeu um debate antigo: apesar das campanhas, das multas e dos discursos institucionais, os casos repetem-se.
O Caso Marega
Em Portugal, um dos episódios mais marcantes ocorreu a 16 de Fevereiro de 2020. Moussa Marega, então avançado do FC Porto, decidiu abandonar o relvado do Estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães, após ouvir alegados sons racistas vindos das bancadas.
Marega abandona o relvado do Estádio D. Afonso Henriques, no dia 16 de janeiro de 2020
STR
Entre imitações de macacos e insultos, o maliano saiu de campo visivelmente indignado, num gesto que correu mundo e expôs o problema nas competições nacionais.
Hulk e os ecos da Luz
Anos antes, em 2009, Hulk terá sido alvo de insultos racistas no Estádio da Luz, quando representava o FC Porto.
Hulk ao serviço do FC Porto, clube que representou entre 2009 e 2012.
Barrington Coombs – EMPICS
O internacional brasileiro recordaria mais tarde um golo apontado nesse palco como resposta simbólica aos adeptos: um remate depois de uma incursão da direita para o meio que, nas suas palavras, “calou” parte das bancadas.
Também em 2012, Mario Balotelli, na altura ao serviço do Manchester City, denunciou cânticos racistas durante um jogo da Liga Europa frente ao FC Porto.
Mario Balotelli durante o encontro entre o FC Porto e o Manchester City, no Estádio do Dragão, em 2012,
Alex Livesey
O clube azul e branco alegou que os adeptos apenas entoavam o nome de Hulk repetidamente, mas a UEFA acabaria por aplicar uma multa de 20 mil euros por “conduta racista” dos adeptos portistas.
Campanhas, multas e polémicas
A luta contra o racismo conheceu momentos mediáticos, como em 2014, quando Neymar lançou a campanha #SomosTodosMacacos, após Daniel Alves ter sido atingido por uma banana num jogo em Espanha.
Campanha #somostodosmacacos criada por Neymar Júnior.
Redes Sociais Neymar Jr.
A iniciativa pretendia transformar o insulto num símbolo de união, ainda que tenha gerado debate sobre a eficácia da abordagem.
Em 2017, o Rio Ave foi multado por cânticos racistas dirigidos a Renato Sanches, que na altura representava o Benfica. O clube de Vila do Conde foi condenado pelo Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol ao pagamento de uma multa de 536 euros.
A brincadeira que custou caro
Em novembro de 2029, em Inglaterra, Bernardo Silva foi suspenso e multado na sequência de um tweet em que comparava, em tom de brincadeira, uma fotografia de infância de Benjamin Mendy à mascote dos chocolates Conguitos. A Federação Inglesa considerou a publicação ofensiva.
Tweet de Bernardo Silva
Twitter Bernardo Silva
Nesse mesmo mês, o presidente do Brescia, Massimo Cellino, causou polémica ao afirmar que Mario Balotelli “trabalhava para ficar mais branco”, comentário que o clube classificou como uma piada mal interpretada.
Uma ferida que tarda a cicatrizar
Entre denúncias em campo, reações, campanhas nas redes sociais e sanções disciplinares, o futebol continua a tropeçar num problema estrutural.
O caso que envolve Gianluca Prestianni e Vinícius Júnior abriu apenas uma ferida que ao longo do tempo nunca conseguiu cicatrizar.
