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"Trump tem evoluído nos seus objetivos, indo ao encontro de Netanyahu"

Onze dias depois de os Estados Unidos e Israel terem dado início a uma guerra contra o Irão, o fim do conflito continua a ser uma incógnita para os envolvidos e para o resto do mundo. Para Nuno Severiano Teixeira “realmente só o presidente Donald Trump” saberá quando vai terminar a guerra.

O professor catedrático da Universidade Nova Lisboa, e diretor do Instituto Português de Relações Internacional do mesmo estabelecimento, numa entrevista à RTP, considerou que o conflito “está ainda numa fase de expansão” e de “escalada”.

“O que é que a mim me parece que possa terminar ou condicionar o fim deste conflito? O próprio Donald Trump. Acho que ele é a única pessoa que tem a chave da guerra”, afirmou o docente, que foi também ministro da Administração Interna e da Defesa Nacional em governos socialistas.

Severiano Teixeira apontou ainda que, a si, lhe parece que exista aquilo a que os teóricos das relações internacionais chamam “aliança armadilha” entre os Estados Unidos e Israel. Normalmente, explicou, é a maior potência a ditar ‘as regras do jogo’ e a impôr as condições e objetivos para o conflito em causa. Nas aliança armadilha, contudo, é a pequena potência que “impõe as suas condições e deixa quase como refém, como prisioneiro dessas condições, a grande potência”.

“Em certo sentido, [Benjamin] Netanyahu está a desempenhar esse papel junto de Donald Trump, porque, se nós virmos, os interesses de Donald Trump não coincidem, apesar de tudo, completamente com os interesses de Netanyahu“, apontou o professsor catedrático. “Até agora, tem havido convergência de interesses. Vamos ver se a partir de uma certa altura há ou não divergência de interesses entre Israel e os Estados Unidos, porque de facto os objetivos são diferentes e os interesses são diferentes”, acrescentou.

Para os Estados Unidos, notou Severiano Teixeira, pode ser importante destruir o programa nuclear do Irão ou até mesmo as suas instalações de mísseis balísticos. Mas a mudança de regime “não é uma ameaça existencial para os Estados Unidos” – apenas para Israel.

“O que é curioso é que o próprio Donald Trump tem evoluído, aliás, de forma um bocadinho errática […] nos seus objetivos de guerra, indo ao encontro dos de Netanyahu”, notou o ex-governante.

Inicialmente, o presidente norte-americano justificava a ofensiva como sendo, meramente, de natureza militar, visando o programa nuclear e o armamento de longo alcance iraniano. “A partir de uma certa altura diz: ‘Não, não. Também há aqui objetivos de natureza política. Vamos decapitar as elites militares e políticas […]. E, depois, a partir de uma certa altura começou a dizer: ‘Vamos fazer uma mudança de regime’. Isso é uma outra coisa completamente diferente”, considerou.

E acrescentou: “Nós não sabemos verdadeiramente qual é o objetivo político de Donald Trump e, portanto, até onde é que ele vai. Se ele vai seguir Netanyahu até ao fim ou se a meio do percurso vai recuar e vai deixar Netanyahu seguir sozinho”.

Economia e política interna podem influenciar decisões de Trump

Para Severino Teixeira há apenas duas naturezas de fatores que podem levar a que Trump decida terminar, antes de atingir os supostos objetivos, com a guerra: económicos e políticos.

Em termos de economia, o docente apontou o próprio custo da guerra, recordando que, segundo a imprensa internacional, só a primeira semana do conflito já custou entre 9 a 10 mil milhões de dólares. Em segundo lugar, há também que ter em conta as consequências da crise energética que, a continuar, vai começar a afetar o comércio internacional, aumentando a inflação e as taxas de juro.

“E, portanto, isso mais cedo ou mais tarde afeta também os Estados Unidos e isso, obviamente, não é bom para a performance do presidente”, afirmou, chegando, então, ao fator de natureza política que pode influenciar Trump.

“O presidente tem eleições em novembro”, relembrou, referindo-se às eleições para o Congresso. O resultado pode pôr em causa a maioria republicana no órgão norte-americano, dificultando a aprovação de medidas do presidente. 

Por isso mesmo é que a opinião pública no que toca à guerra pode ser um fator importante para Trump… e, neste momento, a maioria dos norte-americanos não são a favor do conflito.

Nuno Severiano Teixeira mencionou ainda dados de uma sondagem recente sobre a opinião pública nos Estados Unidos sobre a guerra, apontando que a maioria, 54%, era contra a ofensiva.

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