A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados do Brasil elegeu na quarta-feira Erika Hilton para presidente, tornando-se a primeira mulher transgénero a ocupar o cargo, após uma votação tensa.
Reprodução Instagram Erika Hilton
De acordo com o site oficial da Câmara dos Deputados, entre as prioridades da nova presidência constam a fiscalização, a rede de proteção e as Casas da Mulher Brasileira, o combate à violência política de género e a promoção de políticas de saúde integral para as mulheres.
Erika Hilton recebeu 11 votos a favor e dez votos em branco.
“Esta presidência não é apenas um nome, é o símbolo de uma democracia que se expande. A minha gestão tratará de todas as mulheres: das mães solo, das mulheres trabalhadoras, das mulheres negras, indígenas e das que lutam por sobrevivência e dignidade em todos os cantos deste país”, declarou a parlamentar do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).
Apesar de ter sido eleita, as deputadas da oposição criticaram duramente a nova presidente da comissão.
“Nós não podemos calar-nos diante do que vemos. Esta comissão é das mulheres, e nós queremos ser representadas por mulheres de verdade, que entendem a nossa natureza e os nossos desafios biológicos”, criticou a deputada Clarissa Tércio.
Na mesma linha, a deputada bolsonarista Chris Tonietto considerou que o partido não pode concordar “com a entrega desta comissão, que deveria zelar pela dignidade da mulher, da vida e da família, a uma pauta que desvirtua a própria essência feminina”.
Por outro lado, a vice-presidente eleita, Laura Carneiro, frisou que “a comissão tem uma história de muitas lutas e conquistas”.
“Como vice-presidente, o meu compromisso é trabalhar ao lado da presidência e de todas as colegas para que o nosso foco seja um só: o direito e a dignidade de cada mulher deste País”, afirmou.
Quem é Erika Hilton?
Oriunda de Franco da Rocha, em São Paulo, Erika é uma das principais protagonistas do momento de transformação política que o Brasil está a viver.
Quando tinha 15 anos foi expulsa de casa pela família. Rejeitada pela sua identidade de género, admite que viveu na rua e chegou a recorrer à prostituição.
Em 2015, entrou na política quando reivindicou o reconhecimento do seu nome civil num cartão de transporte escolar. O abaixo-assinado online reuniu mais de seis mil assinaturas e levou à correção do documento.
O caso chamou a atenção do partido Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Em 2018, foi eleita codeputada estadual e, em 2020, concorreu à Câmara Municipal de São Paulo. Acabou por ser eleita vereadora com o maior número de votos na cidade.
Em 2022, foi eleita deputada federal, a primeira negra e trans na história do Brasil.
Nos últimos dois anos, foi premiada com o galardão de melhor deputada Federal do Brasil.
Um símbolo da representação da mulher na política brasileira
A trajetória política da deputada está ligada ao ativismo em defesa dos direito da população LGBTQIA+, da igualdade racial e de políticas sociais para os grupos mais vulneráveis.
No parlamento brasileiro, Erika Hilton já apresentou várias propostas e tem sido uma das vozes mais contundentes em debates relacionados com os direitos humanos, combate à discriminação e políticas de inclusão.
Um dos projetos de lei apresentados pela deputada com mais destaque é o PL 1245/23, o Programa de Atenção às Vítimas de Abuso Sexual. Garantir o atendimento humanizado e psicológico imediato na rede de saúde pública é o principal objetivo.
O combate à violência política de género é outra das principais pautas da deputada, que visa proteger candidatas e eleitas a cargos políticos. A ativista defende punições severas a quem coloca em risco o exercício democrático das mulheres no Brasil.
A presença da deputada no Congresso é apontada com um marco simbólico da maior representação de minorias na política brasileira.
