Entrevista SIC Notícias
O ex-ministro da Economia, Pedro Reis, analisa, na antena da SIC Notícias, as consequências do conflito no Médio Oriente, prevendo sequelas duradouras no Golfo Pérsico e três possíveis cenários para o Irão. Apesar dos efeitos negativos, considera que Portugal tem condições financeiras para enfrentar os próximos tempos, que se prevêem difíceis.
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O ex-ministro admite que, mesmo que o conflito cesse dentro de poucas semanas, deixará sequelas nos países do Golfo Pérsico:
“Ficarão fissuras de alguma maneira fundas regionais.”
Para o Irão, o principal visado dos ataques conjuntos de Israel e EUA, Pedro Reis admite que existem três cenários.
“O regime pode-se fortalecer na parte mais hostil, o regime pode sair dali mais moderado ou pode haver mudança de regime”, explica.
Qualquer uma destas opções, acrescenta, “não é indiferente para a reintegração do Irão” no espaço económico da região.
Recusa fazer previsões quanto ao tempo que o conflito durará, afirmando que ”se calhar, há muito poucas pessoas no mundo, incluindo o Presidente americano, ou o regime, que saberão o desfecho disto”.
Pedro Reis refere que o “primeiro nível” das consequências da guerra já está a ser sentido com a subida do preço dos combustíveis, mas aponta que os efeitos não ficarão por aqui:
“Depois passa para um segundo nível, que é a indústria toda que é impactada exatamente por esse filtro da energia e disparo nos preços. E aí vai a tudo o que é energia e indústria das economias mundiais. Não são só as eletrointensivas.”
Se a guerra continuar por muito mais tempo, as consequências serão sentidas “em tudo”. “Energia, combustíveis, alimentos e subprodutos todos industriais”, elenca.
A “terceira vaga”, elucida, trará o aumento da inflação, ainda assim recusa acompanhar, por enquanto, os “alarmismos exacerbados”.
Com a inflação, os bancos centrais são obrigados a subir as taxas de juro.
“Portanto, os nossos empréstimos à habitação, o endividamento das empresas, fica mais caro para um mesmo nível de rendimento ou de faturação”, explica.
“Hoje temos armas que não tínhamos”
Apesar das previsões negativas, o ex-ministro acredita que Portugal terá estofo para lidar com o que está por vir:
“Verdade seja dita, temos anos de recuperação da saúde de finanças públicas, do rating país, de uma gestão equilibrada orçamental. Portanto, nós hoje temos armas que não tínhamos quando houve a assistência financeira e a Troika em Portugal. Aí se vê porque é que vale a pena ter uma política económica e financeira responsável. E estamos a beneficiar disto.”
Revela ver com com bons olhos os apoios do Governo para mitigar os efeitos da subida do preço dos combustíveis e deixa alguns conselhos ao Executivo de Luís Montenegro.
“[É importante] estar preparado para dar flexibilidade no lay-off, ter a certeza que estamos a imunizar distorções nos mercados, ou seja, que haja arbitragens oportunistas que se tocam produtos para fazer subir o preço e ganhar mais dinheiro com isso, é fundamental. E depois os incentivos às empresas todas eletrointensivas e obviamente de fundo aproveitar e dar razão à importância da rede alternativa de energias renováveis e se calhar um dia temos mesmo de começar a discutir o nuclear à séria”, afirma.
Questionado se considera que o Governo deve voltar a intervir relativamente à escalada do preço dos combustíveis, Pedro Reis responde dizendo que “prepararia um reforço da ajuda”, mas esperaria para ver de que forma evolui o conflito.
Para o antigo ministro, os objetivos financeiros do país “ficaram mais longe e mais difíceis de alcançar”, mas não admite que isso se traduza em défice orçamental obrigatoriamente.
O excedente é uma possibilidade este ano?
“Acho que ficou mais longe, ficou mais difícil, mas nós termos saldo perto de zero não é necessariamente impossível”, estima.
