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“Fugimos da sede, da seca e da doença”: vidas em risco devido à seca na Somália


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A Somália enfrenta uma grave crise humanitária provocada por quatro temporadas consecutivas de chuvas insuficientes, deixando 4,4 milhões de pessoas em insegurança alimentar crítica. A MSF reporta um aumento de 48% nos casos de desnutrição aguda grave em Baidoa e Mudug e alerta para surtos de sarampo e difteria entre populações deslocadas, sobretudo em crianças.

Marwan Abdinor Ali

Nuney, 25 anos, é mãe de quatro filhos. Chegou ao campo de Baidoa, após 12 horas a caminhar na estrada com os filhos aos braços.

“Fugimos da sede, da seca e da doença. Neste momento, nem sequer tenho um único copo. Ontem à noite, e novamente esta manhã, os meus filhos comeram apenas o que os vizinhos conseguiram arranjar”, conta.

Nuney e o marido são agricultores que dependiam inteiramente do que cultivavam para sobreviver. No entanto, a fome raramente vem sozinha.

“Os meus filhos nunca foram vacinados, porque vivemos numa aldeia rural. Os que morreram tinham 5 e 6 anos. Eram ambas raparigas.”

Marwan Abdinor Ali

A Somália está na linha da frente da crise climática. Quatro temporadas consecutivas de chuvas insuficientes secaram poços, degradaram pastagens e reduziram colheitas. No Norte do país, mais de 70 por cento dos meios de subsistência dependem do pastoreio nómada, e o défice de precipitação deixou as pastagens ressequidas e os pontos de água secos.

As dificuldades provocadas pelas sucessivas chuvas falhadas levaram a uma subida acentuada dos preços da água, agravada por cortes drásticos na ajuda humanitária. Em novembro de 2025, o Governo Federal da Somália declarou uma emergência de seca.

Bishar Mayow

Casos de desnutrição e surtos de doenças evitáveis

Perante este cenário, as equipas da Médicos Sem Fronteiras (MSF) começaram a observar um aumento acentuado de casos de desnutrição e surtos de doenças evitáveis, como o sarampo, a difteria e a diarreia aquosa aguda, entre populações deslocadas e comunidades anfitriãs que procuram cuidados de saúde nas unidades em Baidoa e Mudug.

“A maioria dos campos para pessoas deslocadas depende de água transportada por camiões-cisterna a preços inflacionados, e há também uma grave escassez de latrinas”, explica o supervisor de mobilização comunitária da MSF, Ibrahim Ali. “As famílias não têm outra escolha senão racionar a água para beber e para lavar.”

Bishar Mayow

Conforme as Nações Unidas, cerca de 4,4 milhões de pessoas estariam a enfrentar níveis de inseguraça alimentar de crise ou pior no final de 2025, incluindo 1,85 milhões de crianças com menos de 5 anos em risco de desnutrição aguda. Além disso, mais de 3,3 milhões de pessoas já foram forçadas a abandonar as casas onde viviam, e muitas delas chegaram a campos sobrelotados nos arredores de Baidoa e Mudug.

Financiamento humanitário atinge o nível mais baixo da última década

Como se não bastasse, serviços essenciais começaram colapsar, à medida que o financiamento humanitário atinge o nível mais baixo da última década. Desde o início de 2025, mais de 200 unidades de saúde e nutrição fecharam em todo o país, e a assistência alimentar caiu de 1,1 milhão de pessoas apoiadas por mês para apenas 350 mil.

“Há fome e sofrimento por todo o lado. Foi isto que Deus quis e pedimos às pessoas que nos ajudem”, clama Iisho Daud Abdi, de 61 anos, que já foi deslocada quatro vezes.

“Aqui não temos nada. O nosso gado morreu. A seca e as dificuldades são demasiado grandes. Não há educação. As crianças não estão a aprender. A educação requer dinheiro, e nós não temos.”

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A seca transforma-se rapidamente numa emergência de saúde devido ao aumento de casos de desnutrição, desidratação, infeções cutâneas e maior risco de doenças diarreicas e cólera em acampamentos sobrelotados. As crianças ficam também mais vulneráveis a infeções como o sarampo e a pneumonia, enquanto a deslocação e a incerteza aumentam as necessidades de saúde mental – tanto dos pais, como dos filhos.

Bishar Mayow

Aumento preocupante de desnutrição aguda grave e sarampo entre crianças

Em Baidoa, em outubro de 2025, a equipa da MSF observou uma tendência preocupante: as admissões por desnutrição aguda grave aumentaram 48 por cento em comparação com o mês anterior. Ao mesmo tempo, 189 crianças haviam sido tratadas por suspeita de sarampo, das quais 95 por cento nunca tinham sido vacinadas.

Na região de Mudug, as admissões por desnutrição aguda grave em centros terapêuticos de alimentação em regime de internamento aumentaram 35% no mesmo período. Em toda a região, mais de 182 unidades de saúde fecharam ou estão apenas parcialmente funcionais, e estima-se que 300 mil crianças possam sofrer de desnutrição aguda.

“Estamos a ver crianças a chegar aos nossos hospitais em estado crítico, muitas vezes após viajarem durante dias sem comida nem água”, sublinha a coordenadora de projeto da MSF na Somália, Allara Ali.

“A seca não dizimou apenas os poços, mas também os sistemas de apoio de que as famílias dependem. As nossas equipas trabalham dia e noite para tratar a desnutrição grave e surtos de sarampo e difteria, mas o enorme volume de pacientes está a levar a nossa capacidade ao limite. As pessoas estão exaustas e, sem acesso imediato a água e cuidados de saúde, mais vidas serão perdidas por causas evitáveis.”

Bishar Mayow

“A fome e a falta de água limpa estão a tornar tudo ainda pior”

Nos campos, o custo da água disparou para níveis incomportáveis, com um barril de 200 litros a custar entre 2,50 e 4 dólares americanos em Baidoa e Mudug.

“A maioria dos homens está desempregada, e as mulheres estão grávidas ou a cuidar de crianças”, descreve Kaltuma Kerow, mãe de 35 anos que vive num campo de pessoas deslocadas internamente em Baidoa. “Não conseguimos pagar água. Temos pouquíssima comida e água e tememos doenças como a cólera. A fome e a falta de água limpa estão a tornar tudo ainda pior.”

Em resposta, a MSF lançou atividades de emergência de transporte de água por camião em Baidoa em dezembro de 2025. Até meados de janeiro, as equipas tinham distribuído mais de 6 milhões de litros de água potável em 17 campos para deslocados internos, instalando reservatórios de água e iluminação solar para melhorar a segurança e o acesso. Apesar deste esforço intensivo, a dimensão das necessidades continua esmagadora.

Yahya Mohammed

Rahma Bashiir, mãe de 38 anos que vive num campo em Galkayo, foi deslocada várias vezes devido ao conflito e à seca.

“Todas as minhas cabras e ovelhas morreram. Não conseguimos pagar água limpa, pois um barril custa 4 dólares, e os nossos filhos adoecem por beber água salgada”, relata. “Os medicamentos da farmácia não ajudam quando se está com fome.”

“Esta situação é inaceitável porque é previsível e em grande parte evitável”, frisa Elshafie Mohamed, representante da MSF na Somália. “A resposta humanitária atual está no nível mais baixo da última década, a deixar milhões de pessoas sem acesso a cuidados de saúde essenciais, alimentos ou água.”

Mohamed Abdirahman

A MSF apela a uma ação imediata para ampliar programas de nutrição, campanhas de vacinação e serviços de água, com um compromisso sustentado para ajudar as comunidades a resistir a choques climáticos recorrentes. Sem uma resposta multissetorial consolidada, não será possível evitar uma perda maciça de vidas.

“Esta noite veremos qual será a nossa sorte. Preciso de um abrigo, mas não tenho materiais para o construir nem dinheiro para os comprar”, suspira Nuney, cuja jornada no campo está apenas a começar.



SIC Noticias

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