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"Biblioteca oculta de Barcarrota": fidalgo português emparedou livros proibidos no século XVI em Badajoz

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Cultura

O proprietário da famosa “biblioteca oculta de Barcarrota”, com livros do século XVI, descoberta em 1992 dentro das paredes de uma casa perto de Badajoz, era de um fidalgo português, Fernão Brandão, perseguido pela inquisição, segundo um estudo recentemente publicado.

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“Este livro é sobre a tão conhecida ‘Biblioteca oculta de Barcarrota’, um conjunto de livros de grande valor histórico e literário” encontrados em 1992 “escondidos atrás de uma parede de uma casa de Barcarrota, Badajoz, que datam do século XVI e eram considerados heterodoxos, proibidos e mágicos”, explica Pedro Martín Baños, numa nota sobre o livro.

A origem da “biblioteca oculta de Barcarrota”, considerada um “tesouro bibliográfico”, tem sido um enigma que o estudo agora publicado acredita ter desvendado.

“A hipótese defendida neste trabalho é, precisamente, que o ocultador dos livros emparedados foi o fidalgo português Fernão Brandão, perseguido pela Inquisição no seu país, que deve ter passado algum tempo em Roma e depois veio parar a Barcarrota”, afirma Pedro Martín Baños.

Acusações da Inquisição a Fernão Brandão

A biblioteca encontrada em 1992 incluía 12 volumes, um manuscrito e um elemento determinante para a identificação de Fernão Brandão, um amuleto de papel que tinha inscrita “uma dedicatória com um nome, um lugar e uma data: Fernão Brandão, de Évora; 23 de abril de 1551. Roma, 23 de abril de 1551.”

A partir desta inscrição, Pedro Martín Baños centrou a investigação em registos com o nome de Fernão Brandão e identificou o fidalgo português nos arquivos da Inquisição de Évora, onde foi alvo de diversas acusações e queixas entre 1547 e 1549, e depois em Barcarrota, em documentos relacionados com transferências de propriedades da localidade.

Fernão Brandão foi acusado pelo Tribunal da Inquisição de Évora por “impiedade e irreligiosidade” e “sodomia”, por possuir “um livro de sodomia”, forrado como se fosse religioso, “em que estão homens representados cavalgando contra a natura uns a outros por trás”.

Segundo as acusações da inquisição portuguesa, citadas no estudo agora publicado, estavam que comia peixe e carne todas as sextas-feiras, domingos e outras festas religiosas, nunca rezava, jogava à bola com os criados em vez de ir à missa, desaparecia da cidade durante a Quaresma para se refugiar numa casa no campo, não se confessava, blasfemava contra Deus e os santos e possuía pequenas figuras de metal com que praticava rituais de magia e feitiçaria.

Fernão Brandão exilou-se em Castela “pelos excessos cometidos no seu reino”, segundo genealogistas portugueses citados no estudo.

Livros do século XVI proibidos pela Inquisição em Portugal e Espanha

Os livros da “biblioteca oculta de Barcarrota”, comprada pelo governo regional da Extremadura em 1995, são do século XVI e estão escritos em castelhano, português, francês, italiano e latim.

O conjunto inclui livros proibidos e não só pela Inquisição em Portugal e Espanha, como uma edição desconhecida de “Lazarillo de Tormes” (impressa em Medina del Campo, Espanha, em 1554), um exemplar de “Alborayque”, uma sátira aos judeus convertidos, dois tratados sobre quiromancia, um manual de exorcismos, uma obra de Erasmo de Roterdão, um livro de orações em vários idiomas, uma “Oração da Emparedada” em português e um diálogo erótico de caráter homossexual, “La Cazzaria”, do italiano Antonio Vignali.

O livro agora publicado em Espanha sugere que Fernão Brandão emparedou a sua biblioteca entre finais de 1559 e início de 1560, quando se publicou em Espanha o “Índice de Livros Proibidos do Inquisidor Fernando de Valdés”.

A lista do inquisidor Fernando de Valdés, de 1559, foi o primeiro índice sistemático da inquisição espanhola e proibiu 698 obras por serem consideradas hereges ou imorais.



SIC Noticias

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