É urgente (e essencial) ouvir a cadeia agroalimentar
Praticamente desde o início do conflito no Irão – cujo ataque foi iniciado pelos Estados Unidos da América (EUA) e por Israel em 28 de fevereiro, e se foi internacionalizando progressivamente – aqui temos falado dos seus riscos e consequências, embora numa análise conjunta que abordava, também, outros dossiers não menos relevantes para o setor, na agenda nacional ou em Bruxelas. No fundo, as notas de cada semana. Quiçá algumas das consequências da escalada da crise no Médio Oriente tenham passado relativamente despercebidas, pelo que importa refletir unicamente sobre este tema.
Como aqui antevíamos, os mercados internacionais vivem um período de grande volatilidade, influenciados pelos fatores geopolíticos e energéticos, decorrentes do bloqueio do Estreito de Ormuz e dos ataques a infraestruturas. Os preços do petróleo ultrapassaram os 119 dólares, os custos dos combustíveis e energia têm agravamentos sucessivos, impactando naturalmente os seguros, fretes, toda a logística e os preços das principais matérias-primas. Também já aqui falámos da questão, muito sensível, dos fertilizantes, críticos para a produção agrícola e cujos preços irão influenciar as decisões dos produtores na próxima campanha. O tema ganha ainda maior relevância porque a China decidiu restringir as exportações destes fertilizantes para proteger o seu mercado interno, o que reduz a oferta global.
Para além dos fertilizantes, temos igualmente os aditivos, que não são menos críticos para a alimentação humana e animal, assistindo-se já a constrangimentos no fornecimento, com quebras de contratos por motivos de “força maior”. Já aqui falámos em Notas anteriores da vulnerabilidade da Europa nestes ingredientes e da dependência que tem da China, pelo que a adoção eventual, por parte deste país, de uma estratégia semelhante à tomada para os fertilizantes, pode atingir contornos dramáticos para a alimentação animal e pecuária. Já não estão em causa os preços, mas sim as disrupções em larga escala e a indisponibilidade destes produtos no mercado.
Acrescem ao já referido, a pressão para a produção de biocombustíveis, impactando ainda mais os preços de milho e soja. Apesar do relativo alívio de hoje de manhã, na sequência de declarações que apontam para alguma contenção nos ataques, a conjuntura é de elevada incerteza.
No essencial, estamos perante preços de matérias-primas em alta e custos de produção dos alimentos compostos sucessivamente agravados, custos esses que a Indústria tem tentado conter, mas que terão de ser repassados para a cadeia alimentar mais tarde ou mais cedo, sobretudo num cenário, que não é de excluir, de prolongamento do conflito por mais algumas semanas.
Tudo isto nos leva à inflação, aos preços da alimentação e ao “controlo de danos”.
Temos neste momento uma inflação de 2,1%, nos produtos alimentares situa-se em 7% e é certo que o mês de março vai agravar os preços dos produtos energéticos e dos alimentos não transformados para níveis que (ainda) não conhecemos, mas que irão criar uma enorme pressão sobre a alimentação, como de resto já estamos a sentir.
Aliás, o Banco Central Europeu (BCE) acaba de divulgar os seus cenários, um mais favorável de taxa de inflação de 2,6%, com um pico de 3% no segundo trimestre, e outro bem mais adverso, em que a inflação poderia situar-se em torno dos 4%, com 4,8% em 2027. Recorde-se que a seguir à invasão da Ucrânia, a nível europeu, tivemos uma inflação de 5%, com o mês de outubro de 2022 a atingir um pico de 10,6%.
Os mercados já estão a prever uma subida das taxas de juro na próxima reunião do BCE de 30 de abril, e alguns analistas antecipam que, pelo impacto a nível global, as consequências deste conflito – se demasiado prolongado – serão mais dramáticas do que aquelas a que assistimos na sequência da invasão da Ucrânia.
Para Portugal, em outubro de 2022, também é bom recordar, a inflação situou-se nos 10,1% e nos produtos alimentares não transformados em 18,9% (os produtos energéticos 27,6%), a mais elevada desde junho de 1990.
A conjuntura é, de facto, muito preocupante e a cadeia agroalimentar mereceria uma maior atenção, à semelhança do que aconteceu esta semana em Espanha, em que as diferentes organizações representativas reuniram com os Ministros da Economia e da Agricultura. Pelo que sabemos, durante o debate setorial, foi colocada em cima da mesa a necessidade de medidas ágeis e eficazes, como a ajuda direta ou reduções fiscais semelhantes às aplicadas durante o início da guerra na Ucrânia.
Na semana passada, aqui insistimos (entre outras medidas) sobre a necessidade de o Governo adotar uma postura semelhante, que tão bem funcionou durante a pandemia e, mais tarde, na sequência da invasão da Ucrânia. Aliás, este ano, fomos convocados para uma iniciativa semelhante na sequência da imposição de tarifas à União Europeia pela Administração Trump.
Em nossa opinião, pelo que está em causa, e creio ser unânime para os colegas que então participaram nessa monitorização conjunta, deve ser reativada rapidamente a Comissão de Acompanhamento da Cadeia Agroalimentar e Logística.
Pese embora, na IACA (e na FEFAC), continuemos a trabalhar para transmitir a situação do setor à Administração e para dar o nosso contributo na identificação de soluções que garantam a competitividade da indústria da alimentação animal, é urgente (e essencial) ouvir a cadeia agroalimentar.
Tem a palavra o Governo!
Jaime Piçarra
Secretário-Geral da IACA
Notas da semana – EUDR: mais um elefante na sala? – Jaime Piçarra
