1. Introdução
No final do ano passado o INE publicou a primeira estimativa das Contas Económicas da Agricultura para 2025(CEA-25), cujos resultados marcaram, como já vem sendo usual, uma análise aprofundada por parte da equipa da AGROGES.
Para o efeito procedeu-se a uma comparação da evolução verificada entre 2024 e 2025 com a acorrida anualmente entre os anos de 2022 e 2025, no que diz respeito:
- aos volumes da produção agrícola, dos factores intermédios e de capital e à mão-de-obra agrícola, assim como, às respectivas produtividades;
- aos produtos agrícolas brutos em volume e em valor e ao rendimento do sector agrícola tomado no seu conjunto;
- à produtividade, competitividade e rendimento médios das explorações agrícolas portuguesas;
- aos termos de troca agrícola e aos apoios directos ao rendimento dos produtores.
Por outro lado, procedemos à análise da evolução de tais agregados na última década, após a introdução do ano de 2025 no triénio final da série temporal em causa, e a uma sua posterior análise comparativa com as décadas anteriores.
Vejamos quais as principais conclusões retiradas da análise realizada.
2. Produção, factores de produção e produtividades
De acordo com os dados das CEA-25, o volume da produção agrícola teve, no ano de 2025, uma evolução negativa (-2,1%) o que contrasta com os crescimentos verificados em 2023 (+2,3%) e 2024 (+3,8%) (Gráfico 1).
Gráfico 1 – Evolução do volume da produção, dos consumos intermédios e de capital e mão-de-obra agrícolas e das respectivas produtividades (%)

1) Valor da produção agrícola a preços no produtor constantes
2) Valor dos consumos intermédios e de capital a preços no produtor constantes
3) Número de UTA
4) Relação entre o volume da produção e da mão-de-obra agrícolas
5) Relação entre o volume da produção e dos factores intermédios e de capital agrícolas
Esta evolução negativa, em 2025, do volume da produção agrícola portuguesa foi acompanhada por um ligeiro crescimento anual (+0,2%) do volume dos respectivos consumos intermédios e de capital, inferiores aos verificados em 2023 (+3%) e em 2024 (+2,0%). Por seu lado, o volume de mão-de-obra agrícola utilizada teve uma evolução negativa no ano de 2025 (-1,7%) quase idêntica à ocorrida no ano de 2024 (-1,8%) e superior à de 2023 (-1,1%).
Em consequência de tais evoluções da produção e dos factores de produção, o ano de 2025, caracterizou-se por apresentar perdas de produtividade, quer do trabalho (-0,4%), quer dos consumos intermédios e de capital (-2,3%), bastante mais negativos do que os verificados em 2023 (-0,7%) e contrária ao aumento da produtividade de 2024 (+1,7%).
3. Produto e rendimento do sector agrícola
Em consequência destas evoluções dos volumes de produção e dos factores de produção utilizados, assim como do comportamento verificado em relação aos termos de troca agrícolas (+3,9%) e aos apoios directos aos rendimentos (-34,6%), os resultados económicos do ano de 2025 caracterizaram-se por (Gráfico 2):
- uma evolução negativa do produto agrícola em volume de -6%, muito mais desfavorável do que a observada nos anos de 2023 (+6,8%) e de 2024 (+1,7%);
- um crescimento de 3,3% do produto agrícola em valor mais favorável que o de 2024 (+0,7%), mas bastante mais negativo do que o de 2023 (+42,6%), o que resultou das muito diferentes evoluções verificadas nos respectivos termos de troca;
- uma quebra muito significativa no rendimento do sector agrícola (-6,6%) o que foi consequência da redução do valor dos respectivos apoios directos aos produtores (-34,6%) e que contrastou com os resultados muito positivos verificados para o rendimento do sector agrícola em 2023 (+21,4%) e em 2024 (+16%), os quais são explicados, respectivamente, pela evolução mais favorável dos termos de troca (+10,8%) e dos apoios directos ao rendimento dos produtores agrícolas (+105,4%).
Gráfico 2 – Evolução do produto e do rendimento do sector agrícola português e dos respectivos termos de troca e apoios directos aos rendimentos dos produtores (%)

1) Valor acrescentado bruto a preços correntes nominais
2) Valor acrescentado bruto a custo de factores a preços nominais
3) Relação entre os preços dos produtos e os dos factores intermédios e de capital com base nos respectivos preços implícitos
4) Pagamentos directos aos produtores ligados e desligados da produção
4. Produtividade, competitividade e rendimento das explorações agrícolas
No que diz respeito à produtividade média das explorações agrícolas portuguesas, o ano de 2025 apresentou resultados bastante negativos (-7,1%) o que contrasta com as evoluções positivas verificadas nos anos de 2023 (+1,4%) e, principalmente, de 2024 (+11%) (Gráfico 3).
Gráfico 3 – Evolução da produtividade, competitividade e rendimento médios das explorações agrícolas portuguesas (%)

1) Valor acrescentado líquido a preços constantes por UTA
2) Valor acrescentado líquido a preços reais por UTA
3) Rendimento dos factores a preços reais por UTA
Em relação à competitividade média das explorações agrícolas portuguesas, o ano de 2025 caracterizou-se por uma evolução anual de +2,1%, mais favorável do que o verificado para os anos de 2024 (-0,9%), mas muito menos favorável da verificada no ano 2023 (+50,9%).
Por último, é de realçar que 2025 foi também um ano bastante desfavorável do ponto de vista da evolução do respectivo rendimento médio das explorações agrícolas portuguesas (-9,4%), o que tendo sido consequência da quebra verificada nos respectivos apoios directos ao rendimento dos produtores, representou uma evolução bastante mais negativa do que a observada em 2023 (+20,9%) e em 2024 (+17,9%).
5. A evolução da última década face às anteriores
Dado o comportamento económico menos favorável do sector agrícola português em 2025, pareceu-nos interessante ver até que ponto é que isso põe em causa a conclusão que temos retirado em artigos anteriores no que se refere à evolução muito mais favorável destes resultados económicos na última década face às anteriores.
Para o efeito, procedemos à análise dos resultados anteriormente referidos com base no seu valor médio para os triénios “1994”, “2004”, “2014” e “2024” que delimitam as décadas correspondentes aos períodos entre as reformas da PAC de 1992 e de 2003, entre a reforma da PAC de 2003 e a intervenção da Troika e entre a intervenção da Troika e os nossos dias.
Da análise das taxas de crescimento médio anual estimadas para cada um dos períodos em causa, que constam do Gráfico 4, pode-se concluir que em relação à quase totalidade dos agregados económicos considerados, a evolução do sector agrícola português na última década manteve-se mais favorável do que a verificada, quer para as duas décadas anteriores, quer para o conjunto do período “1994” – “2004”. É de realçar que, contrariamente ao que seria desejável, os resultados económicos com uma evolução menos favorável na última década, dizem respeito à produtividade quer dos factores de produção, quer das explorações agrícolas.
Gráfico 4 – Evolução económica do sector agrícola português nas últimas décadas (%/ano)

6. Conclusão
Do anteriormente exposto pode-se, assim, concluir que o comportamento económico do sector agrícola português no ano de 2025 foi menos favorável do que nos dois anos imediatamente anteriores, mas que apesar disso a evolução dos resultados económicos na última década manteve-se globalmente mais favorável, quer das duas décadas anteriores, quer do conjunto do período correspondente aos últimos 30 anos.
Francisco Avillez (Professor Catedrático Emérito do ISA, UL e Coordenador Científico da AGROGES)
Manuela Nina Jorge (Directora Financeira da AGROGES)
