A história do mundo da ciência é frequentemente contada no masculino, mas ao contrário do que muitas vezes a narrativa oficial nos faz crer, “as mulheres têm capacidade inventiva” e “há cientistas extraordinárias” ao longo do tempo e por todo o mundo.
E é isso que a jornalista Filipa Almeida Mendes, do jornal Público, vem provar com o livro “O Efeito Matilda – As Mulheres Cientistas que a História Tentou Esquecer”.
No mês em que se celebra o Dia da Mulher (8 de março), o Notícias ao Minuto esteve à conversa com a autora.
A obra da jornalista é a prova viva que ainda é necessário assinalar este dia. As desigualdades de género persistem, assim como as disparidades salariais e o reconhecimento do seu trabalho (entre outros problemas, como o assédio e a violência).
Em 1893, a sufragista Matilda Joslyn Gage denunciou que a capacidade inventiva das mulheres estava a ser roubada. Um século depois, o termo “Efeito Matilda” deu nome a essa injustiça histórica.
Nesta entrevista, Filipa Almeida Mendes explica como um artigo comemorativo dos 50 anos do 25 de Abril se transformou num manifesto contra a invisibilidade feminina na ciência. Dos laboratórios de Marie Curie em Paris às salas de aula da Universidade de Lisboa, passando pela persistência solitária de Katalin Karikó, a jornalista percorre os caminhos de investigadoras como as portuguesas Branca Edmée Marques e Seomara da Costa Primo.
Mais do que um olhar sobre o passado, esta conversa é um alerta sobre o presente: as barreiras estruturais, os “tetos de vidro” e os estereótipos que ainda hoje tentam ditar quem tem direito ao título de “génio”.
O que a motivou a escrever sobre o “Efeito Matilda” e “as mulheres cientistas que a história tentou esquecer”? Houve alguma história em particular que tenha servido de gatilho para este livro?
Este livro surgiu no seguimento de um artigo publicado no jornal Público em fevereiro de 2024 precisamente sobre a discriminação contra as mulheres na ciência, no âmbito de uma série especial intitulada ‘Ser Mulher em Liberdade’ a propósito do 34.º aniversário do Público que marcou os 50 anos pós-25 de Abril. Após a publicação do artigo, a Leya sugeriu que aprofundasse o tema e eu aceitei imediatamente o desafio, consciente da importância de dar o devido reconhecimento a investigadoras responsáveis por descobertas extraordinárias.
A história da própria Matilda Joslyn Gage captou a minha atenção e interesse desde cedo e acredito que, talvez até inconscientemente, tenha sido um estímulo e alavanca à escrita deste livro – além de ser uma sufragista e defensora dos direitos dos afroamericanos, teve a coragem de denunciar a forma como a Igreja e o Estado vinham a reprimir a liberdade das mulheres há séculos; escreveu um ensaio sobre ‘A Mulher como Inventora’ em pleno século XIX; durante a inauguração da Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, apareceu com um megafone a expor a hipocrisia de a estátua representar uma mulher numa altura em que as mulheres tinham poucos direitos nos EUA; e terá inspirado as bruxas de Oz, representadas na obra como mais do que simples caricaturas do bem contra o mal.
Durante a sua investigação, qual foi a descoberta que mais a impressionou em termos de um “esquecimento” deliberado?
Todas as histórias abordadas no livro me chocaram de alguma forma. Ainda assim, uma das que mais me entristeceu foi a de Alice Ball, uma química afroamericana que desenvolveu um tratamento para a lepra – na altura, a doença estava associada a um enorme estigma social – e que morreu aos 24 anos, antes de concluir os seus estudos e de publicar os resultados. Foi então que Arthur Dean, reitor da Universidade do Havai onde Ball trabalhava, continuou a investigação e se apropriou indevidamente do crédito da descoberta, tendo chegado mesmo a apelidar a técnica de ‘método Dean’.
Outra história perturbante é a de Lise Meitner, que co-descobriu a fissão nuclear (o primeiro passo para a criação da bomba atómica) e foi discriminada por ser mulher numa área científica dominada por homens e filha de pais judeus na Alemanha nazi – mais tarde, exilada na Suécia. Os louros da descoberta foram para o seu colega Otto Hahn, que recebeu o Nobel da Química, tendo Meitner ficado de fora da premiação. Sabe-se agora que ela foi nomeada 48 vezes ao Prémio Nobel, mas nunca ganhou. Apesar de inúmeros convites, sempre recusou colaborar com o famoso Projecto Manhattan, defendendo a ciência como um esforço para compreender a natureza.
Apesar de, à partida, poder-se pensar que este fenómeno – efeito Matilda – só atingiu as mulheres cientistas do passado, no seu livro mostra que continua a acontecer no presente. Qual o caso mais flagrante na atualidade?
Dois dos casos relativamente recentes de discriminação contra mulheres na ciência (que também abordo no livro) são os de Svetlana Mojsov, que esteve na origem dos medicamentos atualmente populares pertencentes à classe dos agonistas dos recetores de GLP-1, como o famoso Ozempic, mas foi excluída de várias patentes ligadas à descoberta. O segundo é o de Katalin Karikó, apelidada pelos seus colegas de “a louca do ARNm” e cuja descoberta só teve reconhecimento global quando a pandemia de Covid-19 teve início e a tecnologia que ela ajudou a desenvolver salvou milhões de vidas.
Por que razão acha que o reconhecimento das mulheres na área da ciência tarda sempre?
Em primeiro lugar, salientar que este não é um fenómeno que se cinge à ciência, afetando várias esferas da sociedade. Acredito que persistem desigualdades estruturais, culturais e institucionais, com os homens a serem ainda contratados para cargos de topo mais facilmente do que as mulheres – exemplo disso é o que acontece em alguns laboratórios e na academia, com as mulheres a terem mais dificuldade em chegar a lugares como professoras catedráticas (e, quando chegam, demoram mais tempo do que os homens). A vida familiar e doméstica, assim como a maternidade, têm também impacto na progressão da carreira das mulheres cientistas, sendo ainda o papel de cuidador atribuído maioritariamente às mulheres.
No que diz respeito à ciência em particular, penso que também pesa o facto de as mulheres ficarem mais na retaguarda quanto à exposição pública, visibilidade e criação de redes de contacto, assim como o facto de algumas tomadas de decisão sobre o acesso aos cargos de topo serem feitas por comissões predominantemente masculinas.
E, claro, os preconceitos e estereótipos de género enraizados que associam a sapiência, a genialidade e a capacidade inventiva aos homens.
De todas as investigadoras de que fala no seu livro, qual delas considera que sofreu a maior injustiça?
Acredito que todas sofreram injustiças igualmente condenáveis. Temos tendência para considerar mais ‘gritantes’ casos de mulheres que, por exemplo, foram excluídas dos Prémios Nobel ou outras nomeações, mas creio que isso não significa necessariamente que tenham sido mais injustiçadas.
Durante a sua pesquisa para este livro, encontrou algum caso português merecedor de destaque? Qual e o que potenciou esse efeito?
O livro integra duas mulheres portuguesas. A primeira é Seomara da Costa Primo, uma investigadora e professora de Ciências Naturais que acreditava na importância da educação das raparigas e que marcou significativamente o sistema educativo português. Seomara foi ainda a primeira mulher a doutorar-se em Ciências Biológicas em Portugal e foi autora de vários compêndios de Botânica, Biologia e Zoologia, os quais ela mesma ilustrou. Ainda assim, foi vítima de discriminação na academia por ser mulher.
A segunda mulher portuguesa mencionada no livro é Branca Edmée Marques, uma mulher determinada que trabalhou diretamente com Marie Curie e foi uma das principais responsáveis pela introdução dos estudos radioquímicos em Portugal. Foi a primeira mulher a trabalhar no Laboratório de Química da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa – e, durante muitos anos, a única. Um episódio que demonstra a sua determinação é quando Branca é pedida em casamento por um colega da faculdade (e seu futuro marido) e só aceita com a condição de que ele a deixe ir para Paris (onde Marie Curie trabalhava) e não coloque qualquer obstáculo à sua carreira profissional. Apesar das provas dadas e do seu mérito, quando regressou a Portugal teve dificuldade em chegar ao topo da carreira – só assumiu a posição de professora catedrática de Química 12 anos depois de ter concorrido ao lugar e mais de 30 anos após ter regressado de França.
Acha que o “Efeito Matilda” ainda existe nas instituições académicas e científicas atuais? Que barreira ainda é necessário ultrapassar para quebrar este ciclo?
Nas últimas décadas, muito mudou no que diz respeito à igualdade de oportunidades, direitos e reconhecimento das mulheres na ciência (e não só). Atualmente, a maioria dos inscritos no ensino superior em Portugal são mulheres. Ainda assim, continua a verificar-se um predomínio masculino nas áreas STEM (Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemática) e, mais uma vez, há uma espécie de ‘teto de vidro’ no acesso aos lugares de topo.
Acredito que mecanismos e políticas como aquelas que têm sido implementadas na academia nos últimos anos para combater as assimetrias de poder e de representatividade ajudarão a chegarmos à paridade de forma mais célere.
De que forma é que falar destas histórias, dar a conhecer cientistas que nunca foram reconhecidas apenas pelo facto de serem mulheres, pode ajudar/influenciar as jovens que pretendem seguir carreiras nesta área?
Creio que é importante incentivar as raparigas a seguirem as áreas pelas quais se interessam e, para isso, é essencial mostrar que há modelos femininos a seguir e exemplos de mulheres extraordinárias – seja na ciência ou em qualquer outra área -, descortinando as histórias que permanecem na penumbra para que os erros do passado não se repitam.
Se tivesse de escolher uma das 18 investigadoras a que deu destaque no seu livro, qual seria? E porquê?
Talvez Katalin Karikó, que chegou a ser apelidada pelos seus colegas de ‘a louca do ARNm’. Acredito que esta é realmente uma história de esperança e perseverança e que o impacto da sua descoberta é muito palpável e atual. Afinal, não fosse ela ter insistido em prosseguir a sua investigação, juntamente com Drew Weissman, em ARNm, as vacinas contra a Covid-19 que ajudaram a salvar milhões de vidas perante uma pandemia provavelmente não teriam sido desenvolvidas de forma tão célere.
Qual é a principal mensagem que gostaria que os leitores retirassem após fecharem o livro?
A principal mensagem é que, tal como defendia Matilda Joslyn Gage no século XIX, as mulheres têm, sim, capacidade inventiva e há exemplos de mulheres cientistas extraordinárias a seguir. Todos temos preconceitos e estereótipos, mas importa reconhecê-los, combatê-los e superá-los. Até porque a ausência de vozes diversas e a discriminação contra as mulheres apenas dificulta a inovação e o progresso.
Leia Também: Mulheres “nunca abdicarão dos direitos conquistados”
