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“Enquanto houver um Donald Trump na presidência dos Estados Unidos a China pareça menos má”. E é nesse sentido, de “desvanecimento do sonho americano” que as referências culturais se deslocam no globo: “O maior descontentamento não é a favor da China, é contra os Estados Unidos”, explica a jornalista Kenia Pollheim Nunes n’O Futuro do Futuro
Quando, em janeiro de 2025, entrou em ação por pouco mais de 12 horas um bloqueio do TikTok no território dos Estados Unidos, os ‘refugiados digitais’ desembarcaram no RedNote, outra rede social chinesa que funciona como se fosse uma mistura do Instagram e do Pinterest. Ao entrarem na plataforma, que opera a partir da China e “está dentro da Great Firewall”, com conteúdos profundamente controlados pelo Partido Comunista Chinês, os utilizadores americanos deram de caras com um universo radicalmente diferente do TikTok e bastante mais elogioso ao contexto do país.
“Viram conteúdos de elogio e glorificação”, porque no Rednote não aparece debate, conflitos, opinião negativa ou crítica política. O que existe lá são rotinas inspiracionais, cultura pop chinesa, cuidados de beleza e uma estética cuidadosamente brilhante. No entanto foi este cenário de uma China mitificada que chegou ao Ocidente e acabou por inspirar aquilo a que agora se tem chamado Chinamaxxing, uma trend em que os utilizadores procuram “ser chineses” ao adotar rotinas, estéticas e pequenos hábitos associados, muitas vezes de forma estereotipada, à cultura chinesa.
Nuno Fox
Desta forma, a imagem que passou cá para fora foi que “até está tudo bem”, explica Kenia Pollheim Nunes no podcast ”O Futuro do Futuro”. O contacto inicial com o RedNote ajudou a transportar para o TikTok ocidental conteúdos adaptados dessa estética, agora “remixados” ao gosto da Gen Z e isso acelerou a visibilidade do Chinamaxxing. “Se estes conteúdos foram retirados do Rednote e passaram depois para uma estética ocidentalizada, foi porque aquilo que se viu inicialmente foi uma imagem muito filtrada”, detalha a jornalista especializada em cultura digital.
No entanto, o impacto não é só visual ou virtual. “Enquanto houver um Donald Trump na presidência dos Estados Unidos a China pareça menos má”. E é nesse sentido, de “desvanecimento do sonho americano” que as referências culturais se deslocam no globo: “O maior descontentamento não é a favor da China — é contra os Estados Unidos”, desenvolve. O próprio desgaste das instituições democráticas contribui para a relativização de autocracia como a chinesa: “O The Economist fala num novo balanço de poder: antes EUA vs URSS, agora EUA vs China”, refere, numa analogia com o período da Guerra Fria.
Entenda todo o contexto neste episódio d’O Futuro do Futuro, disponível nos sites do Expresso, da SIC e da SIC Notícias e nas principais plataformas de podcasts.
