Economia

À descoberta das Caldas da Rainha, "casa" de António José Seguro

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Os anos passam, mas ainda hoje se associa, de forma automática, o nome de Rafael Bordalo Pinheiro (Raphael Bordallo Pinheiro, na grafia original) à figura do popular Zé Povinho relegando para segundo plano o facto de ter sido uma das personalidades mais relevantes da cultura portuguesa oitocentista.

Caricaturista, ilustrador, ceramista, decorador e editor, Bordalo Pinheiro terá criado a famosa personagem do Zé Povinho, em 1875, figura que representava a personalidade do povo português. A genialidade do autor pode ser apreciada através da criação cerâmica que desenvolveu nas Caldas da Rainha, a partir de 1884, com a Fábrica de Faianças. Como Bordallo se deslocava de comboio, o percurso cultural começa no Largo da Estação, e termina na Fábrica de Faianças e Casa Museu Rafael Bordalo Pinheiro.

António José Seguro vota nas Caldas da Rainha

Nuno Botelho

Este é o ponto de partida para uma viagem pelas Caldas da Rainha, Cidade Criativa do Artesanato e Artes Populares da UNESCO e “casa” de António José Seguro, o novo Presidente da República, com tomada de posse agendada para dia 9 de março. O Chefe de Estado já anunciou que vai continuar a viver nas Caldas da Rainha deslocando-se diariamente para o Palácio de Belém.

ROTA BORDALIANA

Rota Bordaliana

Turismo Centro de Portugal

Aceite o convite e parta em busca das 20 gigantescas peças de cerâmica espalhadas pelas ruas das Caldas da Rainha. Algumas são modelos originais de Rafael Bordalo Pinheiro, como as rãs na fonte junto à estação de comboios, a vespa gigante, o lobo, os macacos na corda, no Parque D. Carlos I, o enorme caracol ou a icónica folha de couve, na Praça da Fruta. “Tartarugas, andorinhas e sardões também são modelos originais. Muitos foram recuperados na fábrica durante vários anos. Decoravam fontes e lagos no parque no tempo de Bordalo”, conta Elsa Rebelo, ceramista e diretora artística da Fábrica Bordallo Pinheiro, recordando o desafio de criar peças “quase com dois metros” e de movimento, como a Ama das Caldas. A Rota Bordaliana pode começar na estação de comboios, seguindo para a Câmara Municipal, para “cumprimentar” o Zé Povinho, ou na rodoviária, onde há um gato assanhado, uma instalação de andorinhas e paredes que contam histórias.

CERÂMICA COM HISTÓRIA

Carlos Barroso

Rafael Bordalo Pinheiro é o nome maior da cerâmica caldense, mas a história começou antes, logo após a fundação do hospital termal, em 1845, quando os oleiros da região exploravam uma terra “de muito bom barro e faiança”, pasta de que é feita a cerâmica que leva o nome do mestre, conta Elsa Rebelo, ceramista e diretora artística da Fábrica Bordallo Pinheiro. Hoje a tradição ganha novo fôlego, que se vê nas lojas e novos ateliês espalhados pela cidade. “Temos uma forte base manual que podemos usar sem perder as origens”, garante a ceramista Ana Cabral. Descubra o processo de criação em visita guiada à fábrica Molde (Tel. 262889120) e aprenda a moldar barro na roda, em rolos, bolas ou lastra nos workshops do 19 Tile Ceramic Concept ou no ateliê de Ana Cabral (tel. 927586199).

CIDADE CRIATIVA DA UNESCO

Rota Bordaliana nas Caldas da Rainha

Turismo Centro de Portugal

Cidade Criativa do Artesanato e Artes Populares desde 2019, a distinção da UNESCO deu nova vida às Caldas da Rainha. Importa notar, que apesar da projeção dada por Bordalo Pinheiro, a tradição ceramista remonta ao final do século XV, a partir do aproveitamento da qualidade das argilas locais que os oleiros utilizavam para produzir artigos utilitários destinados ao Hospital Termal, mandado erigir pela rainha Dona Leonor, rendida que estava aos poderes curativos das águas enlameadas do local. O século XX levou até às Caldas da Rainha um rasgo inovador e uma nova visão, graças à criação da SECLA (Sociedade de Exportação e Cerâmica) e aos ceramistas que ali trabalharam. Atualmente, encontra-se na cidade uma renovada comunidade criativa impulsionada pela Escola Superior de Artes e Design do Politécnico de Leiria (ESAD) e pelas muitas associações culturais da sociedade civil.

MONTRA VIVA

Centro de artes

CM Caldas da Rainha

O Centro de Artes (Tel. 262840540) funciona como uma montra viva da obra dos criadores locais, albergando cinco museus: o Museu Leopoldo de Almeida, o Atelier-Museu António Duarte, Atelier-Museu João Fragoso, Museu Barata Feyo e o Espaço da Concas. Se quiser aprender as técnicas básicas utilizadas pelos ceramistas, este é o local ideal, com um calendário de workshops e ateliês destinados ao público em geral. Com o Museu da Cerâmica encerrado para requalificação, outra possibilidade de imergir no pulsar desta Cidade Criativa é dirigir-se diretamente aos ateliês dos ceramistas que, ao longo do ano, promovem atividades com o público. O livro “Roteiro dos Ceramistas”, à venda no Posto de Turismo, inclui todos os contactos e é um verdadeiro mapa da criatividade.

ARTE URBANA

Caldas da Rainha – Cidade Criativa da UNESCO (Artesanato e Artes Populares)

Turismo Centro de Portugal

Em 2020, o FALU – Festival Artístico de Linguagens Urbanas celebrou a arte urbana ou street art com vários artistas a assinarem um conjunto de murais em vários espaços das Caldas da Rainha. “Inspirados pela história e carácter da cidade e das suas figuras”, as obras ajudaram a projetar as Caldas da Rainha “como a cidade criativa que é desde a sua fundação”. Nasceu, assim, uma Rota de Arte Urbana com trabalhos assinados por, entre outros, Add Fuel, Bordallo II e C´Marie & Egrito

AS MAIS ANTIGAS TERMAS DO MUNDO

Termas das Caldas da Rainha

Turismo Centro de Portugal

Reza a história que, certo dia, a caminho da Batalha, a Rainha D. Leonor, há muito afligida por uma ferida que não sarava, terá aqui parado e confirmado as propaláveis maravilhas destas águas termais, mandando erguer, no ano seguinte, o Hospital Termal das Caldas da Rainha. Fundado em 1485 é considerado o mais antigo do mundo. Destaca-se o pavilhão do Hospital Termal, que foi construído em finais do século XIX, com as altas janelas, é um belo exemplo de arquitetura termal. O desenvolvimento desta infraestrutura de cura e bem-estar esteve na origem do desenvolvimento, bem como no próprio nome da cidade. Hoje, as Termas das Caldas da Rainha(Tel. 262240012), além do serviço de hidrologia, destinado a portadores de prescrição médica, oferecem também uma extensa lista de tratamentos de bem-estar, como massagens, banhos de imersão e duche Vichy. No antigo hospital termal é de visita obrigatória o Parque D. Carlos I, um jardim romântico que também guarda o Museu José Malhoa (Tel. 262831984), onde pode conhecer a obra do pintor. O museu tem visitas guiadas por marcação. O parque confina com a Mata Rainha Dona Leonor, considerado o pulmão verde da cidade.

MARAVILHAS DE TEMPOS PASSADOS

Loja do Sr. Jacinto, nas Caldas da Rainha

DR

A Loja do Sr. Jacinto (Rua Dr. Miguel Bombarda, 7 e 9, Caldas da Rainha. Tel. 910487278), já foi retrosaria, chegou também a ser uma mercearia onde se vendia tudo a granel e serviu de entreposto ao Banco de Portugal para fazer troca de moeda. Hoje, Cláudia Henriques está à frente do negócio, com o marido, Samuel, neto do Sr. Jacinto. Há seis anos alteraram o conceito do espaço, transformando-o numa concept store onde a filosofia é promover o trabalho de artistas e artesãos locais, da cerâmica e do têxtil a peças decorativas e mobiliário em madeira e ferro, estes últimos feitos pelas mãos do próprio Samuel, designer industrial. “Mantivemos o chão, o balcão é o original, os móveis, o teto, e nas obras descobrimos maravilhas do antigamente, como uma gaiola pombalina e um corredor onde quase de certeza passou uma estrada”, conta Cláudia. Nas paredes ainda se observam os inventários escritos à mão e nas prateleiras malas antigas guardam a história de trabalho árduo do Sr. Jacinto, que depois de fechar a loja ainda fazia revenda porta a porta.

CAVACAS E BEIJINHOS

Cavacas das Caldas

Turismo Centro de Portugal

As Cavacas (os Beijinhos são uma versão mais pequena) são o mais emblemático doce das Caldas da Rainha. São bolos secos, mais ou menos redondos e côncavos, cobertos com açúcar branco e podem ser encontrados em muitos locais, como a Mercearia Pena ou o Café Central, bem como na Praça da Fruta, um popular mercado diário de frescos e artesanato no centro da cidade. Segundo a Direção-Geral da Agricultura e Desenvolvimento Rural, na descrição de Produtos Tradicionais Portugueses, a primeira referência às Cavacas surge “por volta de 1874”, quando Jesuína da Conceição Garcia abriu uma venda na Rua do Hospício, “fabricando as genuínas Cavacas das Caldas (como dizia a tabuleta da casa)”. Em Salir dos Matos pode visitar a loja da Fábrica de Cavacas das Caldas.

LONGAS AMIZADES

Restaurante Solar dos Amigos

FERNANDO SOUSA

Já com mais de 50 anos, o Solar dos Amigos (Tel. 262877135) é um espaço de comida tradicional cuja fama gera autênticas peregrinações até à aldeia do Guisado, a 7 km das Caldas da Rainha. As filas de carros estacionados na berma da estrada denunciam a romaria. O ambiente é acolhedor, distribuído por cinco salas e uma esplanada. Aqui tudo é servido em doses bastante generosas e a grelha é a grande especialidade. Experimente o “Bife à forcado”, o “Capote”, os “Cascos à Ribatejo” ou as “Bandarilhas de borrego”, acompanhadas de batata-doce, migas e feijão. Nos pratos de peixe sugere-se a “Tiborna de bacalhau”, mas também o original “Bacalhau à campino”. “É um bacalhau dentro de um pão caseiro. Vai à frigideira com alho e azeite, couve, feijão e o miolo, e depois deita-se tudo para dentro do pão, que é regado com azeite e vai a tostar ao forno”, explica Luísa Nunes, proprietária. Conte ainda com 25 propostas de sobremesa, todas feitas na casa, apresentadas num tabuleiro.

COZINHA PORTUGUESA, COM CERTEZA

Entrar na Adega do Albertino, junto às Caldas da Rainha, é como fazer uma viagem no tempo. O teto repleto de velharias, as coleções feitas com a ajuda de clientes e amigos, que por aqui vão deixando testemunho, são prova viva desse tempo que passou com gosto e que mexe com o imaginário. No restaurante Adega do Albertino (Rua Júlio de Sousa, 7, Imaginário. Tel. 262835152), a tradição serve-se rústica, em nome dos fundadores, que abriram a casa em 1989. Hélio, filho de Albertino, cresceu a ver a mãe cozinhar e regressou do Luxemburgo para ajudar. O “Entrecosto com mel e amêndoas” reina, sem ofuscar a “Rojoada à Adega” e o “Arroz de pato escondido”. O “Polvo na telha” e o “Cabrito assado no forno com castanhas” são outra homenagem à cozinha portuguesa, sempre em dose generosa. Termine com “Pêra borrachona em cama de suspiro”, uma sobremesa nascida na casa e que adoça a boca dos clientes há 20 anos.

O SEGREDO ESTÁ NA GRELHA

Taberna do Manelvina, nas Caldas da Rainha

DR

Alfredo Constantino Isabel está à frente da Taberna do Manelvina (Rua Principal, 21, Cruzes, Salir de Matos. Tel. 262870014) há 30 anos. O nome é uma homenagem ao pai, Manel, que em 1954 abriu uma mercearia, café e taberna, ponto de encontro da aldeia. Em 1997 Alfredo decidiu ampliar o espaço e transformá-lo numa casa de petiscos, batizando-a com o nome que hoje mantém. “Começámos com queijos e enchidos caseiros. Fomos os primeiros a ter churrasco de porco preto na zona. Depois veio o churrasco de toiro de lide. Sempre tive uma grande ligação ao mundo tauromáquico, entre toureiros, forcados e ganadeiros, e foi daí que veio a inspiração”, conta. O ambiente é totalmente dedicado à festa brava, com fotografias de clientes habituais e rostos conhecidos a decorar as paredes. O ritual da refeição é simples: o churrasco começa com os enchidos, segue-se a entremeada e as febras de porco preto e depois é preciso decidir entre a “Vitela do montado” ou o “Touro de lide”. “No final há ainda um ‘Preguinho’ que é uma coisa fenomenal. O pão é torrado e leva azeite e alho. Uma espécie de torricado da Azambuja, mas com prego”, explica. No verão as sardinhas assadas gozam de bastante fama.

PARTIR A LOIÇA À MESA

Maria dos Cacos

A ousadia do restaurante Maria dos Cacos (Rua General Queirós, 48, Caldas da Rainha. Tel. 914128223) começa na decoração, com uma enorme girafa preta a segurar um candeeiro, e continua na ementa de partilha. Ao jantar, há petiscos surpresa; ao almoço, o menu muda diariamente, exceto ao domingo, quando mantêm lugar cativo os “Pastéis de bacalhau”. Destaque para os “Cornetos de camarão”, o “Tártaro de novilho maturado”, o “Croquete de bochecha de novilho” e a “Sopa de lavagante e ovas”. Termine com “Tarte basca de queijo e sorbet de framboesa”.

SABORES E VINHOS DA GEÓRGIA

NUNO ROLINHO

Archil Shinjikashvili é natural da Geórgia embora viva em Portugal há mais de duas décadas. Nas Caldas da Rainha comanda a cozinha e a seleção vínica do restaurante Geo Wine & Supra (Hemiciclo Joao Paulo II, 9 A, Caldas da Rainha. Tel. 914025995), local para petiscar e beber um copo à moda da Geórgia. O espaço, aberto em 2019 por Archil e a mulher, Patrícia, começou por ser de fusão das duas cozinhas, que se mantém, embora o grande destaque seja para os pratos típicos deste país: “Khinklushkas”, um tipo de pastéis recheados com carne; o incontornável “Khachapuri”, em várias versões, ou “Ajapsandali”, estufado de legumes. O proprietário confere toque de autor às diversas sugestões do menu, elevando a riqueza da cozinha georgiana. Considerado o país mais antigo do mundo a produzir vinho, conte com uma forte presença desta bebida (entre brancos, tintos, biológicos e amber wines), em especial os néctares de produção tradicional, em talha.

UM ITALIANO DE REFERÊNCIA

Sopa de peixe e marisco no restaurante Sabores de Itália, nas Caldas da Rainha

DR

De ambiente formal e serviço atencioso, o restaurante Sabores de Itália (Praça 5 de Outubro, 40, Caldas da Rainha. Tel. 262845600), é um clássico que não sai de moda. As massas caseiras prendem a atenção, em propostas como o “Pansotti de camarão com molho de Mascarpone e aneto” ou o “Tortelloni de vitela de leite com nozes e natas”. Considere o “Linguine nero com vodka e salmão”, o “Risoto de sapateira com coentros” e as pizzas. São já emblemáticos o “Carpaccio de salmão com trufas” e o “Bife do lombo”

ONDE DORMIR NAS CALDAS DA RAINHA

19 Tile Ceramic Concept

NUNO_ROLINHO

Dos quartos aos workshops de cerâmica, no alojamento 19 Tile Ceramic Concept (Rua General Queirós, 46, Caldas da Rainha. Tel. 910435286) celebra-se a cultura e os artistas caldenses, com inspiração recolhida também nas viagens de Pedro Felner, o proprietário, que fez de cada um dos 14 quartos e suítes (a partir de €90), bem como dos quatro apartamentos, autênticas galerias, com obras e história dos autores expostas aos visitantes. Parta a pé à descoberta de lugares emblemáticos das Caldas da Rainha, como o mercado ao ar livre, o Parque D. Carlos I, o Museu José Malhoa ou o restaurante Maria dos Cacos.

Hotel SANA Silver Coast

Filipe Pombo/AFFP

Em frente ao Jardim D. Carlos I, o SANA Silver Coast (Avenida D. Manuel Figueira Freire da Câmara, Caldas da Rainha. Tel. 262000600) mantém a elegância do antigo Grande Hotel Lisbonense. Dos 87 quartos (desde €105), sete são suítes, incluindo duas nas águas-furtadas, com banheira de hidromassagem. Nos corredores e no lobby do hotel, trajes, loiças e cartas contam a história de visitantes ilustres, como Bordalo Pinheiro. A fachada foi preservada e serve de cenário para os encontros na esplanada do bar. Experimente o brunch, o chá das cinco e as propostas do chef Diogo Medalha no restaurante Lisbonense.

Praça da Fruta, nas Caldas da Rainha

Turismo Centro de Portugal



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