Agronegócio

A escalada da incerteza? – Jaime Piçarra – Notas da semana


A semana que hoje termina fica claramente marcada pelo conflito no Médio Oriente, com os ataques dos Estados Unidos da América (EUA) e Israel ao Irão, a extensão aos países do Golfo e a sua internacionalização. A evolução do conflito, escalada ou cessar-fogo, é, neste momento, muito difícil de prever, pese embora os sucessivos apelos ao fim das hostilidades, à observação do direito internacional e ao regresso à diplomacia.

Para já, as consequências são as que se conhecem: impactos na vida de todos nós, desde logo em termos económicos, para além das tensões ao nível da NATO e da União Europeia (UE), e entre os EUA, a Rússia e a China, com consequências também na guerra na Ucrânia e no futuro das negociações de paz (e da sua integração na UE?). Acresce à lista de consequências a tensão gerada com o posicionamento da UE face aos EUA, na sequência das ameaças do Presidente Trump a Espanha. Uma vez mais, está em causa a segurança da integridade física de milhares de pessoas, e também da sua segurança alimentar.

As dificuldades de navegação do Estreito de Ormuz, com o aumento dos custos dos fretes, representam um fator relevante nos mercados de exportação, enquanto se assiste à valorização dos preços do petróleo, tal como do gás natural. A energia volta a ser um fator crítico. Tudo isto influência os mercados das principais matérias-primas, com o trigo, o milho e a soja a registarem subidas nos mercados internacionais (a soja com um efeito de contágio decorrente do milho e do trigo). No entanto, a oferta altista destas matérias-primas, em particular a soja (com níveis record no Brasil), pode limitar a expansão dos preços nos mercados europeus, mas também a procura da China no mercado norte-americano. A valorização do dólar representa outro fator de pressão sobre os preços de mercado, enquanto reforça a competitividade das exportações europeias.

Um outro fator crítico tem a ver com os fertilizantes.

O Médio Oriente representa cerca de 40% do comércio mundial de ureia, pelo que existem riscos de cancelamento de contratos ou de recurso a rotas alternativas. Um conflito prolongado pode conduzir a disrupções, pressionando ainda mais os custos de produção, com impactos nas opções de cultivo, o que não deixará de afetar o nosso País.

No essencial, os preços das commodities estão a ser influenciados pelas tensões geopolíticas e pela energia, com os riscos logísticos a condicionarem toda a cadeia de abastecimento. A única certeza é a de que vamos enfrentar um período de maior volatilidade nas próximas semanas, com potencial impacto nos preços dos alimentos, tanto maior quanto mais prolongado for este conflito. As movimentações da Rússia e da China serão igualmente determinantes para conter uma eventual escalada.

De resto, a nível europeu, o COPA/COGECA já emitiu um comunicado a exigir à Comissão Europeia, entre outras medidas, o Plano de Ação para os Fertilizantes, há muito aguardado.

Tal como os aditivos para a alimentação animal, os fertilizantes são indispensáveis para a produção europeia de géneros alimentícios e de alimentos para animais. Quaisquer disrupções no mercado comprometem a segurança alimentar europeia, e a viabilidade das explorações agrícolas. Uma vez mais, está em causa a soberania da UE.

Ainda no plano europeu, o acordo entre a UE e o Mercosul vai avançar, no seguimento da sua ratificação pelo Brasil, com o Conselho a dar luz verde às cláusulas de salvaguarda para os produtos agrícolas, enquanto continuamos a discutir o Quadro Financeiro Plurianual e a reforma da PAC pós-2027. Tendo em conta as posições conhecidas das organizações agrícolas europeias, estes dois dossiers podem representar ainda maior tensão entre os agricultores e a Comissão Europeia.

É, assim, uma conjuntura difícil para a UE e para Portugal. No plano interno estamos a lidar com a devastação provocada pela tempestade “Kristin” e com as suas consequências no setor agroalimentar.

Estivemos esta semana, juntamente com outras organizações representativas da cadeia agroalimentar, numa reunião com o Ministro da Agricultura e Mar, para iniciar a discussão do PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência. O objetivo é preparar o País e, no caso, o setor agroalimentar, para o futuro, para ser mais resiliente, sem esquecer a sua competitividade.

No entanto, se a ambição, correta, é a de transformar e ter uma visão de médio e longo prazo, importa, para já, cuidar das explorações agrícolas e pecuárias e das empresas que foram seriamente afetadas. Também por isso, estivemos em Leiria, com a FPAS, no âmbito da FILPORC, com o responsável pela Estrutura de Missão. Falámos sobre financiamento, linhas de crédito, seguros, relação entre a banca comercial e o Banco de Fomento, da simplificação, a necessidade (urgente) de desburocratizar e agilizar os licenciamentos.

São necessárias medidas de liquidez para que as pequenas e médias empresas possam regressar rapidamente ao mercado. Os decisores têm de ter a noção de que existe uma elevada interdependência setorial que impacta toda a cadeia de valor, e que a recuperação e a reposição do potencial produtivo, podem ser mais longas que o previsto, pelo que importa apoiar as empresas neste processo, para que não sejamos ainda mais dependentes das importações e mais vulneráveis às ameaças externas.

Com danos avaliados na ordem dos 5 mil milhões de euros no quadro da devastação que nos assolou, os instrumentos de financiamento que temos à nossa disposição (Orçamento de Estado, PRR, Portugal 2030, Fundo Ambiental, PEPAC…) serão certamente insuficientes, sendo urgente definir prioridades.

Se a situação excecional em que vivemos exige medidas de exceção, muito provavelmente, o Governo tem ainda de estar preparado para tomar medidas de mitigação dos impactos do conflito no Médio Oriente, quer para as empresas, quer para os consumidores, como aconteceu no passado.

Porque a Alimentação deve ser encarada na dimensão da defesa e segurança alimentar, precisamos de previsibilidade e de travar, pelo menos em Portugal, a escalada da incerteza.

Jaime Piçarra
Secretário-Geral da IACA

PTRR: Reformar Portugal, reforçar o Agroalimentar – Jaime Piçarra – Notas da semana



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