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A escola spam – SIC Notícias



Uma forma de medir essa consideração, esse favor que os encarregados de educação portugueses atribuem à educação, é avaliando a regularidade da sua presença em reuniões escolares. Sim, as malfadadas e infaustas reuniões de pais.

Falta-se em barda às reuniões de pais. Ir a uma reunião escolar gera mais ou menos o mesmo entusiasmo de ir a uma reunião de condomínio. Nenhum.

As escolas lá vão fazendo os possíveis para receber todos os encarregados de educação. Mobilizam funcionários, redecoram salas, tiram bicas, compram biscoitos, abrem à noite. Convocam reuniões com escrupulosa antecedência regulamentar, de modo a permitir que todos consigam conjugar agendas.

Para os conquistar, nenhum director de turma atende os encarregados de educação exclusivamente no horário definido para esse efeito. Pelo contrário, é comum conceder-se bastante flexibilidade, permitindo que os professores agendem reuniões fora desses períodos, de modo a ir ao encontro das disponibilidades parentais.

Ainda assim, os pais não vão. Mesmo quando essas reuniões são marcadas a tempo e horas, os encarregados de educação não comparecem. É habitual que, numa turma de vinte e cinco alunos, apenas nove ou dez pais apareçam.

A maioria não vai e pronto. A pergunta que se impõe é: como pode um pai fazer o filho gostar de uma escola cujos convites ele mesmo ignora?

Um tédio insuportável

São raros os pais que vão a todas as reuniões para que são convocados e mais raros ainda aqueles que apresentam uma qualquer justificação para a sua ausência. A boa educação mandaria ao menos isso. Quem normalmente vai às reuniões não precisaria de ter ido e quem falta é que lá devia estar. Muitos vão a todas nos primeiros anos e depois vão-se descuidando.

Não se fareje aqui moralismo algum. Convenhamos que, em muitos, muitos casos, os pais têm muita razão para não ir. Aquilo não tem interesse nenhum. Com a regularidade de todas as monotonias, são, quase sempre, noventa minutos de um tédio sedativo onde se arenga sobre generalidades bondosas e admoestações vagas.

Projecta-se um powerpoint com fotografias de uma ida recente a um museu que fica em Alguidares de Baixo com selfies de miúdos felizes por não estarem na escola e uma lista de projectos e boas intenções para o período ou semestre seguintes. Aqui, uma mãe queixa-se de uma professora que isto ou aquilo. Ali, outra acha que as refeições da cantina antigamente eram melhores. Ao lado, outra ainda concorda com tudo, perante o silêncio dos restantes que temem represálias contra os seus rebentos ou murmuram defeitos e indignações contidas.

O DT é um príncipe da Nigéria

Diz-se muitas vezes que alguns encarregados de educação temem participar nestas reuniões por não saberem como contribuir, por terem baixos níveis de escolaridade, ou porque têm ou tiveram uma relação difícil com a escola.

Diz-se que não querem saber dos seus educandos ou recusam abandonar o conforto do lar. Outros receiam ter de se defrontar repetidamente com julgamentos ou apreciações desagradáveis sobre os seus filhos. Outros consideram ainda que os professores devem ser respeitados e não se deve interferir no seu trabalho. Não ter com quem deixar os restantes filhos em casa ou problemas de transporte servem também como motivo para a sua ausência.

Ora, quase tudo isto é uma redonda mentira. Os pais querem mesmo saber dos seus miúdos e fariam tudo para que tivessem uma vida melhor. Nenhum destes argumentos – quase sempre preconceituosos e desgarrados – serve para explicar esta notória desmobilização. Mas é também uma ingenuidade não os considerar para melhor saber superar o problema. Eles existem. A demissão parental é um fenómeno gritante e crescente.

Pais que participam na vida da escola de forma natural e próxima prestam um bom serviço aos seus miúdos. Existe uma correlação forte entre pais que vão às reuniões e filhos com boas notas.

Não porque vão a reuniões mas porque em casa desse modo se demonstra a importância e o prestígio que deve ser conferido à escola e ao estudo. Contudo, cada convocatória de escola é uma espécie de spam. Uma mensagem que ninguém pediu, e que ninguém deseja, e que nos aparece na mesma, cheia de entusiasmo. É como aquele familiar que só nos telefona quando quer pedir dinheiro. É aquele email urgente de um príncipe herdeiro da Nigéria.

Pai no papel

A pandemia deixou-nos ferramentas que permitem que as reuniões sejam híbridas e recorram ao online para superar dificuldades logísticas e de deslocação dos pais. Importa criar uma atmosfera amável e que remova o formalismo destes contextos, tornando a experiência mais humana, nem que seja com pausas para café, chá e bolinhos.

Há escolas a entregar certificados de “família participativa” a pais que se esforçam por assegurar um acompanhamento constante dos seus miúdos.

Há despachos a proibir que as reuniões durem mais do que trinta ou quarenta minutos, tornando-as curtas e diligentes.

Há directores de turma a pedir aos seus alunos que apresentem trabalhos, recitais ou dramatizações em plena reunião, tornando-a mais apetecível e divertida.

Uma escola não é feita de professores e alunos. Quando a participação dos pais se resume a assinar um papel só porque sim, é mais burocracia do que ajuda — não serve para grande coisa. A responsabilidade é, pois, recíproca.

Alucinogéneos pedagógicos

Não basta querer pais presentes — é preciso que eles queiram lá estar sem sentirem que entraram num tribunal com cadeiras pequenas. A escola não pode continuar a comunicar como quem envia circulares em latim administrativo. A comédia involuntária do sistema põe professores a falar para pais que não estão e pais a queixarem-se de professores que não ouviram.

O desafio não é obrigar os pais a ir. É fazer com que sintam que vale a pena. Uma das soluções mais válidas é não convocar reunião nenhuma. Fazê-lo apenas por necessidade imperiosa. Simplificar, rarefazer e encurtar reuniões, saber comunicar com clareza, vagar e prontidão.

Em tempos de algoritmos há quem sugira que se crie um só para isto: sempre que um pai ignorasse três reuniões consecutivas, desbloqueava automaticamente um nível premium onde deixava de ser convocado durante todo o ano. A paz, enfim.

Importa assumir que o problema não é da escola. É das reuniões. Ninguém gosta de reuniões. A solução não é multiplicá-las como cogumelos pedagógicos alucinantes, mas torná-las escassas, ágeis e perigosamente úteis.

Uma reunião onde se entra às 18h00 e se sai às 18h27 com três decisões claras tem mais impacto do que três sessões épicas onde se discutiu o “perfil do aluno” e se saiu com fome e um folheto.



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